Posts com Tag ‘Caco Ciocler’

A Festa (The Party, 2017 – RU) 

O Banquete (2018) 

Filmes com jantares que tentam destruir personagens e trazer à tona segredos sórdidos são um prato cheio à mediocridade. Ainda estou à procura de um que valha a pena. Eis que, ao mesmo tempo nos cinemas, temos dois em cartaz. Na Inglaterra, Sally Potter expõe vergonhas e segredos da terceira idade burguesa: traições, desabafos entalados na garganta, e a mediocridade de diálogos, temas e situações que apenas tentam aumentar a dramatização, o que conseguem realmente deve ser enervar o público.

Daniela Thomas dirige O Banquete, faz referência ao recém-falecido editor-chefe da Folha, num momento dramático de sua vida, quando escreveu um editorial provocando o presidente. É um filme que tenta ser político, por mais que passe boa parte sob o medo de uma possível prisão, mas o efeito é bem diferente da proposta.

Na mesa de jantar alguns amigos comemorando o aniversário de casamento de amigos. Além da comida e dessa tensão latente, são servidos grandes doses de cinismo, hipocrisia e desprezo. Tudo exageradamente temperado com atuações over e situações aborrecidas, além dessa obsessão por sexo, aqui sempre no viés burguês. As convenções sociais elevadas à enésima potência, num claro exercício de não perceber que hora parar com tudo aquilo. Destaque para Caco Ciocler que começa como um advogado bêbado e vai se tornando uma figura tão indecifrável que talvez termine como um ser acelular.

de-menorDe Menor (2013) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Bem interessante a estreia na direção de Caru Alves de Souza. A jovem diretora se divide entre o pedagógico e o minimalismo, aproveitando-se do poético para preencher o tempo necessário para o fita se tornar um longa. Até porque, de trama há pouco ali. A questão carcerária dos menores no Brasil, trazendo para o público algo além da marginização. A partir do momento em que passamos a sofrer os dramas da jovem advogada (Rita Batata), Caru coloca a questão do ponto de vista das famílias dos menores infratores.

Trata-se de um ponto de vista interessante, sem pudores, sem paternalismo, o filme trata seus dramas de forma límpida, por mais que deixe sabiamente nebulosas as relações (com pitadas afetuosas dúbias que apenas embaralham, antes das verdades). Enquanto planos fechados, nos pés ou nas mãos, trazem certo ar de desilusão, ou servem para esconder algumas atuações pouco inspiradas, o estilo da diretora, e sua forma de abordagem, tornam De Menor um promissor início de carreira.

quasedoisirmaosQuase Dois Irmãos (2005) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Acusar o filme de preconceituoso, não é uma afirmação descabida. A exposição do negro como marginal, enquanto o branco no papel de almofadinha intelectual, salta aos olhos de maneira veemente. Mas vamos resgatar a história, primeiramente. Dois amigos de infância se reencontram num presídio na Ilha Grande, o Brasil vive a ditadura militar. Miguel (Caco Ciocler) é preso político, enquanto Jorginho (Flávio Bauraqui) cumpre pena por assalto a banco. A narrativa divide-se entre cruzar esse momento, a um segundo, em que os dois amigos reencontram-se novamente. Dessa vez, Miguel (Werner Shünemann) é deputado, visitando o líder do tráfico de uma favela, Jorginho (Antônio Pompeo).

Cada qual a seu caminho, ambos estão muito bem financeiramente. Miguel foi visitar Jorginho em sua cela, com mordomias e telefone celular, para lhe propor apoio em um projeto social, que o deputado planeja instaurar na favela, exatamente onde o amigo exerce influência. Mais adiante teremos dados mais explícitos sobre as reais intenções de Miguel, talvez esse ponto passe despercebido como mais um momento realista e corriqueiro da história. Pode até ser, mas pode levantar outras interpretações, essa escolha parece chave para desmistificar segregacionismos. Um filme sobre escolhas? De maneira superficial, num pensamento pequeno-burguês, até que essa pergunta mereceria um sim como resposta. Afinal, os dois tiveram chances parecidas, e tomaram caminhos opostos em razão de suas escolhas. Essas chances parecidas talvez sejam a incógnita que altera toda a equação resultante da vida de cada um desses quase dois irmãos.

Lúcia Murat foi buscar a formação histórica das duas vertentes que comandam o país atualmente. De um lado os presos políticos, que há alguns anos despontam governando o país, e ocupando seus principais cargos (não importa a esfera). De outro, os chefes do tráfico que comandam os morros e fazem suas próprias leis. Vivem quase imunes a lei. A tênue linha que separou Miguel e Jorginho no presídio é a linha da escolha pessoal, o momento em que cada um optou por seu futuro. Mas qual razão levou cada um a fazer sua escolha, ou mais precisamente a escolha de Jorginho pelo crime organizado? A capacidade de liderança seria o segredo, naturalmente cada um optou pelo grupo onde poder se destacar, ter maior visibilidade. Onde suas habilidades poderiam resultar em liderança. No fundo, não passamos de animais querendo comandar o bando, perdemos os escrúpulos.

Quase Dois Irmãos trata de uma visão mais ampla do que a simples formação do Comando Vermelho, a qual faz referência. O final é claustrofóbico, Murat chega a nos meter medo de andar pelas ruas de uma metrópole. Ao som do samba que carrega o ritmo do filme a violência é exposta em pelo. Não posso terminar antes de elogiar Flávio Bauraqui e Antônio Pompeo, cada um em seu momento interpreta Jorginho, dois gigantes em sincronia.

bichodesetecabecasBicho de 7 Cabeças (2000) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Dois pontos não podem fugir de qualquer discussão, ou reflexão, por serem as reais proposições levantadas pelo filme: a desinformação que gera situações irremediáveis e a lastimável situação de funcionamento dos manicômios públicos. A primeira é a espinha dorsal da história, e dela chegamos à denúncia da conjuntura dos institutos públicos de saúde.

A história, inspirada no autobiográfico livro Contos Malditos, de Austregésilo Carrano Bueno, tem como protagonista Neto (Rodrigo Santoro), um jovem típico, gosta de curtir com os amigos, descobrir as coisas da vida, viver aventuras. Um pré-delinqüente que picha muros e fuma maconha, eventualmente. A rebeldia atrapalha o diálogo em casa, principalmente com o conservador e intransigente pai (Othon Bastos). A situação chega ao insustentável quando o pai encontra nas coisas de Neto um cigarrinho de maconha, despreparado para lidar com a situação, e mal assessorado, o pai trata o garoto como um viciado, interna-o prontamente em um manicômio para desintoxicação.

A diretora Laís Bodanzky foca sua câmera na deplorável figura dos internos do lugar, as paredes mal cuidadas, os uniformes sem cor, a gente sem esperança deixando no rosto as marcas do sofrimento, o cinza carregado (intensificado pela fotografia capitaneada por Hugo Kovensky). Tratados como presidiários, num sistema tão falido quanto, é impossível crer que dali alguém possa recuperar-se são. Um ambiente contaminado pela desesperança.

Como os loucos do lugar, Neto é tratado a base de calmantes e outras drogas, a revolta gerada pela situação é propulsora de violência e combatida com sessões de choques elétricos. Nessa fase que a figura de Rodrigo Santoro ganha ares de grande ator, até então seu personagem não passava de um jovem rebelde. O andar mole, o jeito de olhar, meio sem rumo, o desespero oriundo da dor, Santoro encarna as agruras de Neto.  A quebra de confiança na relação pai-filho é a chave para dissolução da história, nessa ruptura os personagens aprendem a amadurecer (pelo menos deveriam).

Olga (2004) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

A chegada do diretor global Jayme Monjardim nos cinema vem com grandiosidade de blockbuster hollywoodiano, daqueles exemplares gigantescos e evasivos, com apuro técnico invejável (a ponto de imitar, com locações, alguns cenários alemães e soviéticos) e os toques pesados de dramalhão da novela das oito (principalmente nas leituras das cartas e repetidas despedidas) para essa adaptação do livro de Fernando Morais.

A opção pelo melodramático tira espaço dos meandros políticos de momentos históricos como a Coluna Prestes, o Tratado de Versailles, a formação do Nazismo e todos os aspectos políticos. Ficamos com a biografia sofrida de Olga Benário (Camila Morgado, engajada), mulher focada em suas convicções e uma intensa vontade de mudar o mundo. O amor dessa alemã pelo opositor do governo de Getulio Vargas (Osmar Prado), Luis Carlos Prestes (Caco Ciocler) nasce no mundo comunista, ela acaba deportada aos campos de concentração alemães (algum interesse essa ótica feminina do trabalho escravo, castigos e câmara de gás).

É a perninha brasileira nesse gênero de filme do Nazismo, cinema tão combalido pelo excesso de histórias com teor repetido (não que não sejam grandes histórias, mas se equivalem excessivamente). Por isso, uma abordagem mais pesada no aspecto políticos brasileiro poderia sair do marasmo do tema. Ainda assim, com toda essa pompa de cinema americano, de dramalhão pesado, a figura coadjuvante de Fernanda Montenegro (mãe de Prestes) em seus momentos de luta inglória, na esperança de salvar seu filho e nora, oferecem uma cena tão linda, quando ela descobre que será avó de uma menina. Daquelas alegrias reprimidas pela tristeza, que num silêncio de poucos segundos consegue emocionar, realmente.