Posts com Tag ‘Antonio Banderas’

atameÁtame! (1989 – ESP) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Um Pedro Almodóvar intermediário, como num rito de passagem para uma nova fase. Nem tão extravagante e bizarro como no início, e nem tão intrínseco e delicado como na recente safra de seus filmes. Ata-me é um filme solto (por mais estranha que essa afirmação possa soar) que além de tratar do amor, também aborda uma classe da sociedade, que o cineasta conhece bem e sempre está presente em seus filmes, o submundo de drogas, prostituição, travestis, violência. Nota-se que Almodóvar não está preocupado em dar fluidez total a seu filme, muito menos fazer com que todos os acontecimentos pareçam extremamente plausíveis, essas passagens são de importância secundária, apenas para dar ritmo à história. Sua preocupação é com o louco amor levado às últimas consequências.

Saído de um hospital psiquiátrico, Ricky (Antonio Banderas) vai direto atrás da mulher (Victoria Abril) por quem se apaixonou há um ano, uma ex-atriz pornô e ex-drogada que acaba de estrelar um filme de terror “B”. Querendo, a todo custo, fazer com que ela o ame assim como ele sente, Ricky sequestra Marina e a mantém encarcerada, dentro de sua própria casa, prometendo mantê-la assim até que o amor dela seja despertado. Por mais hediondo que possa parecer esse ato e esse amor, acontecimentos desencadeados por esse sequestro fazem a história rumar para um estranho pedido (a cena mais bonita do filme) que demonstra os sentimentos e a inconstância do amor.

mulheresabeiradeumataquedenervosMujeres al Borde de un Ataque de Nervios (1988 – ESP) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Com um título desses, duas conclusões são certeiras, trata-se de uma amalucada comédia e a culpa dessa histeria feminina deve s referir a algum homem. Bingo, minhas duas impressões estão corretíssimas, Pedro Almodóvar tece um emaranhado tão complexo, e tão cheio de coincidências, que fica difícil tentar separar um personagem de outro. Uma rede dos mais esquisitos tipos, dos mais diferentes desejos, se encontrando num mesmo apartamento. O filme marca o fim da fase de comédias de Almodóvar, a seguir veria sua fase mais prolífica, seus melhores dramas. Curioso como o cineasta espanhol deu essa guinada, em sua carreira, no exato momento que acertou em cheio. Até aquele momento era seu grande filme, sedimentando de vez sua carreira internacional.

Pepa (Carmen Maura) está desesperada para reencontrar seu amante que acaba de deixá-la, passa o dia entre telefonemas e visitas a possíveis paradeiros de Ivan. Sua amiga Candela se envolveu com terroristas xiitas. A ex-esposa de Ivan vive um amor obsessivo, o quer de volta a todo custo. Seu filho procura um apartamento, com sua antipática noiva. Como se pôde perceber, cada uma dessas mulheres vive conflitos amorosos. Desesperadas, perderam a noção da compostura, esqueceram a linha, movidas por seus objetivos.

É um Almodóvar completamente alucinado, reunindo tipos, aprontando mil. Uma mulher tenta pular pela janela, outra coloca fogo na própria cama, e um simples gazpacho torna-se peça chave nessa trama deliciosamente rocambolescas e com leves doses de suspense. Um roteiro genial, e delicioso, onde Almodóvar solta sua imaginação. Quando mulheres estão à beira de um ataque de nervos (Carmen Maura é a mais completa tradução desse momento), e colocam suas garras de mostra, é melhor deixar que elas se entendam.

aleidodesejoLa Ley del Deseo (1986 – ESP) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

A Lei do Desejo é um título mais que pertinente, é como se nessa micro-sociedade, exposta por Pedro Almodóvar, essa fosse a lei principal a reger as pessoas, a reger seus corpos, seu instintos. O amor está sempre envolvido, mas é o desejo a suprema força capaz de envolver esses estranhos personagens. Estranhos porque, como muitos sabem, Almodóvar é obcecado pelo bizarro, pelo esquisito, pelo repulsivo.

Não gosto do filme, mas sei perceber que o desejo está impregnado em cada cena, em cada movimento de câmera, em cada gesto dos atores. Um escritor apaixonado (Eusebio Poncela) vive crise com seu parceiro, que se mudou para uma cidade litorânea, simultaneamente inicia uma relação de puro desejo com um estranho (Antonio Banderas). Por mais claro que escritor tente deixar sobre seus sentimentos, o estranho é possessivo, e o desejo sem limites é a faísca para a fogueira que essa relação vai se tornar.

Almodóvar não tem vergonha em retratar que uma parcela das relações homossexuais preza pela promiscuidade, é como se ele quisesse dizer que essas relações são menos hipócritas já que o desejo é um instinto humano. Os relacionamentos do filme são mais honestos em aceitar e entender o desejo, não o tratando como infidelidade. Uma proposta complexa e delicada, e completamente impossível à sociedade de modo geral. Por outro lado, Almodóvar trabalha camuflando seus personagens com o bizarro e o estranho. O leve tom de suspense, o roteiro pobre que não foge do trivial, tudo está camuflado pelo homossexualismo e pela intensidade de desejo.

Mas nem tudo está perdido, num travelling, já no final do filme, Almodóvar mostra sua marca. Todos esperam o desenrolar dentro do apartamento, tensão. A câmera focaliza os carros de polícia, os policiais e outros pedestres que olham para as janelas do apartamento, uns fumam, outros apenas olham. Uma cena linda, a sirene dos carros de polícia, uma parada estratégica que mais intensifica do que alivia as tensões.