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Les Petits Mouchoirs (2010 – FRA)

O grande mérito do filme dirigido por Guillaume Canet é tecer essa rede de amizades, e relações entre os personagens ou o mundo fora desse grupo de amigos, e deixar o público envolvido com cada um dos tramas pessoais. Algo como sentir-se um observador dentro daquela viagem de férias onde o grupo de amigos aproveita a praia, passeia de barco, mas briga entre si e o desgaste torna-se óbvio (por mais que haja intimidade, e alegria de se estar juntos.

Canet consegue essa façanha de nos envolver, de traçar um grau de intimidade que em pouco mais de duas horas já nos sentimos tão próximos que temos vontade de dar pitacos, de sugerir e se intrometer na vida de cada um. Enquanto isso um dos amigos desse grupo está no hospital, sofreu um acidente na primeira cena (num longo plano-sequencia frenético), eles carregam o peso da preocupação, mas se contentam em deixar que a situação do amigo (Jean Dujardin) melhore em breve.

Mas as pessoas não são assim mesmo, não contam pequenas mentiras até aos mais próximos porque é mais fácil lidar dessa forma com tudo? O filme descamba ao sentimentalismo, ao romance exacerbado, ao drama barato, ainda assim pode emocionar grande parte do público, afinal, estamos presos a essa teia, a esse bando de franceses chiques que não perdem a classe na praia, mas perdem a compostura na frente de qualquer um.

aprofessoradepianoLa Pianiste (2001 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Explosivamente contido. Estranha essa expressão, não? Desconexa, antagônica. Assista com atenção especial à interpretação de Isabelle Huppert e tire suas conclusões. A atriz parece implodir a cada segundo. Ao mundo é fria, contida, seca. Dentro de si explosiva, inflamada, impetuosa. Dona de uma capacidade nata de transmitir emoções, ou a ausência delas. Ela não é o filme, é maior que ele.

Uma recatada professora de piano morando com sua possessiva, capaz de controlar todos os horários, os gastos e até os assuntos da filha. Dentro dessa vida tediosa, a quarentona encontrou uma solitária válvula de escape para fugir de sua realidade, frequentar cinemas pornôs, cabines eróticas e outros ambientes excessivamente masculinos, válvula de escape para extravasar sua sexualidade, seus instintos de voyeur, e traços masoquistas.

Até encontrar um jovem que descaradamente demonstra-se interessado nela, seu comportamento esnobe não afasta o rapaz. Seus instintos sexuais libertam-se, suas fantasias ganham a possibilidade de ser realizadas. Paixão, o desejo, os jogos sexuais, dá se início de uma relação sem precedentes, sem limites, participantes à deriva.

Michael Haneke faz uma negação ao romance, um relacionamento desapegado completamente ao romantismo. Focado nos desejos sexuais, em toda a repressão sexual pela qual passava essa mulher solitária, forte por fora e insegura por dentro. Discutir a posição e os limites até onde podem chegar, homens e mulheres, no assunto sexo, é apenas uma das variantes. O comportamento aparentemente “masculino” de Erika assusta não só Walter (Benoît Magimel), como o público.

Seu ar de dominadora, as exigências e fantasias, atitudes completamente fora do padrão “feminino”. A professora perde-se entre seus desejos e o amor, demonstra-se incoerente a si própria. A atmosfera criada por Haneke, a maneira “classuda” como constrói a trama, a relação sexo/personalidade introvertida, há algo a se pensar nisso tudo, a se discutir: há direitos iguais entre homens e mulheres quando se fala em sexo? Os homens estão preparados para assumir um papel diferente do que se espera na relação sexual?

Por outro lado Haneke desfila sua mise-en-scène, os planos longos, posicionados milimetricamente, guardam distancia para nos colocar com distanciamento, porém presentes no cenário. O cineasta não só constrói sua atmosfera, como representa-a em sua maneira de filmar, o poder da imagem extrapola rumos, conceitos e ideais. Cada cena nos sufoca, de uma forma cada vez mais densa. As marcas registradas de Haneke fazem com que surjam sensações diferentes, estamos sendo sempre surpreendidos pelo depois, pela respiração ofegante, a frustração após atos e diálogos, o que acontece após o ato principal. Há alguns planos geniais, o filme é um conjunto de planos geniais, principalmente a última meia-hora. E quando você começa a identificar várias características-obsessões do diretor, apreciar o todo fica melhor ainda.