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Nära Livet (1958 – SUE)

Ingmar Bergman também era o cineasta da alma feminina, aquele capaz de produzir ensaios sobre as aflições e a feminilidade, o homem que captava nuances e as tranformava em poderosas representações de sensações, pouco, ou nunca, reproduzidas. Um filme sobre três mulheres grávidas dividindo um quarto de hospital, por uma noite, e o mundo de dúvidas, angústias, as incertezas, as idas e vindas de amores.

O cineasta sueco resume em três personagens, a grande maioria das possibilidades, sensações e tormentos das que carregam outra vida em seus corpos, e no quanto essa é uma experiência transcendental. Num mergulho tenso por condição física e psicológica dessas mulheres, Bergman vai desde a alegria intensa à decepção, num piscar de olhos. E os faz com a tensão de um dia de hospital pode causar. A dor que pode estar no psicológico, a maneira de se relacionar com sua própria gravidez, a intimidade que surge de outras grávidas.

O filme é sobre essa coisa inexplicável chamada maternidade, seja ela indesejável, com complicações ou interrompida espontaneamente. Ninguém passa ileso a uma experiencia dessas, casamentos desmoronam, relacionamentos se refazem ou desfazem, a mulher dialogando com seu próprio corpo e estado de espírito enquanto carrega em seu ventre o milagre da vida. Bergman deixa de lado os bebês para manter seu foco na mulher, na grávida, e nesse mundo de novas possibilidades que está nascendo.

Um dos melhores filmes de todos os tempos!

Persona (1966 – SUE) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

A atriz (Liv Ullmann) para de falar em meio a uma peça de teatro, clinicamente saudável, inexplicavelmente permanece silenciosa. A enfermeira (Bibi Andersson) simples, ingênua e falante, designada para os cuidados da atriz. Uma cumplicidade absurda vivida por duas mulheres, Ingmar Bergman extrapola os limites da sensibilidade, do sensorial. É mágica a forma como Bergman cria tanta tensão e complexidade se uma das duas mulheres não pronuncia uma palavra, porém os conflitos estão tão explícitos, vivos, pulsantes com essa descarga de sexualidade e intimidade. Dois corpos misturando proximidade, carinho, fé, e atração, impulsionados pela força indescritível da imagem.

Frente ao espelho, as cabeças se curvam, o momento é tenso, carregado, Bergman insinua a imagem de um corpo com duas cabeças, momento poderoso. Nos relatos eróticos de uma orgia, a tensão sexual chega a níveis estratosféricos, é um mergulho fascinante pela sexualidade feminina, aliada à maneira como Bergman expõe a religiosidade, é a alma pura e simples jorrando de seus personagens, seja pela verborragia ou pelo silencio profundo. Liv Ullmann expressa tanto com seus olhares que não há necessidade da fala, seu silencio observador consegue dialogar, nos oferece até a sensação de tocar suas palavras, suas emoções, e, principalmente suas mágoas.

Porque é de tristeza que se constitui essa atriz, enquanto de vivacidade a enfermeira. E as duas, isoladas do mundo, em uma ilha, por recomendações médicas, chegam ao limite da convivência entre dois seres humanos, e ali, sintetizam a profundidade de suas almas, e Bergman capta isso, com enquadramentos fascinantes, com a sensação de que essa é uma peça de teatro, encenada na sua sala, e você, o único público para aquelas duas interpretações soberbas. Se algum homem chegou a compreender a alma feminina, ele talvez seja Ingmar Bergman.