Podcast Cinema na Varanda: EP 13 – O Mundo Fofodark de Tim Burton

Os filmes, a exposição, as marcas registradas: o cinema de Tim Burton é o tema principal da edição desta semana. Não sem alguns desafios para a equipe do podcast. Michel Simões tirou o cineasta de sua lista negra e fez uma maratona de longas do diretor. O esforço valeu: o trio comenta a filmografia COMPLETA do americano, que lançou na semana passada o trailer de seu próximo projeto, “O Lar das Crianças Peculiares”. Uma longa história, portanto: puxe uma cadeira e desça no buraco do coelho. Além disso, Chico Fireman dá uma geral na exposição em homenagem a Burton, em cartaz no MIS. Na segunda parte do programa, o Tiago Faria vibra, sem disfarçar, porque o assunto é “Cemitério do Esplendor”, novo objeto não-identificado do tailandês Apichatpong Weerasethakul, que venceu a Palma de Ouro em Cannes por “Tio Boonmee” graças a… Tim Burton, que presidia o júri. Bom podcast!

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Cemitério do Esplendor

cemiteriodoesplendorCemetery of Splendour (2015 – TAI) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Uma escola transformada em hospital provisório, onde soldados enfrentam uma doença misteriosa de viverem em sono profundo. A narrativa é tranquila como uma canção de ninar. Voluntárias, entre elas Jenjira (Jenjira Pongpas) auxiliam os soldados, deitados nos leitos, que variavelmente acordam e passam algumas horas pelo local bucólico, até caírem em sono repentinamente. Uma jovem médium realiza a comunicação quando os soldados estão dormindo, lendo seus sonhos.

O cinema de Apichatpong Weerasethakul, “Joe” para faciliar o texto, já passou do estágio de ser novidade. Mesmo levando em conta a forte presença do místico, essa ligação direta com lendas e crenças tailandesas, afinal, elas trazem elementos capazes de sempre oferecer o novo, o inesperado. Deixar de ser novidade não é sinal de desgaste, talvez de uma zona de conforto que conecta o cineasta e seu público. Um dos sinais dessa fase de sua carreira pode ser notada pelas opções de Cannes de preterir seus últimos filmes da competição principal.

A verdade é que Joe cria outra de suas peças imaginativas, de beleza visual indescritível (as luzes interligadas ao sono dos soldados oferece um aspecto completamente oposto ao arcaico do local), e repleta de significados, sejam eles visuais, ou extraídos das conversas pacatas. Nesse local misterioso (que guarda um passado mitológico) quase tudo parece possível, desde estátuas que se tornam jovens, de carne e osso, e passam a conversar com Jenjira, até estranhos animais, se banhando no lago, e tratados de maneira extremamente natural pelos humanos. Como se o diretor quisesse tornar a estranheza algo tão natural, quanto harmônico.

Seu discurso anti-belicista é claro, um dos soldados chega dizer que não há futuro no exército. Por outro lado, os momentos de estranheza ganham algumas cenas desnecessárias, além desse tom contemplativo que sempre deixará mais questionamentos do que um mínimo de respostas sobre estes personagens.

Repercussão: Cannes 2015

cannes2015E ontem se encerrou mais uma edição do badalado, amado/odiado Festival de Cannes. Não tem jeito, ele é o balizador do ano, a maior plataforma de lançamento dos filmes que devem figurar entre os mais falados do ano e presentes em outros festivais. Da tela do meu computador, ou do celular, estive acompanhando mais um ano de críticas, repercussões, tweets e podcasts. Críticos torcendo por alguns filmes, odiando outros, enquanto por aqui se espera, ansiosamente, a oportunidade de conferir grande parte da lista de filmes que complementou todas as mostras do festival.

Mas o festival inicia, verdadeiramente, algumas semanas antes, com a divulgação dos filmes selecionados. Cada festival tem suas características, mas todos querem estar em Cannes, afinal é a grande vitrine para venda de direitos de distribuição no mundo todo. É o parque de diversões do arthouse. Os primeiros sinais de surpresa vieram com a divulgação, nomes considerados certeiros na Competição Oficial foram parar em mostras paralelas, dando espaço para outros diretores que já figuravam em edições anteriores do festival, mas nunca com tal destaque. Assim, Miguel Gomes (ok, seu filme de 6h não coube no escopo da Competição), Desplechin, Kawase e Apichatpong Weerasethakul forma preteridos.

cannes20153Antes eram apenas especulações de nomes e títulos, agora, são especulações baseadas nas opiniões dos outros. Ainda assim, no resumo o festival traz expectativas positivas, ainda que alguns tenham decepcionado fortemente. Mesmo só tendo ganho o prêmio de direção, Hou Hsiao-Hsien sai como o queridinho da imensa maioria. Desde sua primeira exibição se torna o filme mais aguardado do ano. Outro que deixou muita gente vislumbrada foi Carol de Todd Haynes (Rooney Mara levou o prêmio de melhor atriz, empatado com Emanuelle Bercot por La Loi Du Marché) num melodrama requintado. Também grandes elogios para Saul Fia, do estreante húngaro Laszlo Nemes (Grande Prêmio). São os quase unanimes da Competição, com Mia Madre (possível último filme de Nanni Moretti) também desperando boas does de elogios.

cannes20152A segunda leva é de filmes curiosos, ou de diretores eficientes. Agora todos querem falar sobre Dheepan (vencedor da Palma de Ouro), o francês Jacques Audiard havia batido na trave com O Profeta, mas seu cinema é daqueles que preenche as salas de cinema alternativo sem que cause grande comoção. São boas histórias, narradas de forma eficiente, thriller ou drama, longe das construções sofisticadas de alguém como Hsiao-Hsien. Seu novo filme é sobre imigração ilegal de um rebelde de Sri Lanka. A recepção foi positiva, mas não vi uma lista sequer em que o filme estivesse no top 10 do festival.

 

Festival é assim mesmo, sua importância está na exibição, a premiação é a cereja do bolo. Afinal, o júri é formado por poucas pessoas, ligadas ao cinema, e portanto fica muito pessoal. Os irmãos Coen presidiram o júri, a escolha por Audiard me parece até coerente com o que se esperar dos Coen, por mais que não sejam estilos semelhantes. O humor negro dos Coen pode até ecoar na vitória de The Lobster (prêmio do júri), se bem que Lanthimos vai muito além do humor negro, e, pelo visto, teremos que aturá-los por mais um tempo. Mountains May Depart, de Jia Zhang-Ke também causou boas impressões, drama político acerca de algumas década de sua China.

Os italianos pareciam vir com tudo, Sorrentino era o grande favorito (antes do festival começar), e nem ele, e nem Garrone conquistaram a maioria. Joachim Trier, Stephane Brizé e Dennis Villeneuve, e até Kore-eda agradaram. O restante ficou entre o medíocre (Michel Franco levou roteiro, muitos detestaram) e as vaias (a maioria não entendeu a presença do filme de Gus Van Sant).

 

cannes20154Das mostras paralelas, As 1001 Noites, de Miguel Gomes, encantou, os romenos Porumboiu e Munteau, além de Apichatpong e Desplechin foram só elogios. Deixando assim essa sensação estranha de um festival que tenta forçar uma renovação, deixando de lado alguns de seus pesos pesados, para apostar em jovens (que talvez não sejam as apostas corretas). Cannes pode se dar ao luxo de colocar nomes tão importantes na Un Certain Regard ou na Quinzena dos Realizadores, mas, pelas repercussões, não foram os jovens cineastas que demonstraram a renovação.

A vitória francesa, e até a escolha na abertura de um filme francês que nada agradou, demonstram uma tentativa de olhar para dentro da própria indústria francesa. Percebe-se um destaque menor ao cinema americano nessa edição (por mais que houve exibição de animação nova da Pixar, e o novo Mad Max tenha figurado entre os melhores do festival), ainda assim é perceptível esse movimento de tentar renovar. E a cerimonia de entrega dos prêmios então, várias apresentaç~eos musicais, um clipe de homenagem, um flerte forte para o formato de festa que o Oscar promove (não deu certo). Cinema não é um esporte, nem uma ciência exata, viva a pluralidade, e as opiniões distintas. E se o júri não escolheu o melhor filme, que pena, porque daqui alguns anos, o que vai se lembrar é da Palma de Ouro para Jaques Audiard.

Links da Semana

Vamos para a segunda parte do post sobre filmes que vem por ai!

Zama (de Lucrecia Martel) [Los Andes] [IndieWire] [Hollywood Reporter]

Francofonia: Le Louvre Under German Occupation  (de Aleksandr Sokurov) filmado no Louvre [Screen Daily] [24 FPS Verite] [C7nema]

Gone Girl (de David Fincher) – adaptação do livro Garota Exemplar [IndieWire] [Vulture] [Youtube]

Cemetery of Kings (de Apichatpong Weerasethakul) [Hollywood Reporter] [IndieWire] [IonCinema]

Jersey Boys  (de Clint Eastwood) [Variety] [Omelete]

April (de Vincent Gallo) [IndieWire] [Film Buff]

Top 10 – Off Circuito

Ano chegando ao fim, hora de eleger os preferidos. A primeira lista é composta com filmes (vistos em 2013) que não estreiaram no circuito nacional, e nem estão programados (segundo o FilmeB). Só valem filmes produzidos entre 2011-2013.

Felizmente, o circuito brasileiro anda cada vez melhor, a oferta de bons filmes melhorando com novas distribuidoras. Mas, ainda assim, esses filmes fizeram falta nos nossos cinemas em 2013. Documentários surpreendentes, diretores bem conhecidos em filmes pequenos, e até outros com grandes astros que acabaram preteridos pelas distribuidoras.

top 10 2013 off Circuito

Links da Semana

sokurovnoccbb• CCBB está exibindo o que pode ser a grande mostra de cinema do ano. Grande parte do trabalho do russo Aleksandr Sokurov está sendo exibido nas unidades do Centro Cultural Banco do Brasil. Um dos mais instigantes cineastas da atualidade. [CCBB]

• A cidade de Detroit vai entregar uma estátua do Robocop, não é demais? [AV Club]

• Divulgada informações sobre o novo filme de Apichatpong Weerasethakul [Ipsilon

• Christopher Nolan dirigindo o próximo 007? [IndieWire]

• E para encerrar, o The Guardian fez um resumo da carreira de Carey Mulligan, por fotos [The Guardian]

Hotel Mekong

HotelMekong

Mekong Hotel (2012 – TAI/FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Da frustração de um material que acabou não virando filme, a um média-metragem fluido e inesperado, onde, às margens do Rio Mekong, Apichatpong Weerasethakul versa por fragmentos. Pelos relatos, a ideia era ensaiar Ecstasy Garden, o próprio cineasta aparece com o músico Chai Bhatana que dedilha ao violão uma trilha a embalar todo o filme. Pelos quartos e vista do rio, poucos personagens falam ou lidam com o amor, com relações familiares, com questões políticas e guerras civis.

E Apichatpong não perde sua ligação com o mundo da fantasia, a lenda do fantasma bop que toma os hospedes do hotel, a mãe vampira que habita o local há 600 anos. A forma como costura tudo isso, de um jeito que parece tão despretensioso, quase desinteressado. Mas, ainda assim, cada pequeno diálogo carregado de questões importantes, como as enchentes do rio, ou a situação de divisa com Laos e a migração dos vizinhos. Apichatpong está, a todo momento, colocando seu “eu” pelo personagens, enquanto trata de um flerte, ou do canibalismo incontrolável que transforma alguns ali.