Posts com Tag ‘Béla Tarr’

Satantango

Publicado: maio 1, 2020 em Cinema
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Sátántangó (1994 – HUN)

Pessoas entusiasmadas com o dinheiro que irão receber após o insucesso da fazenda coletiva em que buscavam sua subsistência, até que um homem, tido como morto, reaparece e traz outra perspectiva à comunidade. Estamos nos derradeiros dias do Socialismo na Hungria, em seu Tango de Satã (tradução literal do título). Béla Tarr divide a história em doze capítulos, sempre em seu tom de realismo pessimista e desolação por um grupo de personagens que se mistura com a melancolia, chuva e pobreza que o barro remete. Sempre me encanto com o rigor estético e o tempo de seus planos-sequencias, mas aqui há um filme de dilemas morais mais contundentes, que se intercalam entre sonhos/pesadelos e a herança socialista de ser sempre regidos/traídos por líderes. A infidelidade conjugal, os planos de se aproveitar dos outros (governo, adultos e crianças), a falta de empatia, a solidão, tudo isso camuflado pelos encontros etílicos e musicados no bar, quase um oásis nesse mar barrento da desesperança.

O Homem de Londres – Indie 2011

Publicado: setembro 24, 2011 em Uncategorized
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A Londoni Férfi (2007 – FRA/ALE/HUN)

Pela janela um homem observa um cais e uma estação ferroviária. Percebe uma conversa, uma maleta, um homem jogado no mar, um longo e intrigante plano-sequencia que divide-se entre o próprio homem que observa tudo, o cais e o trem. Vai além da maestria, Béla Tarr (co-dirigido por sua esposa Ágnes Hranitzky) e sua marca pessoal (enquadramento, ritmo, preto-e-branco, planos fechados, os ruídos) abusam do enigmático. O homem vai até o mar, e encontra a maleta cheia de dinheiro. Começa a história desse homem pacato cuja vida cheia de reservas financeiras, a filha que trabalha sob-exploração, voce nunca percebe, porém dentro dele eclode a culpa, a discussão moral de seu ato.

Surge o inspetor que investigará o caso, o principal suspeito, mas se voce conhece o cinema de Belá Tarr saberá que toda esse “processo investigativo” ocorrerá numa velocidade própria, lenta, quase estática. Sempre com seus planos-longos, com as emoções que teimam em se seconder de corpos e feições (por isso a tão famosa cena do choro de uma mulher que não movimenta um músculo sequer em seu rosto). A trama se desenvolve, ficamos com o poder da imagem desse cineasta húngaro, seu charme é seu próprio estilo, dificil de se assistir, mas que dá tempo de nos permitir saborear os detalhes (e até gargalhar com a inesperada cena dos velhinhos dançando com uma caidera na mão enquanto outro equilibra uma bola de sinuca no nariz). A imagem como força intrigante.

The Turin Horse (2011 – HUN) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Nietzsche vive com sua filha num vilarejo rural em Turim, estamos em Janeiro de 1889. É Nietzsche e também não é, porque o personagem é colocado apenas como um senhor duro, rustico, que economiza nas palavras, e não move um dos braços. A filha o ajuda a trocar de roupa, o vento lá fora é incessante, poderoso, dias e dias de ventania devastando tudo. Béla Tarr segue seus personagens vagarosamente, acompanha a filha que cozinha duas batatas em cada refeição, o cuidado em tirar as botas e as calças do pai, ou em buscar água do poço.

Visualmente o filme vive dessas pequenas tarefas e do desconsolo que assola os dois, o cavalo que para de comer, o mundo que parece ser engolido pelo vento. Porém, essa seria uma visão superficial do que Tarr nos apresenta, seu cinema vigoroso e a força da imagem num preto e branco fabuloso, vão além, muito além. Sem sair do tom, é nítido o desespero, a desesperança, e uma capacidade enimgmática em buscar na repetição uma confirmação de comportamentos, de sensações. A cada vez que a porta da casa se abre, nossa sensação é de que aquele vento virá direto em nossa direção, poeira nos olhos, cabelos bagunçados. Planos longos, levíssimos travellings (em 90º), e a repetição de ações com mudança nos enquadramentos que esmiuçam comodos, pessoas, objetos. Um trabalho vigoroso, potente, um prazer contemplativo.