Posts com Tag ‘Berlim 2018’

Vírus Tropical

Publicado: junho 22, 2018 em Cinema
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Virus Tropical (2018 – COL) 

Interessante a quantidade de filmes do subgênero coming of age tem se destacado no cinema atualmente. Agora é a vez do colombiano Santiago Caicedo, em animação em preto e branco, desenvolver a história do crescimento e amadurecimento de uma jovem que viveu entre Equador e Colômbia. Todos lembram de Lady Bird, mas as semelhanças são maiores com Persepolis, por mais que a carga política daquele grande filme, aqui seja trocada por detalhes mais precisos desse amadurecimento e periodo de descobertas femininas.

Do vai e vem entre morar com pais separados ou com as irmãs mais velhas, o filme é singelo ao sempre acompanhar as influências e transformações desde o nascimento até a faculdade de Paola. Os costumes de uma familia tradicional e a forma dos anos que revolucionam a cabeça dos jovens. É de todo simpático, ainda que pode profundo se comparado a alguns dos coming of age que tem conquistado critica e público.

Umas Perguntas

Publicado: junho 5, 2018 em Cinema
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Unas Preguntas / One or Two Questions (2018 – URU/ALE) 

Com o fim da ditadura no Uruguai (1973-1985), o congresso aprovou a lei da Anistia aos crimes cometidos à época. Em 1989, através da iniciativa popular, foi agendado um plesbicito para confirmar aprovação, ou não, do perdão irrestrito a tamanha violência, torturas e outros crimes cometidos no período.

Filmado como um documentário para uma emissora de tv suíça, a diretora Kristina Konrad e outras duas documentaristas saíram às ruas para entrevistar a população com a seguinte pergunta: O que é paz para você? Foram trinta anos até que a documentarista decidisse retornar ao material gravado, afinal a vitória dos favoráveis à lei da anistia sepultou a divulgação do material.

Passado todo esse tempo, e depois de tantas mutações na política sul-americanas, Konrad finalmente resgata seus arquivos e condensa três anos de entrevistas pelas ruas do país em quatro horas de um material riquíssimo em compreender as diferenças entre as pessoas. Tanto nas diferenter possibilidades de visão política, quanto no total desisnteresse ou desinformação, no grau de medo após tanta censura e outras especificidades que completam um retrato bastante abrangente da comunidade uruguaia dos anos 80.

Intercalado com comerciais de tv da época (entre marcas e do próprio plesbiscito), é curioso como o marketing e interpretação dos fatos possibilidade com que os dois lados levantassem a bandeira da paz, mesmo com afirmações tão dípares. E, dessa vez, com tamanha simplicidade nas imagens, temos esse poderoso retrato político e estudo sociológico da transição da democratização da América do Sul.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Forum

Waldheims Walzer / The Waldheim Waltz (2018 – AUT) 

A diretora Ruth Beckermann traz à tona a figura de Kurt Waldheim, figura central da política austríaca no anos 80 e 90. Mais precisamente, o filme resgata o período da campanha eleitoral para presidente, ele era favorito após mais de dez anos como secretário Geral da ONU, até que foi revelado um lado dele desconhecido da população: sua participação no exército alemão na segunda Guerra Mundial na deportação de judeus e outros massacres.

Candidatura desestabilizada, o filme resgata vídeos de entrevistas em que ele tenta negar seu lado nos fatos, todas as mutações na campanha, até sua vitória na reta final. É astuto por parte de Beckermann em resgatar a história, num momento desses, onde não só na Áustria, como em outros países da União Européia, a direita conservador avança numa esperança da população de estancar a desenfreada onda de refugiados imigrantes do Oriente Médio e Ásia. Os nazistas também ganhavam nos votos, muitas vezes o passado pouco importa, ou as barbáries são até defendidas por nossas culturas tão progressistas, democráticas e humanitárias.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Forum

Con El Viento / Facing the Wind (2018 – ESP) 

A estreia na direção de Meritxell Colell é, ao mesmo tempo, minimalista e grandiosa. Um filme de silêncios, de gestos, e também da expressão de uma tempestade de sentimentos através apenas da dança. A câmera inquieta, a paisagem rural da Espanha meio árida, palco para o retorno de Mónica após vinte anos longe de sua terra natal, por conta da morte de seu pai.

As recordações, sentimentos de culpa e outras aflições pelo distanciamento alongam a estada, talvez até a mãe vender a casa. Junto com outras mulheres da familia, permite que o tempo passe, que as feridas sejam remexidas, um reencontro e um acerto de contas com sua própria consciência. Colell é muito precisa em aproveitar o ambiente, e os não atores, para oferecer atmosfera precisa, a sensação de um pessoas e um vilarejo longe dos tempos modernos, por outro lado, o aspecto geral é de um filme demasiado fluido, talvez preso demais a necessidade de expressar todos os sentimentos através da dança ou de outras expressões silenciosas e individuais.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Forum

Malambo, El Hombre Bueno (2018 – ARG) 

Malambo é uma dança folclórica gaucha, desde o século XVII, que além de seus passos firmes e masculinos, tem a curiosa complexidade da carreira do dançarino, que em caso de ser campeão de um festival não é mais permitido competir. Anos de dedicação e quando da consagração, o dançarino deve se tornar professor de jovens ou abandonar a profissão.

O diretor Santiago Loza aborda a dança e seus costumes através de Gaspar, o jovem doce que sofre com as dores físicas (hérnia por conta da dança) e guarda um rosto preocupado, de quem não sabe o que fazer quando abandonar o malambo. A narração em off e sua forma de se relacionar com familiares demonstram ser tão amável, dedicado, e também incapaz de olhar além do presente. Exames, tratamentos, ensaios, em ritmo quase documental, uma pequena amostra dessa vida calcada num costume adaptado ao contemporâneo.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Panorama

Hojoom / Invasion (2017 – IRA) 

O iraniano Shahram Mokri já surpreendeu os festivais de cinema há alguns anos com Peixe e Gato, um thriller filmado num único plano-sequencia com serial killers atacando um acampamento de jovens. O cineasta retorna e repete a fórmula do plano-sequencia único e personagens envoltos em um crime. Só que, dessa vez, tempera com ingredientes apocalípticos, um longo eclipse do sol, uma doença desconhecida, alguém acusado de ser vampiro.

A história já começa com a policia tentando fazer a reconstituição de um crime, no ginásio onde um grupo pratica um esporte (jamais explicado), usam roupas estranhas e tatuagens. Duas pessoas do grupo foram assassinadas, o líder está desaparecido e é o suspeito. A narrativa de idas e vindas no tempo brinca com a reconstituição do crime, e a indecisão do protagonista enquanto tramas de um novo assassinato são planejadas e detalhes reveladores dos personagens são explícitos. É mais confuso e não tem bem resolvido do que o trabalho anterior, mas novamente interessante pela proposta fora dos padrões e as possibilidades com que Mokri filma esse teatro sem pausas.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Panorama

Jae-Hoe / Old Love (2017 – COR) 

É quase cruel a forma como o cineasta sul-coreano Park Ki-yong enxerga o reencontro de um amor da adolescência entre seus personagens. Quase trinta anos separados, um homem e uma mulher de meia-idade se encontram no aeroporto de Incheon, combinam de se reencontrar, recordar o passado. Como tantos filmes coreanos, alguns momentos em restaurantes, comendo e bebendo, os diálogos são esparsos, muitos daqueles silêncios que nos incomodam.

Cada um tem sua vida estabelecida, e o romance congelado por décadas não é combustível o bastante para diminuir suas crises pessoais. Através de longas cenas sem cortes, e essa quantidade ínfima de informações, o filme estabelece um romance de pessoas doloridas, solitárias, em que o sentimentalismo da paixão dá lugar ao pé no chão dos dramas de cotidiano.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Forum

A Second Game (Al Doilea Joc / A Second Game, 2014 – ROM)

Infinite Football (Fotbal Infinit / Infinite Football, 2018 – ROM)

Numa carreira ainda curta, dois documentários que envolvem futebol, são um claro indicativo da relação de Corneliu Porumboiu com o esporte. Com A Second Game, seu filme menos conhecido até aqui, entendemos que a relação com o esporte vem de berço, seu pai foi árbitro e atuou na primeira divisão do campeonato romeno.

E é um pouco disso que o filme trata, a imagem exibe um jogo gravado em VHS entre os dois maiores times do país, o Steaua e o Dínamo. O gramado coberto de neve, entre os jogadores em campo o craque Hagi, maior nome do futebol romeno nas últimas décadas.  As únicas imagens que teremos são as da partida, enquanto o áudio traz  pai e filho conversando, comentam lances do jogo, recordações. Há um teor político envolvido, nos anos 80, um dos times era ligado ao ditador Nicolae Ceausescu, enquanto o adversário ligado aos militares.

Com Infinite Football, Porumboiu retorno ao futebol e às telas. O personagem central é um amigo do cineasta, Laurentiu Ginghina, que nos anos 80 se machucou praticando o esporte e não pode mais voltar a jogar. Atualmente funcionário público, Ginghina é entrevistado pelo diretor sobre as teorias que ele criou para alterar o futebol, ou até mesmo criar um novo esporte. Em meio a suas explicações e teorias, acompanhamos um pouco de sua persona, trabalhando ou assistindo um treino de futsal, enquanto Porumboiu tenta desenvolver no subconsciente um estudo sobre a liberdade, o pensamento. Novamente usando o futebol para trazer um pouco da história de seu país, outro rascunho de paralelo entre o esporte e o governo Ceausescu.


Infinite Football

Festival: Berlim 2018

Mostra: Forum

No ultimo sábado ocorreu a cerimônia de premiação da 68ª do Festival de Berlim. O mais político dos festivais de cinema teve como presidente do júri o cineasta alemão Tom Tykwer, e como toda premiação em que há um pequeno grupo de votantes, as escolhas do júri surpreenderam a critica mundial.

Acompanhando a cobertura dos principais órgãos de imprensa, críticos e cinéfilos, os filmes que mais se destacavam eram Season of the Devil, o novo de Lav Diaz (um musical político), dos prata da casa dois destaques: Transit, mais recente melodrama de Christian Petzold, e In the Aisles, poético e romântico dirigido por Thomas Stuber. O norueguês Erik Poppe que causou controversa em U – July 22, história daquele atirador de seu país que matou muitos inocentes, alguém se lembra? O russo Aleksey German Jr com Dovlatov era outro possível candidato, além dos que foram realmente premiados: o paraguaio Las Herederas e o romeno Touch Me Not. Porém, o mais elogiado de todos estava na seção paralela Forum, o chinês An Elephant Sitting Still, dirigido por Hu Bo.

O Brasil, que não participava na Competição Principal, sai de Berlim com alguns prêmios, demonstrando ter seu espaço na Berlinale. A Toca do cinéfilo teve acesso a diversos filmes das mostras paralelas de Berlim (Panorama, Forum, Generation), assim como outros títulos destacados de outros dois importantes festivais de 2018: Rotterdã e Sundance. Lentamente, o blog fará (algumas já foram feitas) publicações antecipando o que poderá ser descoberto do cinema ao longo de 2018. Confira! Segue a lista de premiados:O júri optou por premiar o filme dirigido por uma mulher (assim como fora feito no ano passado), demonstrando total conexão com o movimento que tem tomado Hollywood durante a temporada do Oscar. Mas, foi além, dando o segundo prêmio mais importante para outro filme dirigido por mulher. Não agradou a critica, que se não desgostou de ambos, claramente preferia outros títulos. Agora, é esperar a oportunidade de conferi-los ao longo do ano.

Urso de Ouro – Melhor Filme: Touch Me Not, de Adina Pintilie (Romênia)

Grande Prêmio do Juri: Twarz (Mug), de Malgorzata Szumowska (Polônia)

Melhor Diretor: Isle of Dogs, de Wes Anderson (Reino Unido)

Melhor Atriz: Ana Brun por Las Herederas, de Marcelo Martinessi, (Paraguai)

Melhor Ator: Anthony Bajon por La Priere (The Prayer), de Cedric Kahn (França)

Melhor Roteiro: Manuel Alcala e Alonso Ruizpalacios por Museo (Museum) (México)

Prêmio Alfred Bauer: Las Herederas, de Marcelo Martinessi, (Paraguai)

Melhor Documentário: Waldheims Walzer (The Waldheim Waltz), de Ruth Beckermann (Áustria)

Melhor Primeiro Fime: Touch Me Not, de Adina Pintilie (Romênia)

Melhor Curta-Metragem: The Men Behind the Wall, de Ines Moldavsky (Israel)

Teddy – Melhor Filme LGBT: Tinta Bruta, Marcio Reolon e Filipe Matzembacher (Brasil)

Teddy – Melhor Documentário LGBT: Bixa Travesty, Claudia Priscilla e Kiko Goifman (Brasil)

Mariphasa

Publicado: fevereiro 24, 2018 em Cinema
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Mariphasa (2018 – POR) 

Peças espalhadas de um quebra-cabeças que não precisa ser montado: um carro batido, um segurança noturno, a amante, o estranho vizinho, o cão que não pára de latir, a filha que morreu, um roubo, a noite.

O jogo de luz e sombra, o destacado rigor estético. Trafegando por uma narrativa longe do que chamamos convencional, o cineasta português Sandro Aguilar apresenta uma Lisboa sinistra, obscura, de ambientes fechados ou quase abandonados. De personagens que vagam entre o inconsolável e o misterioso. Por entre as sombras, as esparsas pistas para uma mera compreensão de tudo, ou apenas se deixar hipnotizar pela Mariphasa, a flor que tira a vida da lua.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Forum