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Los Perros (2017 – CHL) 

Não  vá ver o filme chileno com aquela impressão de outro-filme-sulamericano-sobre-ditadura-militar. A questão está ali, lantente, mas é muito mais sobre a posição da mulher (tanto em sua força, como em sua própria fragilidade, na sociedade). Mariana (Antonia Zegers) é essa mulher irregular e fascinante. Claramente de uma burguesia de mimos que sempre a afastaram da realidade de seu país. Vive cercada de seu amor por cães, e cavalos, e a boa vida que o marido proporciona.

Faz aulas de equitação, mas seu professor (Alfredo Castro) passa a ser investigado por ter participado de tortura contra militantes de esquerda no governo Pinochet. E Mariana, destemida, atrevida, age instintivamente. Curiosa por informações, ela seduz, se desinteressa, acha desimportente, quase um ultraje afastá-la de tão distino cavalheiro. Entre envolvimentos causais com homens, Mariana vive a verdade a seu modo, enquanto enfrenta a opressão dos mais machistas. Roteiro e direção de Marcela Said de um filme cuja personagem é tão rica e curiosa, dentro de suas inconsistências e irregularidades, das preocupações de um mundo que deveria girar ao seu redor.


Festival: Cannes 2017

Mostra: Semana da Crítica

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El Club (2015 – CHL) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Após sua trilogia de histórias na ditadura Pinochet (Tony Manero, Post Mortem e No), o diretor chileno Pablo Larraín mira suas críticas à Igreja Católica. Num pequeno vilarejo praiano, alguns padres e uma freira vivem algo parecido a cárcere privado, semi-aberto, administrado pela própria entidade católica. São religiosos acusados de crimes hediondos: de pedofilia a tráfico de bebês. Aquelas sujeiras que escondemos para debaixo do tapete.Vidas renegadas à penitência, a maneira do Vaticano de proteger sua imagem e se esquivar dos escândalos.

Os dias passam entre refeições, orações, cânticos e a grande atração da casa: o cão vencedor de corridas da cidade. Sim, padres que deveriam estar presos, mas vivem de apostas em corrida de cães. O filme tem sua guinada com a chegada de um novo padre ao “clube”, e um perturbado jovem que à porta da casa provoca com lembranças dos abusos sexuais que este padre teria feito a ele quando criança.

A fotografia obscura, meio nebulosa, lembrando filmes russos (como os de Sokurov), ajudam a complementar o espírito tenebroso da vida, e dos passados obscuros. Chega um novo padre para investigar acontecimentos e os comportamentos, Larraín divide a narrativa em entrevistas e discursos de alto apelo sexual. Expõe em palavras os abusos, provoca o silêncio com que o Vaticano tenta lidar com os “exluídos”. A trama leva os personagens a uma panela de pressão, mas como em seus filmes anteriores, o clímax é subaproveitado. Ainda assim, a conclusão é corrosiva, humana e tão absurda quanto a maneira com que lidamos com a solução de nossas questões.