Posts com Tag ‘Carlos Reichenbach’

avantipopoloAvanti Popolo (2012) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Após uma separação, o filho (André Gatti) volta a uma vida enfadonha com o pai (Carlos Reichenbach) que pouco se lembra das coisas, que enxerga tudo “cinza” e vive esperando o retorno do filho que a ditadura fez o favor (ironia) de desaparecer. Por meio de imagens em super-8 e da rádio de musicas latina, o diretor uruguaio Michael Wahrmann faz um bonito (e bastante irregular) retorno às origens de uma família dilacerada pela violência política.

A cadela Baleia (referência a Vidas Secas) que teima em sumir do pai, que vive obcecado por ela, talvez como sua única fuga frente à solidão. Os vinis antigos cujo o filho debocha, o taxista (Eduardo Valente) fanático por hinos, e a hilariante cena do homem que conserta projetores e mostra um de seus “filme” que faz parte do Dogma 2002 (movimento cinematográfico que o próprio inventou, e tem entre outras diretrizes o ser proibido filmar). São desses pequenos elementos que Wahrmann resume essa dolorosa história de saudade, tristeza e convicções políticas.

Carlão Reichenbach

Publicado: junho 14, 2012 em Pessoal
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Acabo de receber a triste notícia do falecimento de Carlos Reichenbach, mais que um diretor de cinema, uma grande figura. Das pessoas mais atenciosas, carinhosas, entusiasmadas, dinâmicas e democráticas que pude conhecer. Não vou ficar aqui fazendo uma biografia, nem elogiando seus filmes, sua obra. Carlão era muito mais que isso, ele era acessível e ele amava esse contato com tudo e todos.

Ele gostava de me chamar de Jean-Pierre Leaud da Penha, quando o conheci tinha um cabelo parecido, o corpanzil até hoje se parece com o Antoine Doinel. Nos conhecíamos, nos encontramos muitas vezes nos cinemas por aí. Não posso chamar de amizade, tinhamos amigos em comum e por esses amigos cheguei a visitar sua casa, sair para comer uma pizza ou conversar na porta do Cinesesc.

Sempre falando de cinema loucamente, uma metralhadora de histórias e opiniões, é dificil falar dele sem se emocionar. Um dos maiores cinéfilos deste país, ele não só nos influenciava, ele tinha o dom de transformar sua percepção só pela forma entusiasmada que falava de uma cena. E ouvia a opinião dos outros, seja quem fosse. Anárquico, amava trocar papos, fã de cinema extremo, de cinema de horror, reunia cinéfilos na Sessão do Comodoro, tinha esse dom de unir as pessoas.

Vou sempre lembrar da barba enorme, dos óculos, do cigarro, da voz característica, o olhar atento, e o entusiasmo com que falava de sua paixão. Do quanto me senti uma criança por estar ali, dirigindo carro com um cineasta de mais de 20 filmes e participação em tantos festivais internacionais, ali do meu lado, no banco da frente. Ele talvez tenha sido a primeira pessoa “famosa” com quem conversei de igual para igual, alguém de carne e osso, e que dominava automaticamente qualquer roda de conversa. Carlão sempre foi vida, sempre foi erótico, extravagante, tudo de uma maneira simples que nem sei explicar.

Um dos caras mais sensacionais que conheci na vida! Pense alguém que fará falta.

numa pizzaria em 2006, com meus grandes amigos Renato Doho, Eduardo Aguilar, Ailton Monteiro e Carlão Reichenbach

FilmedemenciaFilme Demência (1985) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

“Anagrama de um filme de cinema”, definição do próprio Carlos Reichenbach para esse filme tão biográfico. O roteiro (dividido com Inácio Araujo) traça um paralelo entre sua vida (pai industrial falido, e as próprias frustrações do cineasta), e o livro Fausto de Johann Wofgang Von Goethe. O “Eu falhei” de Fausto (Ênio Gonçalves), em frente a TV, que já saiu do ar em plena madrugada, é o gancho para entrarmos num mundo de visões e alucinações. Uma noite apoteótica onde o falido empresário da indústria de cigarros, prova a si seus fracassos.

A infidelidade da esposa, o cunhado advogado que o enganou no processo de falência, um amigo “malandrão” que só entra em encrenca, o ex-colega de faculdade, a amante suburbana, um guru visionário e até mesmo Mefisto (Emílio Di Biasi) que lhe aparece sob diversas formas. Uma praia paradisíaca (Mira-celi) e a figura de uma garota. levam Fausto a mergulhar numa viagem sem destino. Na obra de Goethe, Fausto faz um acordo vendendo sua alma após sua morte para obter em vida o que não desfrutou, para deliciar-se com a juventude.

O Fausto do filme chega a conclusão que não tem nem alma a entregar, sente-se um completo fracassado. O filme chega a vacilar em suas próprias alucinações e seu quê surrealista, entre personagens com pouco propósito e discursos pseudo-filosóficos que perdem dinâmica. Planos que se abrem como se a câmera caminhasse para trás, homenagens a cineastas importantes, referências artísticas espalhadas por todos os cantos, o apelo erótico circundando a história, Reichenbach minuciosamente deixa preciosidades em seus filmes. Um cineasta essencialmente urbano, filma São Paulo em seus detalhes, os ônibus azuis da CMTC, a decadência industrial da zona leste.

Anjos do Arrabalde – As Professoras (1986) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Lembro bem da decepção em assistir ao filme, numa sessão da Cinemateca, onde havia, além de mim, apenas mais uma pessoa na plateia. Coisas do interesse pelo cinema nacional. Por outro lado, a força da memória afetiva não está nessa pequena decepção, e sim na mágica maneira com que Carlos Reichenbach pôde me fazer reviver pequenos detalhes da infância. Objetos em cena como aparelhos de TV, as estampas das cortinas, os bichinhos de pelúcia, a bolsa de manicure, um bule, a carteira. Objetos que estiveram tão presentes na minha casa, e resumem a classe média baixa dos anos oitenta, hoje artigos de museu ou de alguma decoração retrô.

O filme se passa num bairro suburbano paulistano, o foco em quatro mulheres, mais precisamente nas angústias da violência urbano-familiar, espécies de “anjos tortos” entre tantas mazelas e maus-tratos. Ele discorre apresentando essas mulheres: da manicure estuprada às três professoras amarguradas pela opressão de maridos, a narrativa retrata basicamente as desilusões amorosas e violência familiar. Não por coincidência, a cada mulher desamparada há um homem cruel, mesquinho, violento. Retrato da sociedade à época, onde a posição feminina passiva era mais flagrante que nos dias atuais.

Fácil notar o exercício de estilo de um cineasta, a preocupação de fugir a uma narrativa tradicional, o cuidado em retratar cidadãos comuns (como comuns), os traços enraizados do cinema marginal. Reichenbach flerta com a violência, coloca em cena características marcantes de seu cinema, posiciona seu público dentro do subúrbio que retrata com deliciosos movimentos de câmera. Sempre gentil e justo, Reichenbach homenageia os amigos cineastas como Luiz Sérgio Person e José Carlos Burle, que se tornam nome de escola, de hospital, manchetes de jornal e refletem parte importante da história.

O que é positivo acaba causando efeitos colaterais. A presença de Carlão, às vezes, parece maior que o próprio filme, o poder da imagem em detrimento das atuações. A câmera extenua cada imagem, o corte brusco não permite aos atores destilar mais profundamente suas emoções. Entre os eles, Clarisse Abujamra, Vanessa Alves e Ricardo Blat conseguem exprimir melhor seus sentimentos, com personagens contraditórios e cernes, que vivem cercados pela violência, marginalizados por seus entes ou por sua própria situação.