Posts com Tag ‘Antonio Banderas’

Dolor y Gloria (2019 – ESP)

O tempo vai passando, as pessoas comentando com você, e mesmo depois de alguns meses, fica essa vontade de revistar, mesmo que não seja revendo, nem que seja recordar. E esse recente trabalho de Pedro Almodóvar é um desses casos. O que fica na memória depois de algum tempo?

O mais forte é essa sensação de proximidade, uma intimidade que o cineasta nos convida a visitar, a sua própria intimidade. Antonio Banderas é seu alter-ego, seu apartamento, seu armário, algumas pequenas cápsulas da própria vida de Almodovar, que ele se aproveita para desenvolver a história de um personagem em angustia, mas também dor (inclusive física), e da força interior de se reconectar com pontos e pessoas da sua vida.

Da solidão ao redescobrimento, o passado e presente ajudam a construir esse alter-ego que, realmente, não é o próprio cineasta, mas está embriagado dele mesmo. Dessa forma, ele volta a nos emocionar, logo ele que já fez isso tantas vezes, e vinha ensaiando a acertar em cheio novamente, aqui conseguiu porque é difícil não se envolver com a cólera, o corpo entorpecido, as memórias que criam novas histórias, e como uma fênix, o renascimento para um novo personagem, uma nova pessoa, que é uma variação amadurecida daquele que conhecemos no início, e mesmo assim não deixa de ser o mesmo, inclusive ele, Almodovar.

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labirintodepaixoesLaberinto de Pasiones (1982 – ESP) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

O cameo de Pedro Almodóvar como vocalista de uma banda escrachada, de longe o que de mais interessante há nessa de suas comédias de início de carreira. Interessante por quem é Pedro Almodóvar hoje, naquela época, não teria o mesmo sabor. É um típico Almodóvar daquela fase de início da década de 80, extravagante, rocambolesco, sexual, colorido, gay, exagerado.

Um príncipe à paisana, uma cantora ninfomaníaca, um terrorista gay, a filha abusada sexualmente pelo pai (dono de uma lavanderia), o ginecologista que não gosta de sexo. Misture bem, bata no liquidificador, e deixe os soltos por Madrid. Kitsch por excelência e convicção. É de um humor que não agride, cuja sexualidade está explícita em cada diálogo, por mais que o filme seja visualmente cuidadoso, é Almodóvar em sua criatividade absurda que exagera tanto, que erra quase sempre.

MachetemataMachete Kills (2013 – EUA) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

O charme do filme anterior, e de boa parte dos trabalhos de Robert Rodriguez é o estilo que se impõe com virilidade e humor. Homens másculo e imorríveis, mulheres lindas com suas metralhadoras, sangue jorrando por todos os lados. A questão é encontrar o limite. Quanto o público tolera dos acontecimentos impossíveis, da imortalidade do protagonista, dos excessos de personagens e diálogos? Pelo fracasso desse segundo capítulo (que já prometeu um próximo, no espaço) esse limite existe, e Rodriguez o ultrapassou.

A trama envolve do presidente dos EUA até chefes da máfia mexicana, incluindo um muro que fora criado entre EUA e México para evitar a invasão dos ilegais. De resto, uma constelação de estrelas entrando e saindo de cena em sequencias mirabolantes, e que não repetem o charme e humor de outrora. Coisas como “Machete não twita” não funcionam tão bem e o descrédito desse filme é certo.

osamantespassageirosLos Amantes Pasajeros (2013 – ESP) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Muita gente torce o nariz, mas eu admiro Pedro Almodóvar e Woody Allen. Eles carregam essa carga de “cineastas-autores”, emplacaram seus filmes nas grandes redes exibidoras de cinema, onde imperam apenas os blockbusters. Respeito pelo status que alcançado. Mas quando chega um novo filme desse “peso-pesado”, e não consegue espaço em nenhum festival importante, vai parar no Festival de Los Angeles? É atestado de que o filme não deu certo. Acompanhar carreiras traz esse sabor de tentar entender, traçar um panorama, novos horizontes. No caso de Pedro Almodóvar, os sinais de desgaste de seu cinema são bem evidentes. Seus últimos filmes patinam entre momentos de brilhantismo, e repetições inferiores ao que ele já fez tão bem. A Pele que Hábito é o melhor caso, revisitando o bizarro e as mutações sexuais, porém o incremento financeiro não faz jus à maturidade, a nova visão sobre o que foi visto antes carrega pragmatismo.

Dessa vez ele resolveu voltar ainda mais longe na carreira, resgatar suas comédias de início de carreira. Elas eram escrachadas, exageradas, atrapalhadas até o limite. Foram o início de sua trajetória, cheias de imperfeições, mas divertidas. Sua nova aventura humorística traz o que Almodovar tinha de típico, sem que nunca consiga chegar a lugar algum. Um bando de gays afetados, o sexo transformado em vulgar, e os dramalhões exagerados, todos os tons passam dos limites que Almodovar já tinha esticado. O resultado final é constrangedor, a reunião de boa parte dos atores que formaram sua filmografia merecia um pouco mais de carinho, a despretensão disfarçada mostra o desgaste que Almodóvar não consegue se livrar. Apelando, e da forma mais triste possível.

Ruby Sparks (2012 – EUA)

Passou meio em branco o segundo filme dirigido pelo casal, Jonathan Dayton e Valerie Faris, depois do sucesso estrondoso de Pequena Miss Sunshine. E não encontrar a melhor forma de conduzir a fase mais densa (e por isso menos fofa), além de se apegar demasiadamente à cartilha da comédia romântica (paixão, briga, reencontro), podem ser as razões para que o filme tenha passado despercebido.

Se bem que, ele não perde em nada para a maioria dos similares do gênero. Divertidinho, romântico, a namorada perfeita (Zoe Kazan que assina o roteiro) que surge da páginas do livro que Calvin (Paul Dano) está escrevendo, acaba numa síndrome de Efeito Borboleta onde percebemos que por mais que se idealize alguém, em algum momento as coisas podem sair fora daquilo que se considera “mundo perfeito”.

La Piel que Habito (2011 – ESP) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Da safra mais recente de filmes da carreira de Pedro Almodóvar, este é o que mais se aproxima de um mundo almodovariano anterior à sofisticação de Fale com Ela. Inclusive, desde Fale com Ela Almodóvar tenta reencontrar seu caminho. Até ali sua obra vinha marcada por fases distintas, por uma evolução natural rumo à sofisticação. Dali em diante, o cineasta busca, em suas próprias obsessões, o caminho a seguir. Qual o próximo estágio? Enquanto não encontra o caminho, patina em possibilidades (às vezes acerta, como no caso de Volver). Nesse novo filme voltam a vingança, o bizarro, e o tema sexual, adaptando o livro Tarantula de Thierry Jonquet, o cineasta praticamente traz à tona um Frankenstein moderno totalmente obcecado pela junção desses três tema (vingança, voyeurismo, sexualidade).

Ainda assim, mesmo sendo um filme com “cara” tipicamente almodovariana, troca-se a sofisticação pelo peso. A mão do cineasta não acerta nem em suas características primitivas. O tom tragicômico passa longe. Os diálogos carregados de um melodrama típico, aqui parecem passar do ponto (pesados), as cores berrantes dão lugar a tons cinzas modernos que nada dialogam com seu cinema, o protagonista (Antonio Banderas) peca pela canastrice quando poderia se colocar como um personagem tão fascinante dentro desse jogo de vingança-saudade-desejo. Fora os tiros, tiros, e mais tiros, e armas para todos os lados, há alguma coisa de errado quando um filme precisa apelar tanto para esta artimanha.

Matador

Publicado: junho 8, 2006 em Cinema
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matadorMatador (1986 – ESP) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

 

Um dos mais interessantes, entre os menos celebrados filmes do espanhol Pedro Almodóvar. No epicentro as semelhanças entre sexo e touradas. O início é bruto, um homem masturbando-se ao assistir um filme de terror na tv. Depois, o mesmo homem ensina seus alunos a técnica para matar o animal durante uma tourada. Simultaneamente, uma mulher pratica sexo com um desconhecido, seus movimentos condizem perfeitamente com a aula, que está sendo ministrada (belos cortes simultâneos entre aula e sexo), até o momento crucial em que ela crava em seu parceiro um objeto pontiagudo, na mesma posição que o professor demonstrava como deve ser feito com o touro. O espírito do filme foi exposto.

Para dissecar melhor esse espírito, Almodóvar enche a história de personagens. O macabro dá espaço ao bizarro, e principalmente o confuso (que tanto instigava o cineasta). Essa é a fase menos interessante do filme, Antonio Banderas domina esse trecho, interpretando um jovem vivendo com sua mãe católica fervorosa, o rapaz está intimidado por sua virgindade, tenta estuprar a vizinha, e termina assumindo crimes que não cometeu. A crítica ostensiva a religião é o ponto principal dessa fase, o restante se encaixa como elo entre os verdadeiros personagens cruciais.

Rapidamente o mistério começa a desenvolver-se e o que prometia ser apenas um filme de suspense, apresenta-se como uma bizarra história de amor. Um sentimento explosivo fortalecido pelo prazer de matar: amor, sexo e prazer, morte, touradas, quem poderia imaginar que essa união causaria um amor inflamado, ardente, definitivo. O final vai te conquistando, nem tanto pelos momentos decisivos, muito mais por aquele sentimento que toma conta dos dois corpos, lá se foi o limite da razão, chegaram ao limite do prazer.