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A 13ª Emenda

Publicado: novembro 18, 2016 em Cinema
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a13emendaThe 13th (2016 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Depois do sucesso de Selma, a diretora Ava Duvernay está de volta, e dessa vez, ainda mais impactante no que tange o ativismo contra o preconceito racial. O documentário produzido pelo Netflix já chega favorito ao Oscar, e merece os elogios. A estrutura é simples, depoimentos e material de arquivo, sempre tendo como ponto de partida a influência da aprovação da 13ª Emenda da Constituição dos EUA que diz que ninguém pode sofrer de trabalho forçado (ou escravidão), exceto como punição de crime.

O estudo do fenômeno de crescimento carcerário ao longo das décadas é curioso, e casa perfeitamente com a comprovação histórica do racismo que transborda na América desde o período de escravidão. O documentário não poupa ninguém (Bush, Clinton, Trump, Reagan e etc) ao acusar de erros, omissões, ou até aceite de culpa (no caso de Bill Clinton) sem nenhuma contrapartida. A indústria dos presídios privatizados, a política que sempre privilegia os meios econômicos e nunca a justiça social, o preconceito incurável que a sociedade dá novos sinais estar seguindo no caminho oposto ao do fim de tamanhas barbaridades.

SELMASelma (2014 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Martin Luther King, a citação de seu nome traz à mente o ícone da luta contra segregação racial, é de se esperar um filme que faça jus à lenda criada (principalmente depois de seu fim trágico). O recorte aqui é curto, na trajetória de King (David Oyelowo), parte da entrega do prêmio Nobel da Paz, vai até os fatos decisivos para uma das mais importantes vitórias que ele, e seu grupo, obtiveram: a luta pelo direito dos negros votarem. Envolvidos estão o presidente, governantes e xerifes, e a população que, pouco-a-pouco, não pode permanecer indiferente a quase guerra civil que se instala.

Encontros com governantes, reuniões de militantes, ações ativistas, detalhes da vida particular. Mos que de  forma elegante, Ava Duvernay demonstra tamanha irregularidade nos diferentes aspectos da vida de King, que o resultado é esse libelo da luta, mas que tenta tranformá-lo numa figura tão cristalina e encorpada que o mito beira o galã. A trilha sonora no momento certo, a câmera lenta nas cenas de violência durante os protestos, as discussões com quê heroico/afetado (mocinhos e vilões bem claros) nos bastidores da política. E, obviamente, os grandes discursos de King, frente a milhares, personificando ainda mais a figura do mártir.

A direção de Ava Duvernay é acadêmica, clássica, parece realmente voltada para as premiações da corrida do Oscar, caso contrário poderia ser um telefilme (bem mais barato e com resultados semelhantes). Neste ponto, o filme carrega um pouco de azar por ser lançado exatamente um ano após a vitória de 12 Anos de Escravidão, outro filme sobre a questão racial, as injustiças e etc, porque havia os elementos básicos para o triunfo das premiações da indústria. Acabou de lado, tal qual sua própria irregularidade de não escapar da necessidade dos discursos pomposos, a cada cena, da proximidade envergonhada com a vida particular de King, com a necessidade de chocar, via violência, mas sempre via timidez. Seu melhor está nas poucas cenas de violência seca, quando a polícia ataca idosos, sem piedade, tamanha a cegueira pela segregação racial.