Posts com Tag ‘Babu Santana’

Tim-MaiaTim Maia (2014) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

O cinema nacional segue empilhando grandes personagens desperdiçados em cinebiografias que não vão além do “jogar para a galera”. É a opção pelo caminhao fácil, muita preocupação estética com figurinos, locações, em retratar épocas, e esquecer da essência de seus personagens e cinebiografados. Tim Maia era folclórico, portanto o humor devia mesmo estar impregnado pelo filme, mas não se tornar a única mola propulsora capaz de conduzir sua história, mas é assim que Mauro Lima narra a história do cantor.

Não faltam caricaturas de personagens importantes (como Roberto e Erasmo Carlos), nem pequenos “causos” da vida de Tim Maia. Até mesmo os mesmos mais agudos dramaticamente estão cercados pelo humor irreverente de Tim, mas dentro de toda essa preocupação em encher o público com amizades, amores, brigas e vida mundana, onde está o explosivo Tim Maia das canções, das relações pessoais? Não estava no musical que fez sucesso no teatro, e muito menos no cinema. De tão inofensivo, nem incomodar o filme consegue, fica nas atuações corretas de ambos atores que o interpretam, no humor esticado, e no padrão Globo Filmes de vender tv na telona.

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estomagoEstômago (2007 – BRA/ITA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O texto é esperto, a comédia não perde o ritmo. Marcos Jorge ainda consegue elevar seu pequeno filme a uma pequenina jóia, culpa de seus enquadramentos fugindo ao óbvio, cenas mais longas, e monólogos sem cortes. Mas nada disso é páreo para o talento, sem precedentes, de João Miguel que a cada filme finca seu nome no cinema nacional. Aqui na pele do nordestino Raimundo Nonato, que chega faminto, e desempregado, numa grande cidade. Como todos os emigrantes, na esperança de um futuro promissor, arruma, por sorte (ou azar num primeiro momento) emprego num pequeno boteco. Ali aprenden fazer deliciosas coxinhas.

O filme transcorre em dois tempos: presente e passado. No flashback temos o protagonista preso, narrando sua situação dentro da cela, enquanto explica com detalhes o ocorrido que o fez ser encarcerado. Em ambos a história o bom humor sobrepõe-se a qualquer outro gênero que insista em surgir, a paixão por uma prostituta, a relação com um dono de restaurante que lhe oferece um bom emprego, o dom de cozinheiro que abre-lhe portas na cadeia, isso tudo é enredo para nos entreter.  O que transforma Estômago num filme especial é a fisionomia do ator, a paixão pela cozinha, em seus monólogos – contando a história do gorgonzola ou outras especialidades –  o segredo é aquele jeito de falar meio simples, meio engraçado, meio nordestino, meio só dele, que nos deixa fascinado.

quasedoisirmaosQuase Dois Irmãos (2005) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Acusar o filme de preconceituoso, não é uma afirmação descabida. A exposição do negro como marginal, enquanto o branco no papel de almofadinha intelectual, salta aos olhos de maneira veemente. Mas vamos resgatar a história, primeiramente. Dois amigos de infância se reencontram num presídio na Ilha Grande, o Brasil vive a ditadura militar. Miguel (Caco Ciocler) é preso político, enquanto Jorginho (Flávio Bauraqui) cumpre pena por assalto a banco. A narrativa divide-se entre cruzar esse momento, a um segundo, em que os dois amigos reencontram-se novamente. Dessa vez, Miguel (Werner Shünemann) é deputado, visitando o líder do tráfico de uma favela, Jorginho (Antônio Pompeo).

Cada qual a seu caminho, ambos estão muito bem financeiramente. Miguel foi visitar Jorginho em sua cela, com mordomias e telefone celular, para lhe propor apoio em um projeto social, que o deputado planeja instaurar na favela, exatamente onde o amigo exerce influência. Mais adiante teremos dados mais explícitos sobre as reais intenções de Miguel, talvez esse ponto passe despercebido como mais um momento realista e corriqueiro da história. Pode até ser, mas pode levantar outras interpretações, essa escolha parece chave para desmistificar segregacionismos. Um filme sobre escolhas? De maneira superficial, num pensamento pequeno-burguês, até que essa pergunta mereceria um sim como resposta. Afinal, os dois tiveram chances parecidas, e tomaram caminhos opostos em razão de suas escolhas. Essas chances parecidas talvez sejam a incógnita que altera toda a equação resultante da vida de cada um desses quase dois irmãos.

Lúcia Murat foi buscar a formação histórica das duas vertentes que comandam o país atualmente. De um lado os presos políticos, que há alguns anos despontam governando o país, e ocupando seus principais cargos (não importa a esfera). De outro, os chefes do tráfico que comandam os morros e fazem suas próprias leis. Vivem quase imunes a lei. A tênue linha que separou Miguel e Jorginho no presídio é a linha da escolha pessoal, o momento em que cada um optou por seu futuro. Mas qual razão levou cada um a fazer sua escolha, ou mais precisamente a escolha de Jorginho pelo crime organizado? A capacidade de liderança seria o segredo, naturalmente cada um optou pelo grupo onde poder se destacar, ter maior visibilidade. Onde suas habilidades poderiam resultar em liderança. No fundo, não passamos de animais querendo comandar o bando, perdemos os escrúpulos.

Quase Dois Irmãos trata de uma visão mais ampla do que a simples formação do Comando Vermelho, a qual faz referência. O final é claustrofóbico, Murat chega a nos meter medo de andar pelas ruas de uma metrópole. Ao som do samba que carrega o ritmo do filme a violência é exposta em pelo. Não posso terminar antes de elogiar Flávio Bauraqui e Antônio Pompeo, cada um em seu momento interpreta Jorginho, dois gigantes em sincronia.