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Nocturama

Publicado: abril 3, 2017 em Cinema
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Nocturama (2016 – FRA) 

O cinema de Bertrand Bonello não é para deixar ninguém indiferente. Esperado para ser exibido em Cannes, acabou na competição em San Sebastian, e segundo os rumores seria pelo receio das cicatrizes do tema dentro da França. Trata de um grupo de jovens executando atentados terroristas simultâneos em Paris. Portanto, é compreensível a posição do festival, por outro lado, não é filme para se perder de vista.

A primeira parte é silenciosa e com edição bem ágil, mostra os integrantes do grupo se encontrando nos locais planejados e executando os atentados, como num filme de assalto.Frios, determinados, o jogo de edição do filme de Bonello remete ao clima de expectativa e adrenalina entre eles. Com a cidade empolvorosa e alguns prédios em chamas, todos se escondem numa loja de departamentos, completamente vazia pela madrugada. Ali o clima muda, ganhamos alguns flashbacks dos dias anteriores ao atentado, os encontros planejando o dia do ataque, descobrimos as motivações daquela garotada.

Ou melhor, Bonello reduz os executores ao vazio político de suas ideologias, um reflexo profundo de uma geração alienada e acostumada a ter o mundo em suas mãos através do joystick de seus videogames. As horas de insegurança com o passar do tempo entre diferentes seções vazias daquela loja enorme, são tão desesperadoras e silenciosas que ecoam como gritos dentro daquelas mentes perversas e irresponsáveis. É verdade que como um todo, o filme de Bonello peca por manter do início ao fim essa linha narrativa do vazio, mesmo que o tipo de tensão mude drasticamente até o desfecho de cada um dos terroristas juvenis.

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saint-laurentSaint Laurent (2014 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

É exatamente o que se poderia esperar de Bertrand Bonello, o cineasta francês, que tanto carrega o sexo como temática, mergulha nos anos mais agudos de vida de Yves Saint Laurent (Gaspard Ulliel), de 1967-1976. Não se aproximada da biografia quadradinha, que cobre os fatos de uma vida. Seu filme carrega a sensibilidade de tentar traduzir um pouco do gênio silencioso, vaidoso, tímido, e desenfreado por viver seus prazeres.

Nada melhor que transcorrer essa década, absorver a atmosfera do estilista feito, a relação com Berge (Jeremier Renier), as orgias, as fraquezas, o consumo desenfreado de drogas, as festas, o caso com Jacques (Louis Garrel) – grande responsável por Saint Laurent descobrir o lado mais “obscuro” de sua vida. E também as coleções, capturar pequenos detalhes da arte da custura.

Os últimos anos de vida surgem num salto cronológico, são cenas melancólicas, a tristeza do afastamento dos holofotes, a solidão. É a decadência social, pesada como a mobília dos luxuosos aposentos. É um filme para o público francês, ou para os que conhecem bem a figura de YSL. Mas, também, um filme que possibilita uma abordagem mais lúdica, evfervescente, que parte em busca da essência do biografado. Bonello e sua sofisticação traduz momentos em pura atmosfera, o sexo nem é tão escandaloso assim, está mais insinuado que efetivo, mesmo assim é uma arma poderosa em suas mãos.

Cena-chave quando Jacques conhece Saint Laurent, numa balada, um longo plano-sequencia em travelling lateral, capta o olhar de Jacques, a câmera atravessa a pista de dança até encontrar Saint Laurent no outro extremo, e vai, e volta, o olhar malicioso, a música tomando a pista, as pessoas dançando, vejo aqui o perfeito resumo do que é Bonello refletindo Saint Laurent.

festivaldecannes_2-650x400Em poucas horas começará a cerimônia de premiação da 67a edição do Festival de Cannes. Diferentemente dos últimos anos, este ano, este blog, não postou a repercussão diária das exibições, é muito trabalhoso e não deu tempo. Isso não quer dizer que o festival não tenha sido acompanhado, bem de pertinho. Agora que a imprensa já foi apresentada aos 18 filmes em competição e as mostras paralelas já conhecem seus premiados, podemos ter algumas expectivas, além dos favoritos que são apontados em diversas listas na internet.

Não parece ter sido uma edição de filmes que nos deixam ansiosos para conferir, mas há destaques bem interessantes entre monstros do cinema, ou novidades desconhecidas. Para quem gosta de quadro de cotações, vale uma olhada nesse link aqui, com críticos de muitos países, ou da revista francesa Le Film Français.

As frustrações começaram pelo filme de abertura, Grace de Monaco (Olivier Dahan) não agradou ninguém. The Search (Michel Hazanavicius) foi o mais vaiado com seu drama sobre a Chechenia, impressão de que o diretor de O Artista é realizador de um filme só. Captives (Atom Egoyan) foi outro que ninguém entendeu o que estava fazendo na competição (e eu não entendo porque ele sempre está lá), o filme é sobre sequestro infantil e pedofilia.

saint-laurent-cannes-2014No bloco dos que dividiram as opiniões estão: Saint Laurent (Bertrand Bonello) cinebiografia do estilista francês, com foco na relação com drogas e sexualidade. Jimmy Hall (Ken Loach) foi outro que passou quase batido, sobre um irlandês reabrindo um salão de dança, no meio de uma crise financeira-política, Loach e sua eterna visão socialista. A sensação é que erraram no argentino, Jauja (Lisando Alonso) acabou não premiado na Un Certain Regards, mas foi um dos filmes mais celebrados do festival, porém, na competição estava Relatos Salvajes (Damian Szifron), que até agradou, com suas 6 tramas cheia de atores argentinos conhecidos e humor negro.

Maps to the StarsAinda dividindo opiniões, mas já com alguns elogios que podem levar os filmes a serem lembrados na premiação ficaram: Foxcatcher (Bennet Miller), história real de um milionário e dois medalhistas olímpicos, e um assassinato. Os elogios as inesperadas grandes atuações de Channing Tatum e Steve Carrel foram entusiasmados (desde já um dos postulantes ao Oscar). Maps to the Star (David Cronenberg) ninguém aposta que a sátira sobre Hollywood será premiada, mas o filme agradou muita gente. The Homesman (Tommy Lee Jones) é outro western do diretor, dessa vez com foco em três mulheres cruzando o velho-oeste. O último dia de competição trouxe Clouds of Sils Maria (Olivier Assayas) e as reverências, inesperadas, a atuação de Kristen Stewart (crítico Guy Lodge acha que se ela ganhar a internet vai travar), e o filme também agradou, mas o último filme exibido é sempre carta fora do baralho.

Still-The-WaterAgora chegamos no pelotão da frente. Logo após a exibição, o japonês Still the Water (Naomi Kawase) parecia que ia passar em branco, mas vem crescendo no boca-a-boca, a história trata de dois irmãos numa pequena ilha no Japão. Há quem ame o cinema de Kawase, ela disse que este é seu melhor trabalho, mas muita gente questiona porque tanto ibope para seus filmes. Mommy (Xavier Dolan) é outro sempre questionado, aos 25 anos e com 5 filmes, Dolan é uma aposta dos festivais, muito prestigio (eu só vi o primeiro filme dele é gostaria de ficar bem longe). Se em seu primeiro trabalho ele queria matar sua mãe, este novo filme é uma espécie de vingança. A cinebiografia Mr. Turner (Mike Leigh) sobre o pintor e mulheres complexas a sua volta vem com força para uma possível premiação a Timothy Spall.

Nesse mesmo pelotão ainda estão: o italiano Le Meraviglie (Alice Rohrwacher), a segunda mulher em competição ganhou elogios crescentes com sua história de uma familia cuidando de uma fazenda de mel. A diretora, novamente, foca na adolescencia feminina. Timbutktu (Abderrahmane Sissako) foi exibido logo no começo, nunca foi considerado favorito, mas sempre elogiado por seu drama contudente sobre todas as mazelas religiosas que vive o norte da África, corre por fora em muitos prêmios.

Cannes2014DeuxjoursunenuitFavoritos, chegamos a eles. Pelo que tenho apurado são 4. Porém, um deles com chances nulas de tão reduzidas. Deux Jours, Une Nuit (Jean-Pierre e Luc Dardenne), os irmãos belgas já ganharam a Palma duas vezes. Nunca alguém ganhou uma terceira. A regularidade deles é impressionante, desde A Promessa que eles lançam um filme a cada 3 anos, e sempre estão entre os premiados. Não deve ser diferente, Marion Cotilard é a principal favorita (mas há muitas competidoras) ao premio de atriz. O filme é um fábula moral, um final de semana e uma mulher tentando mendigar seu emprego aos colegas de trabalho.

winter-sleep-cannes-2014-3Winter Sleep (Nuri Bilge Ceylan), o turco é um daqueles que está cada vez mais próximo da Palma, ontem ganhou melhor filme pela Fipresci (ano passado quebrou-se a maldição, mas normalmente quem ganha o Fipresci não leva a Palma). Desde que saiu o lineup eu já considerava ele, e o russo, como os favoritos, e os dois realmente encabeçam a lista. São 3 horas na Capadócia, ao estilo de Ceylan, poucos diálogos, tom poético, cavernas, pequenas tramas com um ator aposentado (Haluk Bilginer, outro com chances) no centro delas.

adieuAdieu au Langage (Jean-Luc Godard), seus filmes estão sempre em Cannes, em mostras paralelas, sua presença na competição significava alguma coisa. Desde os anos 80 que seu cinema chegou a um ponto de agradar a um seleto público (bota seleto nisso), cada vez mais resmungão e de narrativa fragmentada. Dessa vez ele vez com um 3D, e a crítica saiu estarrecida. A sensação que dá é que ele acertou no tom do que vem fazendo há anos, e se aproveitando da nova tecnologia. Seria uma decisão corajosa dar a Palma a Godard, ele nunca ganhou, é um ícone do cinema de autor e uma quebra com todo o cinema tradicional. Mesmo não gostando de seus filmes mais recentes (exceção ao belo Elogio ao Amor), gostaria de ver Godard ganhando para dar essa quebrada com o formalismo protocolar.

Leviathan 1Mas, se eu tivesse que colocar meu rico dinheirinho em alguma bolsa de aposta, ele iria para o russo Leviathan (Andrey Zvyagintsev). Muita gente torce o nariz, eu, particularmente, gosto de seus filmes. Começou com O Retorno (Leão de Ouro em Veneza), depois The Banishment passou batido, e o último, Elena foi premiado na Un Certain Regard (há quem reclame que devia ter passado na competição, naquele ano). Sua exibição de gala na quinta-feira é sinal de prestígio dentro da competição. E, se não é unanimidade, a proporção de admiradores é muito superior, não foram poucos os que pediram a Palma após sua primeira exibição. Poderia ganhar ator, roteiro, direção, mas a aposta é mesmo para ser a Palma de Ouro. Veremos. O filme é ambicioso, com um título desses não era para menos. O filme parece ser um contundente drama sobre a vida russa contemporanea, a corrupção política, a presença da igreja Ortodoxa, o poder, a polícia.

Fora da Competição, além de Jauja, destaques para Welcome to New York (Abel Ferrara) contando o escandaloso caso de Dominik-Strauss. Force Majeure (Ruben Ostlund) sobre o poder de avalanche. O polêmico, e eleito melhor filme na Un Certain Regard, White God (Kornél Mundruczó) e os ucranianos The Tribe (Myroslav Slaboshpytskiy) sem falas, personagens surdos-mudos, e o documentário Maidan (Sergei Loznitsa) sobre os recentes acontecimentos políticos na Ucrânia.

L’apollonide: Souvenirs de la Maison Close (2011 – FRA)

Bertrand Bonello sim conseguiu captar a melancolia e distanciar do glamour das casas de prostituição de luxo. Estamos em 1899-1900, num tom lento e penetrante o cineasta radiografa as bizarrices de clientes, o vazio daquelas moças que vivem sem esperança, porém precisam alegrar seus clientes a cada noite, transmitir-lhes entusiasmo.

A câmera se posiciona de forma cirúrgica, poucos movimentos, ainda assim penetra por entre corpos (nus, sem nunca demonstrar erotismo, a coisa fria de um filme de arte) e ambientes. Deflagra a solidão, a tristeza, o total desconsolo que tão lindas mulheres carregam ao se verem presas, dependentes quase como escravas, vendendo seus corpos sem perspectiva nenhuma de sair daquela casa.

A imagem quase o torna um convidado, a beber vinho naquele pinico dourado, mergulhar seu corpo na banheira de champagne, ou visualizar o sexo por espelhos, como numa casa de swing. O que faz Bonello com maestria é desvendar máscaras, é desmistificar o glamour daqueles sorrisos tão radiantes na sala de estar onde os homens de estirpe, burgueses adúlteros, que mal imaginam a frieza mecânica com que as mulheres contam com quantos estiveram aquela noite, ou se lavam com desprezo dos fluídos trocados.