Posts com Tag ‘Bérénice Bejo’

La Quietud (2018 – ARG) 

Em seu novo filme, Pablo Trapero camufla o tema da ditadura militar argentina com uma história familiar da relação conturbada de três mulheres. Primeiramente a cumplicidade entre as irmãs, afastada do dia-a-dia por viverem em outro país, depois a relação de cada uma delas com a mãe, e com seus maridos ou antigos amores. A trama entrega lentamente a verdadeira relação entre cada um deles, além de detalhes do passado e um capítulo de filme de tribunal que oportunamente resgata, fortemente, o tema político.

Cumplicidade x rivalidade, o luto, está tudo misturado. Trapero eleva a temperatura sexual e as crises (algumas histéricas) para intensificar essa disputa familiar, dessa forma exagera onde sutilezas seriam necessárias, além de aproveitar pouco os homens, mero coadjuvantes. É um Trapero querendo ser mais sensível, flertando com a alma feminina, mas com resultados muito aquém.

belossonhosFai Bei Sogni / Sweet Dreams (2016 – ITA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Um novo estudo de Marco Bellochio da relação mãe-filho. O quanto a ausência da figura materna pode atormentar todas as relações pessoais da vida de um filho, por mais de 30 anos. Vagando num zigue-zague entre a fase criança e adulta de Massimo, Bellocchio trata personagens e sentimentos de forma singela, aproveitando uma narrativa, levemente, irregular para desaguar num final belíssimo, de um acerto pessoal de contas, entre cicatrizes e o aprendizado de como lidar com os traumas e ressentimentos de seu passado.

É outro filme típico do cineasta, seja na nova visão dessa relação mãe-filho, seja no tom que tenta minimizar o grandioso, mas principalmente no estudo das aguras da alma italiana. O final surge realmente encantador, nas formas de libertação e em como Bellocchio redefine a forma de Massimo se relacionar com o mundo. Parece o único desfecho possível, ao mesmo tempo melancólico e esperançoso.

opassadoLe Passé (2013 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Asghar Farhadi e seus filmes altamente dramáticos, altamente falados, de famílias e relações humanas corrompidas. Seu estilo é este, goste ou não. Dessa vez ele filme na França, a congruência da relação entre costumes iranianos e franceses está presente no divórcio de Marie (Bérénice Bejo) e Ahmad (Ali Mosaffa). Ela pretende se casar com Samir (Tahar Rahim), mas há complicações, algumas extravagantes. Separações são doloridas, e num filme de Farhadi sempre um pouco mais, se bem que os elementos complicadores são sempre os mesmos: filhos rebeldes, ciúmes do ex-marido, casais que veem de casamentos fracassados formando um novo casal desconfiado, ressabiado, marcado pelo passado.

Enquanto Ahmad se mete em tudo, e tenta entender o quebra-cabeças que afasta Marie da filha, o filme se desenrola pelo caos que tantas famílias vivem atualmente. O peso o passado carregado em cada discussão, porque nem sempre a razão da mágoa não é sobre o que se discute, mas sobre o que ainda está velado. E Farhadi conduz com mão firme, diálogos e explosões irracionais, corações partidos, feridas não curadas. Seus filmes sempre nos fazem olhar para dentro de nossa casa, de nossas relações familiares, são dolorosos, até mesmo punitivos.

Foi a primeira vez que assisti a festa de premiação do César, o equivalente ao Oscar da Academia Francesa de Cinema. E é impossível não comparar as festas de cerimônia, e imagino eu, não se encantar com a versão francesa. Basta conhecer um pouco mais do cinema francês, e na platéia ver Arnaud Desplechin, Roman Polanski, Léa Seydoux, Bérénice Bejo, Mathieu Amalric e tantas outras estrelas.

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Primeiro, mesmo em sua autohomenagem e celebração de seus melhores, o cinema francês não perde oportunidade de homenagear a maior indústria do cinema, q Hollywood do cinema americano (não em quantidade de filmes, que se sabe que Bollywood e Nollywood profuzem mais filmes). Quentin Tarantino e Scarlet Johansson (ela com homenagem a sua carreira).

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A cerimônia é enxuta, sem parada para intervalos comerciais, sem firulas e delongas. A platéia quase comanda o show. Algum premiado exagera nos agradecimentos? Não tem música alta e nem microfone que se movimenta, a platéia começa a bater palmas e a pessoa “se toca”. Aplausos mais efusivos também para os preferidos, quando as indicações são citadas antes da entrega do prêmo.

cesar-ceciledefranceCécile de France comandou a festa, com graça e leveza, humor e carisma. protagonizou um numero musical, cantando e dançando, e nem precisou sair do palco para apresentar todos os mais de 20 prêmios. César é uma aula de como promover a indústria, de forma chique e agradável, com direito a tapete vermelho, estrelas e flashes, sem perder o glamour.

Sobre a premiação, foi a primeira vez que um filme de estréia foi o grande premiado. Les Garçons et Guillaume à table ! (dirigido e protagonizado por Guillaume Gallienne) ganhou 5 Césars (Filme, Ator, Roteiro Adaptado, Montagem e Filme de Estréia), supreendendo os favoritos Azul é a Cor Mais Quente e Um Estranho no Lago.

Guillaume_Gallienne_Sucesso popular, com 2,5 milhões de ingressos de cinema vendidos, superando os celebrados filmes eróticos (com temática de gays e lesbicas) pode ter uma escolha pelo popular, ou uma total demonstração de que a Academia Francesa ainda não está preparada para consagrar o tabu da libertação sexual. Nessa discussão, fica o texto interessante da Première sobre o assunto.

Outros premiados foram Roman Polanski como Diretor (por Venus in Fur), Sandrine Kiberlain como Atriz (por 9 Mois Ferme). Entre os Coadjuvantes, Adèle Haenel (por Suzanne) e Niels Arestrup (por Quai D’Orsay). Os favoritos se contentaram com o prêmio de revelações, masculina para Pierre Deladonchamps (Um Estranho no Lago) e Adèle Exarchopoulos (por Azul é a Cor Mais Quente). Filme Estrangeiro foi outra surpresa já que havia Blue Jasmine, Django Livre, A Grande Beleza e Gravidade) foi para Alabama Monroe.

Alguns links de videos dos premiados

The Artist (2011 – FRA)

Em Cannes foi o queridinho da crítica, desde o final do ano vem encabeçando as listas de melhores filmes e ganhando praticamente todos os prêmios da temporada. Se voce conta que se trata de um filme mudo, preto e branco, pronto, as pessoas torcem o nariz. Muito provavelmente vai ganhar o Oscar, e será um dos vencedores com menor bilheteria. No fundo, isso tudo, pouco importa. O cineasta Michel Hazanavicius traz novamente o drama emblemático que consagrou Cantando na Chuva da passagem do cinema mudo ao cinema falado.

O astro (Jean Dujardin) não aceita entrar na era do som, deseja seguir seus sucessos entre os filmes mudos. Estamos prestes a acompanhar a desconstrução de um astro, engolindo pela “nova tecnologia”, pela novidade. Ao mesmo tempo, a ascensão meteórica de Peppy Miller (Bérénice Bejo, candidata a nova namoradinha do cinema). Nessa gangorra o cineasta dosa bem comédia (em tons graciosos, aliado pela magnífica trilha sonora que pontua todo o filme), a outros extremamente melodramáticos e carregados.

Nesse miolo, a narrativa (que deveria ser o grande segredo do filme, pois prender a atenção do grande público num filme desse tipo é a chave do sucesso) mostra sinais de fragilidade, de uma roteiro gasto que sobrevive muito mais pelo requinte da trilha e pelas estupendas interpretações. São quinze minutos que aparentemente vão nos hipnotizar, dali em diante, não passa de um filme agradável.