Posts com Tag ‘Asghar Farhadi’

Todos Lo Saben (2018 – ESP)

Do glamour em ser o filme de abertura do Festival de Cannes ao esquecimento, inclusive no próprio festival, afinal, o iraniano Asghar Farhadi tão premiado e passou 2018 com seu filme nada lembrado. Agora que começou a ser lançado em alguns países, e é fácil notar esse ostracismo.

O estilo de diálogos e dramas familiares de Farhadi está lá,como sempre, mas falta sangue latino para esse enredo, e principalmente aos personagens. Na trama, um casamento marcando reencontros, uma tragédia “exasperante”, segredos do passado, e plot twists, que ajudariam a envolver o publico. Sem doses de melodrama, mas com personagens e diálogos apáticos, o filme trafega por surpresas telegrafadas e só se equilibra mesmo pelo dilema moral do personagem de Javier Bardem. O resto é tudo no piloto-automático, muito aquém da vividez que Farhadi já mostrou quando tratava de questões bem mais próximas a culturas que ele conhece bem.

Salesman

Forushande / The Salesman (2016 – IRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Duplamente premiado na última edição de Cannes (melhor roteiro e ator), e forte candidato ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, o novo iraniano queridinho do festival, e do circuito alternativo, está de volta. Asghar Farhadi mantem-se fiel a seu estilo de cinema. Não se afasta dos problemas conjugais, nem dos casos que poderiam ir parar no tribunal de justiça, mas, desta vez, tenta agregar um elemento novo, um paralelo, entre a história de um casal de atores (Taraneh Alidoosti e Shahab Hosseini), e a peça que interpretam (A Morte do Caixeiro Viajante).

Tudo começa num prédio, cujos moradores acordam assustados, sob risco de desabamento. A necessidade de uma nova morada, enquanto não se resolve o imbróglio que promete ser a situação do lar do casal. Um incidente, envolvendo a antiga moradora, do provisório novo apartamento, desestabiliza a esposa e o casamento. Um pouco de conhecimento da peça de Arthur Miller ajudaria no processo de traçar o paralelo entre as duas histórias. Farhadi segue com seus filmes de discussões intermináveis, mas aqui, ele  parece se posicionar um degrau abaixo. A câmera flutua mais pelo ambientes, os diálogos não são tão longos, e talvez nem tão explícitos e marcados.

Por outro lado, não há tantas metáforas geniais quanto ele gostaria de ter desenvolvido, sua simbologia é apenas didática. O cineasta iraniano expõe questões de sua cultura e sociedade, e deixa com o público o julgamento do certo e errado, enquanto seus personagens fraquejam por justiça, vingança, ou apenas pela volta de sua estabilidade emocional. Talvez nem tanto amor, talvez nem tantas criticas, seus filme mereceriam.

Ele apenas se aproveita, e desenvolve, em seus trabalhos, situações extremamente arquitetadas, e que conseguem criar essa necessidade do público em dar palpite, se intrometer, essa vontade de aconselhar e resolver os conflitos. Algo como ouvir as histórias do vizinho e poder opinar sem o peso da responsabilidade das consequencias. São filmes pouco elaborados na arte da linguagem narrativa, porém capazes de trazer os problemas iranianos a uma linguagem universal de conhecimento e aceitação. E quando chega o final do filme, assim como já ocorrera em À Procura de Elly, o tom de tragédia, o clíma dramático, uma mão pesada no roteiro e direção resultam no exagero dramático. Detalhes que poderiam, facilmente, serem evitados, e fariam a diferença para que o filme não se tornasse metáfora de seu próprio início, um daqueles apartamentos do prédio prestes a desabar.

Beautiful City

Publicado: janeiro 8, 2017 em Cinema
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beautifulcityBeautiful City / Shah-re Ziba (2004 – IRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Não deixa de ser curioso, e revelar muitas semelhanças com seus filmes mais recentes, este é que um dos primeiros trabalhos do cineasta iraniano Asghar Farhadi. A semelhança mais vívida é a predileção por diálogos, rápidos, longos, discussões e a verbalização constante como forma de convencimento. Por outro lado, é mais uma oportunidade de conhecer leis e costumes muçulmanos, aos que não estão familiarizados com algumas diferenças capitais.

Na trama, um garoto acaba de completar dezoito anos e prestes a ser enforcado. Sua única esperança é o perdão que pode ser concedido pelo pai da vítima. Começa uma blitz da irmã e um amigo tentando o perdão. Parece fácil, como uma vítima poderia perdoar um assassinato? Mas há agravantes, a vitima precisaria pagar, quando precisa de dinheiro para uma cirurgia da própria filha.

O filme não sairá desse círculo de personagens tentando um acordo, uma forma de agradar a todos. A complexidade envolve conceitos religiosos, questão financeira, familiar e justiça. Com orçamento menor, o filme de Farhadi fica mais escuro, mais pessimista, tal qual este pai que tenta equilibrar justiça e necessidade de vingança, com necessidades e uma possível saída racional.

opassadoLe Passé (2013 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Asghar Farhadi e seus filmes altamente dramáticos, altamente falados, de famílias e relações humanas corrompidas. Seu estilo é este, goste ou não. Dessa vez ele filme na França, a congruência da relação entre costumes iranianos e franceses está presente no divórcio de Marie (Bérénice Bejo) e Ahmad (Ali Mosaffa). Ela pretende se casar com Samir (Tahar Rahim), mas há complicações, algumas extravagantes. Separações são doloridas, e num filme de Farhadi sempre um pouco mais, se bem que os elementos complicadores são sempre os mesmos: filhos rebeldes, ciúmes do ex-marido, casais que veem de casamentos fracassados formando um novo casal desconfiado, ressabiado, marcado pelo passado.

Enquanto Ahmad se mete em tudo, e tenta entender o quebra-cabeças que afasta Marie da filha, o filme se desenrola pelo caos que tantas famílias vivem atualmente. O peso o passado carregado em cada discussão, porque nem sempre a razão da mágoa não é sobre o que se discute, mas sobre o que ainda está velado. E Farhadi conduz com mão firme, diálogos e explosões irracionais, corações partidos, feridas não curadas. Seus filmes sempre nos fazem olhar para dentro de nossa casa, de nossas relações familiares, são dolorosos, até mesmo punitivos.

Foi a primeira vez que assisti a festa de premiação do César, o equivalente ao Oscar da Academia Francesa de Cinema. E é impossível não comparar as festas de cerimônia, e imagino eu, não se encantar com a versão francesa. Basta conhecer um pouco mais do cinema francês, e na platéia ver Arnaud Desplechin, Roman Polanski, Léa Seydoux, Bérénice Bejo, Mathieu Amalric e tantas outras estrelas.

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Primeiro, mesmo em sua autohomenagem e celebração de seus melhores, o cinema francês não perde oportunidade de homenagear a maior indústria do cinema, q Hollywood do cinema americano (não em quantidade de filmes, que se sabe que Bollywood e Nollywood profuzem mais filmes). Quentin Tarantino e Scarlet Johansson (ela com homenagem a sua carreira).

cesar_2014

A cerimônia é enxuta, sem parada para intervalos comerciais, sem firulas e delongas. A platéia quase comanda o show. Algum premiado exagera nos agradecimentos? Não tem música alta e nem microfone que se movimenta, a platéia começa a bater palmas e a pessoa “se toca”. Aplausos mais efusivos também para os preferidos, quando as indicações são citadas antes da entrega do prêmo.

cesar-ceciledefranceCécile de France comandou a festa, com graça e leveza, humor e carisma. protagonizou um numero musical, cantando e dançando, e nem precisou sair do palco para apresentar todos os mais de 20 prêmios. César é uma aula de como promover a indústria, de forma chique e agradável, com direito a tapete vermelho, estrelas e flashes, sem perder o glamour.

Sobre a premiação, foi a primeira vez que um filme de estréia foi o grande premiado. Les Garçons et Guillaume à table ! (dirigido e protagonizado por Guillaume Gallienne) ganhou 5 Césars (Filme, Ator, Roteiro Adaptado, Montagem e Filme de Estréia), supreendendo os favoritos Azul é a Cor Mais Quente e Um Estranho no Lago.

Guillaume_Gallienne_Sucesso popular, com 2,5 milhões de ingressos de cinema vendidos, superando os celebrados filmes eróticos (com temática de gays e lesbicas) pode ter uma escolha pelo popular, ou uma total demonstração de que a Academia Francesa ainda não está preparada para consagrar o tabu da libertação sexual. Nessa discussão, fica o texto interessante da Première sobre o assunto.

Outros premiados foram Roman Polanski como Diretor (por Venus in Fur), Sandrine Kiberlain como Atriz (por 9 Mois Ferme). Entre os Coadjuvantes, Adèle Haenel (por Suzanne) e Niels Arestrup (por Quai D’Orsay). Os favoritos se contentaram com o prêmio de revelações, masculina para Pierre Deladonchamps (Um Estranho no Lago) e Adèle Exarchopoulos (por Azul é a Cor Mais Quente). Filme Estrangeiro foi outra surpresa já que havia Blue Jasmine, Django Livre, A Grande Beleza e Gravidade) foi para Alabama Monroe.

Alguns links de videos dos premiados

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Esses primeiros dias já causaram agito também nas novidades. A biografia de Pelé e o primeiro trabalho como diretoria de Scarlett Johansson, primeiras imagens do novo filme de Lars Von Trier, são apenas alguns exemplos. Cannes não é só exibir filmes e sim o maior mercado de compra e venda para distribuição, por isso muitos planejam noticiar seus trabalhos por lá, a grande vitrine do cinema.

O filme Suzanne abriu a Semana da Crítica, o novo trabalho de Katell Quillévéré é mais um dos que foram elogiados no festival. A safra parece boa esse ano, aguardando apenas os que vão arrebatar a plateia. 

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LE PASSÉ

lepasseAsghar Farhardi chegou a Cannes com mais um drama familiar. Filhos para todos os lados, um divórcio amigável, mas, de alguma forma, conflitos e segredos à tona, afinal é um filme de Farhadi. Muito elogiado o iraniano que dessa vez filmou na França.

 

Críticas: CinewebThe Guardian – IndieWire

Termômetro: quero ver

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A TOUCH OF SIN

atouchofsinJia Zhang-Ke foi outro bastante elogiado, dessa vez com 4 histórias  formando um crítico painel da China contemporânea. Da prostituição à tortura, seu filme mais violento, claramente uma ruptura em alguns pontos de seus últimos trabalhos. Jornalistas não cansam de mencionar que o filme não foi censurado pelo governo chinês.

Críticas: The Telegraph – UOL Cinema – IndieWire

Termômetro: quero ver

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THE SELFISH GIANT

selfishgiantEntre as mostras paralelas, maior burburinho do dia foi, na Quinzena dos Realizadores, para o cineasta Inglês Clio Barnard. Muitos elogios (os jornalistas britânicos se derreteram pelo filme, provavelmente exagerados) a essea fábula baseada num conto de Oscar Wilde, semelhanças com o cinema de Ken Loach.

Críticas: Screen Daily – The Guardian – The Telegraph

Termômetro: de olho

A Separação

Publicado: novembro 29, 2011 em Uncategorized
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Jodaeiye Nader Az Simon / A Separation (2011 – IRA)

Asghar Farhadi parece especializar-se em filmar o caos verborrágico de discussões intermináveis, e que, aparentemente, jamais terão uma solução por si só. Câmera na mão, intensidade nos diálogos, o entra e sai de cômodos, tentativas de afirmação de opinião (conhecemos bem os formatos de discussões, não?), desculpas e dramas. Farhadi cria o clima impecavelmente, mas não se contenta apenas com um drama familiar sobre um casal que opta pelo divórcio. Não, ele vai além, contratam uma diarista para cuidar do pai enfermo e nova discussão, confusão, o caso vai parar no tribunal.

Estamos falando do mundo contemporâneo e metropolitano no Irã, onde a religião está presente no dia-a-dia, assim como os problemas financeiros, as crises pessoais e familiares, o descontentamento geral. De uma série de discussões nasce o caos, duas famílias com seus próprios problemas rotineiros praticamente travam a 3a Guerra Mundial, numa situação onde é difícil (ou impossível) distinguir a razão para qualquer um dos lados. Farhadi está sim discutindo seu país e fazendo-o de maneira micro, buscando nos problemas gerados pela contratação de uma empregada doméstica, toda a desestabilidade de um povo regido por dogmas rígidos e questionáveis.

* indicado pelo Irã ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro