Posts com Tag ‘Brad Pitt’

Once Upon a Time in… Hollywood (2019 – EUA)

O título já sugere o conto de fadas, mas um conto de fadas tarantinesco, com tudo que o liquidificador do cineasta consegue bater até produzir outro filme delicioso. Delírios de cinéfilos à parte, com ênfase nas referências que Tarantino tanta gosta de usar, o que temos é uma homenagem à Hollywood dos anos 70. E uma homenagem que se concentra num ator em decadência e em seu dublê, e a partir dele transitar por um grupo de personagens reais que vão desde a família Manson, até Roman Polanski e Sharon Tate, até desembocar no trágico momento em que esses dois grupos se encontraram na história.

Em tom de comédia dramática, Tarantino nos guia pelos bastidores da indústria do cinema: casting, series genéricas, jantares de emprego, famosos arrogantes,  mansões e suas festas, mas também pelo prazer da estrela em ascensão. Enfim, um apanhado de comportamentos e personagens que revelam um belo raio-x da época.

Personagens carismáticos, grandes sequencias em que Tarantino destila todo seu estilo, até um final apoteótico e sanguinário que leva muitos ao delírio. O diretor novamente entrega muito do que se esperava. Ainda me permito questionar se suas escolhas não possam soar ofensivas, quando sabemos como a história real transcorreu, e a violência debochada pode parecer agressiva, mas que condiz totalmente com seu cinema, isso não se pode negar, por isso que é um questionamento, e não uma afirmação. O filme de Tarantino está ai, para ser admirado, questionado, porque indiferentes eles nunca serão.

agrandeapostaThe Big Short (2015 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Adam Mckay revisita a crise econômica de 2008, ocasionada pela bolha imobiliária americana que deixou milhares de pessoas sem casa, alguns chegaram a morar dentro do próprio carro. Num tom irônico dramático, o filme segue algumas pessoas-chave, que perceberam, anos antes, que o castelo de cartas desmoronaria, via o desenfreado crédito imobiliário e a podridão de alguns fundos. A ganância financeira doeu no bolso da classe média.

Com utilização contante de zoom e montagem picotada, trilha sonora marcante (Led Zeppellin e Nirvana), além de personagens conversando com a câmera para explicar ou ironizar o sistema, McKay acerta no tom explicativo-satírico, abordando esse universo financeiro que parece tão complicado e distante de tantas pessoas. Quando a conversa sobre swaps e subprimes se complica, surge um corte para Selena Gomez ou Margot Robbie explicarem fundamentos, sempre em tom irônico, e ambiente completamente avesso a aquele em que os engravatados falam em milhões e carregam, ou não, o peso do mundo sob as costas (personagem de Steve Carrel).

Ao construir personagens além da simples relação deles com o mundo financeiro, o roteiro (favorito na disputa do Oscar) ajuda na quebra desse paradigma das complicações financeiras, o excêntrico com olho de vidro (Christian Bale), ou banqueiro feroz (Ryan Gosling), ou os qu esse aproveitam do sistema mesmo enxergando a podridão (Brad Pitt), dessa forma dando vida a esse mundo de números e cifras milionárias e crimes sem empunhar armas.

Corações de Ferro

Publicado: fevereiro 1, 2015 em Cinema
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Brad Pitt;Logan LermanFury (2014 – EUA) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

De maneira tímida, lá embaixo na lista de apostas, mas ainda constava nas listas dos possíveis indicados ao Oscar 2015. Ufa, ficou pelo caminho, afinal sob direção e roteiro de David Ayer, todo o nacionalismo e clichê de heroísmo pontuam essa nova abordagem da Segunda Guerra Mundial.

Brad Pitt comanda um pequeno pelotão de 5 militares num tanque de guerra, dentro da Alemanha. Aniquilam Nazistas, o filme esboça a loucura da guerra, mas não vai além de muitos tiros com as metralhadoras do tanque de guerra (destaque apenas para a utilização do som). O elenco ainda carrega Shia LaBeouf, mas o verdadeiro condutor da trama é o jovem datilógrafo (Logan Lerman) que acaba no meio das “cobras” do corpo-a-corpo da Guerra. Viva o idealismo do cinema americano que transforma em heróis sádicos que preternsamente doam suas vidas pela pátria. O resultado beira o constrangedor.

12anosdeescravidao12 Years a Slave (EUA – 2013) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Entristece um pouco pensar que Steve McQueen, um dos cineastas mais intrigantes da recente safra de novos diretores, vá ganhar o Oscar com o filme mais “convencional” de sua curta carreira. Este é apenas o terceiro longa. Favorito absoluto na corrida deste ano ao “careca dourado”, porém por mais consistente e fabuloso que seja seu filme, ficou de lado aquela perturbação de seus trabalhos anteriores em prol de uma história justa.

Porque, afinal, este é um daqueles filmes que precisavam ser filmados, uma daqueles histórias que precisavam ser contadas, e toda aquela ladainha blasé. Trata-se da biografia de um homem (cuja trajetória representa a de inúmeros outros à época). Um negro livre (Chiwetel Ejiofor), sequestrado e escravizado, durante 12 anos. Tempo suficiente para McQueen transpassar às telas toda a indignação com a escravidão.

12anosdeescravidao_2Injustiças, açoites e humilhações, qualquer sabe o que esperar dessa história. Capatazes impiedosos, fazendeiros sádicos (Michael Fassbender), todo e qualquer tipo de abuso nas relações raciais. A narrativa de McQueen é densa, sóbria, consistente. Aliada o tradicional ao seco, mesmo os momentos mais dramáticos tem ausência do melodrama, retrato estéril do estilo do cineasta. Por exemplo, na grande cena do filme, as chibatas no tronco, são de uma agressividade impar, o corte do corpo, o jorrar do sangue, impressiona mais o exercício cirúrgico do que a novela de um homem sofrendo todas as dores do mundo.

Guerra Mundial Z

Publicado: julho 1, 2013 em Cinema
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guerramundialzWorld War Z (2013 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Brad Pitt correndo mais que maratonista contra zumbis frenéticos que agem como se fossem carrinhos de bate-bate, lançam seus corpos contra vidros, ou por paredes, num desespero incontrolável. Trunfo perfeito para o diretor Marc Forster criar um misto de thriller e terror, num ritmo alucinante, cruzando o mundo com seu herói supremo.

Se não fosse eficiente em suas cenas de ação/terror, de forma isolada, a adaptação do livro homônimo pós-apocalíptico de Max Brooks seria um grande fiasco. Já que, como roteiro, não passa de uma colcha de retalhos de filmes do gênero “salvar o mundo”, com direito ao drama familiar, e à necessidade do herói em se desdobrar por áreas que não conhece, mas, afinal, ele é o herói. Lembra muito Ensaio sobre a Cegueira em sua visão de cidades caóticas, de saques a supermercados, sobrevivência no mundo animal. No fundo, zumbis ou tiros, tudo está a cargo de cenas de ação eficientes.

ohomemdamafiaKilling Them Softly (2012 – EUA) 

O falatório e as quase crises existenciais dos gangsteres, alinhadas com a crise financeira nos EUA em 2008, e a mudança da presidência de Bush para Obama, não funcionam como argumento miseravelmente cativante no filme dirigido por Andrew Dominik. As conversas moles, a falta de punch nas cenas, e essa relação máfia x governo, não conseguem defender o que o filme essencialmente é: um bandido buscando os bandidos que roubaram outros bandidos.

É bem por aí, um assalto a um jogo de pôquer que estava sendo patrocinado pela máfia. Vem Brad Pitt descobrir quem foram os assaltantes. Fora isso, muita conversa fora e quase nenhuma ação. Dominik tenta filmar com pose, inventar conexões onde não há, e brincar de metáfora com a situação financeira americana.

Moneyball (2011 – EUA)

Beisebol é um jogo muito chato de se assistir, já fui ao estádio e foram 3 horas modorrentas enquanto o Chicago Cubs perdia, de alguém, em casa. Um jogo coletivo, e ainda assim, extretamente individual. Demorasse uma eternidade até uma jogada que pode durar enquanto segundos? 2, 5, 10 segundos? O cineasta Bennett Miller traz a história verídica de um sujeito que tentou mudar o jogo, Billy Beane (Brad Pitt) sacou que as estatísticas, que tanto os americanos amam no mundo dos esportes, faziam sentido, e era possível montar uma equipe, mais que competitiva, baseando-se nos desempenhos, e não no charme, fama, e relacionamento dos jogadores.

O filme é sobre a sacada de Billy, sua gana de se tornar um vencedor (já que como jogou, não conseguiu), e claro, sobre suas manias, que misturadas a sua garra, o tornavam, um sujeito, quase intragável. Bennett Miller é mais um dos que não conseguiram deixar o esporte interessante no cinema, não tem jeito, por mais que não seja um roteiro que apele à superação, a trilha sonora para causar emoção está lá. Assim como, a ausencia de profundidade, e a falta de interação entre linguagem cinematográfica e cinema (e olha que Miller fez um bom trabalho em Capote, e prepara outra história verídica, a de um esquizofrênico que assassinou um atleta olímpico de luta greca-romana e nunca se entendeu as razões para isso, o assassino será Steve Carrel). Provavelmente, a atuação mais insignificante na carreira de Philip Seymour Hoffman.

The Tree of Life (2011 – EUA) 

Uma ode à vida, um filme-testamento, a dor humana em seu estado latente. Apenas fragmentos conectados a alguma cronologia de uma história familiar não linear. Aspectos da vida de um pai, versos soltos sobre a tarefa do viver. Difícil definir o resultado dessa realização de Terrence Malick, melhor, não pede definição, não há necessidade. Verdadeiramente, trata-se de uma experiência, e uma experiência sensorial, auditiva, sensitiva e intuitiva (só para ficar em alguns termos). “ame cada folha, ame cada raio de sol” pode soar como autoajuda, um desses workshops ou Powerpoints, retocados pela pretensão absurda de um realizador que conecta a vida de uma família de pai opressor à formação do planeta, à existência dos dinossauros.

Não é bem isso, mais próximo está de uma espécie de ensaio, a leitura da mente de personagens angustiados, Malick traduz suas maiores ambições num conjunto de sequencias onde o importante é o nos fazer sentir. E como ele nos faz sentir. Seja a dor da relação pai-filho, seja a perda, ou a solidão. Malick deixa espalhadas pequenas percepções, como se semeasse na mente do público, sem nunca perder as obsessões de sua “pegada” autoral.

A felicidade (e um pedido de atenção) nas pequenas coisas, nas pequenas belezas. O amor como necessidade humana, e a solidão que infelizmente aflige a praticamente todos. Um filme sobre a vida, e sobre as relações humanas, cenas lentas, repletas de narração em off que mais embaralham do que explicam. Seria uma forma de poesia? Talvez, sim, talvez não, Malick propõe um jogo. A vida, a morte, a fé, os sentimentos incorrigíveis que se acumulam, que afastam as pessoas. Tudo isso refletindo essa experiência grandiosa. Não se trata de um filme fácil, porque devemos captar esse universo simultaneamente macro e minimalista. Malick vai ao grandioso, mas quer tratar do minúsculo, e fere, nos faz sentir o vazio que não está entre os corpos num abraço paterno, mas entre as almas que habitam o mesmo lar e ainda assim tão desconectadas.

Babel (2006 – EUA)

O tema está presente explicitamente no título, trata-se de um filme sobre a incomunicabilidade. Buscando abordar horizontes mais amplos, a globalização chega às telas de cinema, até então tínhamos co-produções multi-geográficas, agora a história o é. A fronteira México-EUA, Marrocos, Japão, um tiro, um feroz desencadeamento de situações dramáticas. É novamente Guillermo Arriaga no roteiro e Alejandro González Iñárritu na direção.

A meu ver, o grande problema é o próprio tiro, a preocupação em se formar uma poderosa ligação entre as três histórias (além do tema incomunicabilidade), seguindo os moldes de seus filmes anteriores, acarreta em quebra do ritmo nas histórias, em fracas interligações entre as mesmas, em exagero de coincidências. Se as histórias fossem individuais, teriam o mesmo impacto (já que de tensão Iñarritu sabe tudo e mais um pouco) e menos distorções. Poderiam assim desenvolver melhor o lado político e suas proporções, a sensibilidade da relação de alguns personagens, e os dramas das escolhas erradas em momentos de alta pressão.

Um casal norte-americano passa férias num país exótico tentando superar a crise conjugal. Uma doméstica mexicana decide levar os filhos de seu patrão para um casamento de um parente seu, por não ter encontrado quem ficasse com as crianças. Dois garotos marroquinos tentam evitar que chacais ataquem o magro rebanho que seu pai os incumbiu de levar para pastar. Uma adolescente japonesa surda-muda vive seus momentos de descoberta da sexualidade.

Em todos os casos a falta de diálogo é latente, a incomunicabilidade assola cada um dos envolvidos, cada uma das vidas, é o casal que não consegue mais dialogar devido a dramas recentes. A adolescente japonesa que mesmo interagindo com a cultura J-pop sofre pelas coisas mais simples, falta-lhe compreensão, diálogo, carinho. A babá mexicana que não consegue entender o drama vivido por seus patrões, ao mesmo tempo em que não consegue encontrar uma solução plausível para seu problema. Os jovens marroquinos que se divertem como duas crianças normais, assumindo responsabilidades de adultos, quando sofrem dos mesmos dilemas pueris de qualquer parte do mundo, só que aprendem tudo pela vida, já que o diálogo familiar é escasso, cheio de tabus.

Iñarritu nos oferece uma visão preconceituosa, de que os dramas dos terceiro-mundistas resumem-se a violência e o controle de seus instintos selvagens. Enquanto os ricos sofrem com seus problemas psicológicos e intimistas. Será que o dinheiro é o único instrumento regulador à problemática da humanidade ou será que temos visões deturpadas e generalistas sobre o que afligem cada um de nós em cada canto do planeta?
Mostrar que vivemos numa torre de babel, onde não nos comunicamos como deveríamos, ocasionando em problemas, em dificuldade para enfrentar situações, é o lado mais competente do filme. Volto a frisar que a insistência em manter diálogo entre as histórias é prejudicial, como se Iñarritu fosse vítima da própria incomunicabilidade que ele mesmo criticou. Brad Pitt ao telefone com o filho, o momento de despedida do ônibus do pequeno vilarejo, são pequenos instantes de tensão-limite, impossível não se emocionar. Há também algumas cenas com Rinko Kikuchi (e toda sua sensualidade adolescente) simplesmente inesquecíveis. Uma mudança na estrutura faria muito bem ao filme, muito irregular, mas Babel tem muita coisa boa, e não é um filme que você irá esquecer facilmente.

Muito cinema ultimamente, mas não no circuito comercial, ontem sessão lotadíssima par a Mostra de Godard (pretendo ver pelo menos seis nessa semana). Fiz sessão-dupla e na segunda encontrei Marcelo V e Ana Paul. Na semana passada foi a vez da Mostra de Neo-realismo, mais uma sessão-dupla dessa vez com Eduardo Aguilar e duas amigas dele… E ainda vou dar um jeito de ver o novo do Forster, mas tá difícil.

queroserjohnmalkovichBeing John Malkovich (1999 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Por que as pessoas têm tanta curiosidade em saber da vida dos outros? O que há de tão fascinante em não ser você mesmo? Até que ponto nossa privacidade deve ser respeitada, qual o conceito de privacidade hoje? Se é que ele existe este conceito ainda. Num mundo tomado por “reality shows”, ter a possibilidade de entrar na cabeça de um famoso ator é algo surreal, porém instigante.

Craig Schwartz (John Cusack) é um marionetista, apaixonado por sua arte, porém enfrentando graves problemas financeiros. Sua esposa, Lotte (Cameron Diaz), adora animais, e os dois vivem numa espécie de mini-zoológico. Obrigado a buscar um emprego “normal”, e auxiliado pela agilidade com as mãos, Craig arruma um emprego de arquivista. O inusitado começa a aparecer aqui, a empresa está localizada no andar 7 ½. Todos andam meio envergados, porque o andar tem realmente metade da altura.

Rapidamente, Craig se apaixona, no trabalho, por Maxine (Catherine Keener), quem não lhe dá nenhuma atenção. O surreal entra de vez na trama quando Craig encontra uma estranha porta na parede, e descobre que se trata de um portal que vai direto ao cérebro do ator John Malkovich. Bizarro, não? Você entra pelo portal e consegue ficar quinze minutos lá dentro, até ser arremessado à beira de uma rodovia. Obviamente que Craig fica fascinado, e conta tudo a Maxine, que vê a possibilidade de ganhar muito dinheiro.

Os dois abrem uma empresa clandestina, e nas madrugadas cobram dos interessados a passar alguns minutos na cabeça do astro. Maxine vai à procura de Malkovich, e o encontra quando Lotte estava dentro da mente do ator. O resultado é que Lotte se apaixona por Maxime. Craig descobre o amor das duas, “executado” através do corpo de Malkovich, e enciumado descobre uma maneira de controlar o ator, como controla suas marionetes. Sob o comando de Craig, a vida de Malkovich muda completamente e esse roteiro segue por caminhos inimagináveis.

Spike Jonze dirigiu inúmeros clips musicais de sucesso, e também trabalhou como ator no filme Três Reis. Em sua estreia na direção surge um talento inventivo, que flerta com humor leve e agradável, enquanto busca na criatividade e em temas atuais, a vasão para suas ideias completamente malucas. Algumas cenas inteligentes como a perseguição no subconsciente de Malkovich, ou a dança imitando uma marionete, provam que nasce um diretor para se ficar bem atentos.