A Grande Aposta

agrandeapostaThe Big Short (2015 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Adam Mckay revisita a crise econômica de 2008, ocasionada pela bolha imobiliária americana que deixou milhares de pessoas sem casa, alguns chegaram a morar dentro do próprio carro. Num tom irônico dramático, o filme segue algumas pessoas-chave, que perceberam, anos antes, que o castelo de cartas desmoronaria, via o desenfreado crédito imobiliário e a podridão de alguns fundos. A ganância financeira doeu no bolso da classe média.

Com utilização contante de zoom e montagem picotada, trilha sonora marcante (Led Zeppellin e Nirvana), além de personagens conversando com a câmera para explicar ou ironizar o sistema, McKay acerta no tom explicativo-satírico, abordando esse universo financeiro que parece tão complicado e distante de tantas pessoas. Quando a conversa sobre swaps e subprimes se complica, surge um corte para Selena Gomez ou Margot Robbie explicarem fundamentos, sempre em tom irônico, e ambiente completamente avesso a aquele em que os engravatados falam em milhões e carregam, ou não, o peso do mundo sob as costas (personagem de Steve Carrel).

Ao construir personagens além da simples relação deles com o mundo financeiro, o roteiro (favorito na disputa do Oscar) ajuda na quebra desse paradigma das complicações financeiras, o excêntrico com olho de vidro (Christian Bale), ou banqueiro feroz (Ryan Gosling), ou os qu esse aproveitam do sistema mesmo enxergando a podridão (Brad Pitt), dessa forma dando vida a esse mundo de números e cifras milionárias e crimes sem empunhar armas.

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Corações de Ferro

Brad Pitt;Logan LermanFury (2014 – EUA) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

De maneira tímida, lá embaixo na lista de apostas, mas ainda constava nas listas dos possíveis indicados ao Oscar 2015. Ufa, ficou pelo caminho, afinal sob direção e roteiro de David Ayer, todo o nacionalismo e clichê de heroísmo pontuam essa nova abordagem da Segunda Guerra Mundial.

Brad Pitt comanda um pequeno pelotão de 5 militares num tanque de guerra, dentro da Alemanha. Aniquilam Nazistas, o filme esboça a loucura da guerra, mas não vai além de muitos tiros com as metralhadoras do tanque de guerra (destaque apenas para a utilização do som). O elenco ainda carrega Shia LaBeouf, mas o verdadeiro condutor da trama é o jovem datilógrafo (Logan Lerman) que acaba no meio das “cobras” do corpo-a-corpo da Guerra. Viva o idealismo do cinema americano que transforma em heróis sádicos que preternsamente doam suas vidas pela pátria. O resultado beira o constrangedor.

12 Anos de Escravidão

12anosdeescravidao12 Years a Slave (EUA – 2013) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Entristece um pouco pensar que Steve McQueen, um dos cineastas mais intrigantes da recente safra de novos diretores, vá ganhar o Oscar com o filme mais “convencional” de sua curta carreira. Este é apenas o terceiro longa. Favorito absoluto na corrida deste ano ao “careca dourado”, porém por mais consistente e fabuloso que seja seu filme, ficou de lado aquela perturbação de seus trabalhos anteriores em prol de uma história justa.

Porque, afinal, este é um daqueles filmes que precisavam ser filmados, uma daqueles histórias que precisavam ser contadas, e toda aquela ladainha blasé. Trata-se da biografia de um homem (cuja trajetória representa a de inúmeros outros à época). Um negro livre (Chiwetel Ejiofor), sequestrado e escravizado, durante 12 anos. Tempo suficiente para McQueen transpassar às telas toda a indignação com a escravidão.

12anosdeescravidao_2Injustiças, açoites e humilhações, qualquer sabe o que esperar dessa história. Capatazes impiedosos, fazendeiros sádicos (Michael Fassbender), todo e qualquer tipo de abuso nas relações raciais. A narrativa de McQueen é densa, sóbria, consistente. Aliada o tradicional ao seco, mesmo os momentos mais dramáticos tem ausência do melodrama, retrato estéril do estilo do cineasta. Por exemplo, na grande cena do filme, as chibatas no tronco, são de uma agressividade impar, o corte do corpo, o jorrar do sangue, impressiona mais o exercício cirúrgico do que a novela de um homem sofrendo todas as dores do mundo.

Guerra Mundial Z

guerramundialzWorld War Z (2013 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Brad Pitt correndo mais que maratonista contra zumbis frenéticos que agem como se fossem carrinhos de bate-bate, lançam seus corpos contra vidros, ou por paredes, num desespero incontrolável. Trunfo perfeito para o diretor Marc Forster criar um misto de thriller e terror, num ritmo alucinante, cruzando o mundo com seu herói supremo.

Se não fosse eficiente em suas cenas de ação/terror, de forma isolada, a adaptação do livro homônimo pós-apocalíptico de Max Brooks seria um grande fiasco. Já que, como roteiro, não passa de uma colcha de retalhos de filmes do gênero “salvar o mundo”, com direito ao drama familiar, e à necessidade do herói em se desdobrar por áreas que não conhece, mas, afinal, ele é o herói. Lembra muito Ensaio sobre a Cegueira em sua visão de cidades caóticas, de saques a supermercados, sobrevivência no mundo animal. No fundo, zumbis ou tiros, tudo está a cargo de cenas de ação eficientes.

O Homem da Máfia

ohomemdamafiaKilling Them Softly (2012 – EUA) 

O falatório e as quase crises existenciais dos gangsteres, alinhadas com a crise financeira nos EUA em 2008, e a mudança da presidência de Bush para Obama, não funcionam como argumento miseravelmente cativante no filme dirigido por Andrew Dominik. As conversas moles, a falta de punch nas cenas, e essa relação máfia x governo, não conseguem defender o que o filme essencialmente é: um bandido buscando os bandidos que roubaram outros bandidos.

É bem por aí, um assalto a um jogo de pôquer que estava sendo patrocinado pela máfia. Vem Brad Pitt descobrir quem foram os assaltantes. Fora isso, muita conversa fora e quase nenhuma ação. Dominik tenta filmar com pose, inventar conexões onde não há, e brincar de metáfora com a situação financeira americana.

O Homem que Mudou o Jogo

Moneyball (2011 – EUA)

Beisebol é um jogo muito chato de se assistir, já fui ao estádio e foram 3 horas modorrentas enquanto o Chicago Cubs perdia, de alguém, em casa. Um jogo coletivo, e ainda assim, extretamente individual. Demorasse uma eternidade até uma jogada que pode durar enquanto segundos? 2, 5, 10 segundos? O cineasta Bennett Miller traz a história verídica de um sujeito que tentou mudar o jogo, Billy Beane (Brad Pitt) sacou que as estatísticas, que tanto os americanos amam no mundo dos esportes, faziam sentido, e era possível montar uma equipe, mais que competitiva, baseando-se nos desempenhos, e não no charme, fama, e relacionamento dos jogadores.

O filme é sobre a sacada de Billy, sua gana de se tornar um vencedor (já que como jogou, não conseguiu), e claro, sobre suas manias, que misturadas a sua garra, o tornavam, um sujeito, quase intragável. Bennett Miller é mais um dos que não conseguiram deixar o esporte interessante no cinema, não tem jeito, por mais que não seja um roteiro que apele à superação, a trilha sonora para causar emoção está lá. Assim como, a ausencia de profundidade, e a falta de interação entre linguagem cinematográfica e cinema (e olha que Miller fez um bom trabalho em Capote, e prepara outra história verídica, a de um esquizofrênico que assassinou um atleta olímpico de luta greca-romana e nunca se entendeu as razões para isso, o assassino será Steve Carrel). Provavelmente, a atuação mais insignificante na carreira de Philip Seymour Hoffman.

A Árvore da Vida

The Tree of Life (2011 – EUA) 

Uma ode à vida, um filme-testamento, a dor humana em seu estado latente. Apenas fragmentos conectados a alguma cronologia de uma história familiar não linear. Aspectos da vida de um pai, versos soltos sobre a tarefa do viver. Difícil definir o resultado dessa realização de Terrence Malick, melhor, não pede definição, não há necessidade. Verdadeiramente, trata-se de uma experiência, e uma experiência sensorial, auditiva, sensitiva e intuitiva (só para ficar em alguns termos). “ame cada folha, ame cada raio de sol” pode soar como autoajuda, um desses workshops ou Powerpoints, retocados pela pretensão absurda de um realizador que conecta a vida de uma família de pai opressor à formação do planeta, à existência dos dinossauros.

Não é bem isso, mais próximo está de uma espécie de ensaio, a leitura da mente de personagens angustiados, Malick traduz suas maiores ambições num conjunto de sequencias onde o importante é o nos fazer sentir. E como ele nos faz sentir. Seja a dor da relação pai-filho, seja a perda, ou a solidão. Malick deixa espalhadas pequenas percepções, como se semeasse na mente do público, sem nunca perder as obsessões de sua “pegada” autoral.

A felicidade (e um pedido de atenção) nas pequenas coisas, nas pequenas belezas. O amor como necessidade humana, e a solidão que infelizmente aflige a praticamente todos. Um filme sobre a vida, e sobre as relações humanas, cenas lentas, repletas de narração em off que mais embaralham do que explicam. Seria uma forma de poesia? Talvez, sim, talvez não, Malick propõe um jogo. A vida, a morte, a fé, os sentimentos incorrigíveis que se acumulam, que afastam as pessoas. Tudo isso refletindo essa experiência grandiosa. Não se trata de um filme fácil, porque devemos captar esse universo simultaneamente macro e minimalista. Malick vai ao grandioso, mas quer tratar do minúsculo, e fere, nos faz sentir o vazio que não está entre os corpos num abraço paterno, mas entre as almas que habitam o mesmo lar e ainda assim tão desconectadas.