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Les Fantômes D’Ismaël (2017 – FRA) 

Um dos cineastas franceses mais interesantes da atualidade, Arnaud Desplechin tem uma carreira tal qual seu cinema, onde a irregularidade é um dos seus charmes. Seus últimos três filmes deram uma guinada para crises mais íntimas, talvez um reflexo do próprio estágio na vida do cineasta (pura especulação), mas é fácil notar essa tendência: seja em Terapia Intensiva e a psicanálise com um índio americano, ou no recente Três Lembranças da Minha Juventude.

Não é coincidência que o filme tenha seu habitué Mathieu Amalric retomando o personagem intitulado Ismael (assim como era em Reis e Rainha), um diálogo direto ou uma continuação espritual, porque o personagem é semelhante, mas com trajetórias e casamentos diferentes. Aqui ele é cineasta, que vive de cama em cama desde que sua esposa (Marion Cotilard) desapareceu, há mais de vinte anos, inclusive dada como morta. Brincando com flashbacks e idas e vindas no tempo, a narrativa tenta construir as bases amorosas desse homem, enquanto conta sua nova história de amor com Sylvia (Charlotte Gainsbourg). Até que a esposa ressurge e assim todos seus fantasmas.

Diferente do brilho do anterior, este aqui demonstra o cansaço da fórmula de Desplechin, suas irregularidades não constituem um de seus mais saborosos retratos de personagens complexos e aflitivos. Novamente não é um filme fácil, mas é um caminho já transpassado pelo cineasta, sua zona de conforto, cujas angustias e crises funcionam melhor para pequenas momentos (como a dança de Cotilard ou encontro com o pai) do que na constituição do filme como um todo.


Festival: Cannes 2017

Mostra: Fora da Competição

Os meus 25 filmes favoritos do ano de 2015. O critério é o mesmo do ano passado, filmes vistos ao longo do ano, e que foram produzidos até 2 anos atrás (portanto, limite é 2013). Eles formatam, na visão deste blog, o melhor do panorama do cinema, com toda a subjetividade que uma lista dessas possa ter. E, novamente, o top 10 comentado tenta captar um pouco da percepção sobre estes filmes e sobre o cinema contemporâneo.

assassina

  1. A Assassina, de Hou Hsiao-Hsien
  2. Mad Max: Estrada da Fúria, de George Miller
  3. Hard to be a God, de Aleksey German
  4. Carol, de Todd Haynes
  5. Noites Brancas no Píer, de Paul Vecchialli
  6. Diálogo de Sombras, de Jean Marie-Straub e Danièle Huillet
  7. Phoenix, de Christian Petzold
  8. As Mil e Uma Noites: Volume 1 – O Inquieto, de Miguel Gomes
  9. Sniper Americano, de Clint Eastwood
  10. Spotlight, de Tom McCarthy
  11. O Tesouro, de Corneliu Porumboiu
  12. O Ano Mais Violento, de J. C. Chandor
  13. Três Lembranças da Minha Juventude, Arnaud Desplechin
  14. O Peso do Silêncio, De Joshua Oppenheimer
  15. Vício Inerente, de Paul Thomas Anderson
  16. Son of Saul, de Laszlo Nemes
  17. A Terra e a Sombra, de César Augusto Acevedo García
  18. Os Campos Voltarão, de Ermanno Olmi
  19. A Vida Invisível, de Vitor Gonçalves
  20. Um Amor a Cada Esquina, de Peter Bogdanovich
  21. É o Amor, de Paul Vecchialli
  22. 45 Anos, de Andrew Haigh
  23. Mountains May Depart, de Jia Zhang-ke
  24. João Bérnard da Costa: Outros Amarão as Coisas que Eu Amei, de Manuel Mozos
  25. Aferim!, de Radu Jude

 

A lista deste ano parece ter no amor, e na inquietude, suas vozes mais presentes. São filmes, que em sua maioria, tentam falar mais intimamente com seu público, causando reflexão ou estabelecendo conexão com o que esses corações possam reverberar. O amor é determinante no grande filme do ano, o aguardado e deslumbrante retorno de Hou Hsiao-Hsien. Tanto ele, quanto o lindo romance feminino de Todd Haynes, ofuscaram o fraco vencedor da Palma de Ouro, com narrativas sofisticadas e visualmente hipnóticas. O amor como uma âncora que afasta os protagonistas dos caminhos trilhados, a eles, pela sociedade. Num tom muito semelhante também esta o drama-romântico, do alemão Christian Petzold. Com o provável melhor desfecho do ano, seu filme vai de Fassbender a Hitchcock, quando trata genuinamente do amor e seus impactos.

Se Paul Vecchiali flerta com o cinema experimental, e adapta Dostoiévski, com seus dois personagens em encontros notívagos sobre vazios existências dos corações, o média-metragem de Jean Marie-Straub e Danièle Huillet versa sobre amor, religião, e até o tédio. Vecchiali tem o mar ao fundo, a dupla francesa o local bucólico. E em tons bem diferentes, ainda que com a semelhança do tom teatral, ambos filmes vagueiam entre o racional e o irracional.

O de Clint Eastwood está entre o amor e a inquietude. O apego à família e à pátria, e a inquietude causada pela guerra são temas latentes nesse drama de soldado. Como um todo, a trilogia de Miguel Gomes decepciona, ainda que tenha sido tão elogiada em Cannes, porém, exibidos em separado nos cinemas, o primeiro volume demonstra a força da inquietude por meio de críticas corrosivos ao cenário político português, em tom de humor debochado.

Aleksei German e George Miller criam (ou retomam) visões futuristas do caos regido pela irracionalidade. Miller e seu espantoso retorno a saga Mad Max beira a unanimidade, com surpreendentes chances reais no próximo Oscar nessa ventura alucinante pelo deserto pós-apocalíptico. Já o veterano russo recria a Europa feudal, lamacenta e exasperante, tendo na inquietude visual a grande desconstrução de seu protagonista semi-Deus.

O patinho feio da lista é o filme independente sensação da corrida ao Oscar. Mais do que um filme-denúncia, sobre acusações de pedofilia de padres católicas, Tom McCarthy realiza um empolgante estudo dos caminhos da imprensa investigativa.

 

E encerrando, os meus 10 filmes favoritos dentro do circuito comercial de 2015, sempre atrasado arrastando filmes que já estiveram no top do ano passado.

  1. Norte, o Fim da História, de Lav Diaz
  2. Mad Max: Estrada da Fúria, de George Miller
  3. Noites Brancas no Píer, de Paul Vecchialli
  4. O Conto da Princesa Kaguya, de Isao Takathata
  5. Phoenix, de Christian Petzold
  6. As Mil e E Uma Noites: Volume 1, O Inquieto, de Miguel Gomes
  7. Dois Dias, Uma Noite, de Jean e Luc Dardenne
  8. A Pele de Vênus, de Roman Polanski
  9. Acima das Nuvens, de Olivier Assayas
  10. Winter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan

treslembrancasdaminhajuventudeTrois Souvenirs de Ma Jeunesse / My Golden Days (2015 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Arnaud Desplechin volta à boa forma com a história de Paul Dédalus (Mathieu Amalric na fase adulta, e Quentin Dolmaire jovem). O pretexto de seu passaporte pego quando deixava o Tajiquistão, serve apenas para desencadear o flashback de suas memórias mais vívidas, os romances e aventuras de uma adolescência de experiências.

Em vários momentos, lembra muito de alguns filmes de François Truffaut, há proximidade com a Nouvelle Vague, mas a complexidade familiar e romântica de Desplechin envereram o todos a outros caminhos. A história de amor trágico, e mal resolvido, é tão predominante que cerca a vida toda de Paul. Não que sua viagem à URSS e a morte prematura da mãe não tenha sido determinantes na formação de caráter de Paul. E o filme de Desplechin trata disso, dos momentos chave da vida desse adolescente, momentos estes decisivos ao antropólogo que responde os questionamentos na imigração.

É um filme ávido pelas descobertas, pela ingenuidade do primeiro amor (sempre tratado como único e maior que tudo), pelo sexo inconsequente e pelos laços familiares (irmãos, pai, e amigos).  Desplechin retorna com um filme de roteiro complexo, tal qual a vida, narrados com a beleza de um coração pulsante.

Foi a primeira vez que assisti a festa de premiação do César, o equivalente ao Oscar da Academia Francesa de Cinema. E é impossível não comparar as festas de cerimônia, e imagino eu, não se encantar com a versão francesa. Basta conhecer um pouco mais do cinema francês, e na platéia ver Arnaud Desplechin, Roman Polanski, Léa Seydoux, Bérénice Bejo, Mathieu Amalric e tantas outras estrelas.

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Primeiro, mesmo em sua autohomenagem e celebração de seus melhores, o cinema francês não perde oportunidade de homenagear a maior indústria do cinema, q Hollywood do cinema americano (não em quantidade de filmes, que se sabe que Bollywood e Nollywood profuzem mais filmes). Quentin Tarantino e Scarlet Johansson (ela com homenagem a sua carreira).

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A cerimônia é enxuta, sem parada para intervalos comerciais, sem firulas e delongas. A platéia quase comanda o show. Algum premiado exagera nos agradecimentos? Não tem música alta e nem microfone que se movimenta, a platéia começa a bater palmas e a pessoa “se toca”. Aplausos mais efusivos também para os preferidos, quando as indicações são citadas antes da entrega do prêmo.

cesar-ceciledefranceCécile de France comandou a festa, com graça e leveza, humor e carisma. protagonizou um numero musical, cantando e dançando, e nem precisou sair do palco para apresentar todos os mais de 20 prêmios. César é uma aula de como promover a indústria, de forma chique e agradável, com direito a tapete vermelho, estrelas e flashes, sem perder o glamour.

Sobre a premiação, foi a primeira vez que um filme de estréia foi o grande premiado. Les Garçons et Guillaume à table ! (dirigido e protagonizado por Guillaume Gallienne) ganhou 5 Césars (Filme, Ator, Roteiro Adaptado, Montagem e Filme de Estréia), supreendendo os favoritos Azul é a Cor Mais Quente e Um Estranho no Lago.

Guillaume_Gallienne_Sucesso popular, com 2,5 milhões de ingressos de cinema vendidos, superando os celebrados filmes eróticos (com temática de gays e lesbicas) pode ter uma escolha pelo popular, ou uma total demonstração de que a Academia Francesa ainda não está preparada para consagrar o tabu da libertação sexual. Nessa discussão, fica o texto interessante da Première sobre o assunto.

Outros premiados foram Roman Polanski como Diretor (por Venus in Fur), Sandrine Kiberlain como Atriz (por 9 Mois Ferme). Entre os Coadjuvantes, Adèle Haenel (por Suzanne) e Niels Arestrup (por Quai D’Orsay). Os favoritos se contentaram com o prêmio de revelações, masculina para Pierre Deladonchamps (Um Estranho no Lago) e Adèle Exarchopoulos (por Azul é a Cor Mais Quente). Filme Estrangeiro foi outra surpresa já que havia Blue Jasmine, Django Livre, A Grande Beleza e Gravidade) foi para Alabama Monroe.

Alguns links de videos dos premiados

jimmy-pJimmy P (2013 – EUA/FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Fracassou o novo trabalho do diretor Arnaud Desplechin, depois de mal recebido em Cannes caiu no ostracismo. Era de se esperar, afinal são poucos filmes abordando psicanálise que arrebatam plateias, o povo indígena também não desperta tantas atenções. Mas, o problema é um pouco mais complexo, ou melhor, a falta de complexidade.

Década de 40, a medicina ainda estava muito aquém da tecnologia atual, e após inúmeros testes no indío americano Jimmy Picard (Benicio Del Toro) surge o Dr. Georges Devereux (Mathieu Amalric) para o caso. Desplechin não consegue seguir o deenvolvimento do tratamento, seu foco é maior no fascínio com que o antropólogo francês conduz  as conversas, um misto de aprendizado da cultura da tribo de Jimmy P e de resgatar dentro do próprio indío os males que perturbam sua mente.

Praticamente um filme de memórias, que não consegue profundidade, que memsmo filmado elegantemente, careceria daquele algo mais que nem a excentricidade de Amalric, nem a interpretação reservada de Del Toro conseguiram trazer.

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Dia de confusão em Cannes, ladrões roubando joias que seriam emprestadas a algumas atrizes para o festival. Polícia prendendo pessoas que dispararam armas com balas de festim durante a gravação de um programa de tv que contava com a participação de Christopher Waltz e Daniel Auteuil. A coisa foi agitada na noite de ontem.

Os irmãos Bob e Harvey Weinstein divulgaram hoje filmes que serão lançados ao longo do ano, Nicole Kidman interpretando Grace Kelly em Grace of Monaco, The Butler sobre um mordomo de muitos anos da Casa Branca com Oprah Winfrey e Forrest Whitaker, e August: Osage County com Julia Roberts e Meryl Streep. Com o poder que os Weinstein tem, um deles deve estar na lista dos oscarizáveis.

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LIKE FATHER, LIKE SON

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Hirokazu Kore-eda despontou no cinema abordando a morte como tema central, e há alguns anos que as crianças se tornaram seu tema favorito. E são elas novamente que o fizeram emocionar parte do público com esse drama sobre bebes trocados na maternidade.

Críticas: The Telegraph – El País – Cine-Vue

Termômetro: de olho

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JIMMY P.

jimmypJá o primeiro trabalho de Arnaud Desplechin desagradou bastante. Com Benicio del Toro e Mathieu Amalric, o filme trata da relação entre um índio que volta da II Guerra Mundial com problemas de saúde e um antropólogo frances que realiza com ele algumas sessões de psicoanálise. Teatro filmado.

Críticas: Otros Cines – HitFixThe Guardian

Termômetro: pé atrás

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L’INCONNU DU LAC | STRANGER BY THE LAKE

l-inconnu-du-lacE no boca a boca da crítica o grande destaque é o filme do frances Alain Guiraudie, presente na mostra Un Certain Regard. Um thriller incomum, homens à procura de homens à beira de um lago, poucos personagens e locações, um crime, relacionar-se com um assassino.

Críticas: Revista ContinenteHitFixScreen Daily

Termômetro: quero ver

 Roit et Reine (2004 – FRA) 
Primeiro ponto que chama atenção é o roteiro que parece, cada vez mais, se desconstruir, com o passar do tempo. Uma teia de flashbacks e alternância entre os dois personagens principais que quase fazem com que esqueçamos do outro, um estilo narrativo diferente, aliado a uma fotografia cheia de vida, amplamente iluminada. Duas histórias que se entrelaçam, uma bem carregada de humor e outra mais puxada para o drama. A trama armada por Arnaud Desplechin corre difusa, mas nunca confusa, causando estranhamento saboroso através des figuras bíblicas ou místicas que permeiam toda a história seja nos nomes dos personagens, ou no presente que Nora (Emmanuelle Devos) escolheu para seu pai, até mesmo o título do filme.

. rainha é a citada Nora, os reis são: seu filho, seu pai, e os homens com que ela se relacionou. Pode haver outras correlações entre o título e o filme, mas essa é simples e direta. A outra figura chave é Ismael (Mathieu Amalric), seu ex-marido que não é o pai de seu filho, um violinista sofrendo algumas crises existenciais, a ponto de se preparar para cometer suicídio e acabar internado numa clínica psiquiátrica. A reaproximação entre os dois ocorre nesse momento, principalmente porque Nora está cuidando do pai que sofre com um câncer terminal.

Há reviravoltas, algumas bem interessantes, outras nem tão bem arranjadas (a carta, o encontro com o marido falecido), enquanto Desplechin opta por filmar Devos de uma maneira tão tenra e ainda assim dúvia: ela não fica nem totalmente na maneira fantasiosa com que a câmera teima em filmá-la, nem com a maldade que o roteiro gostaria de pintá-la. Alguém que comete erros e tenta levar sua vida com as ferramentas que a vida lhe disponibiliza. É uma personagem equilibrada, muito ligada a realidade humana, diferente de Ismael que é uma figura raramente possível na realidade, mas com uma atuação tão estupenda como a de Amalric fica difícil não se encantar por ele, suas paranóias e seus desequilíbrios.


Festival: Veneza 2004
Mostra: Competição