Posts com Tag ‘Carlos Reygadas’

posttenebrasluxPost Tenebras Lux (2012 – MEX) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Carlos Reygadas está sempre se equilibrando numa linha tênue entre um grande filme e aquele que causa desgosto. Semi-autobiográfico, o diretor espanhol aborda uma região rural mexicana, uma familia se move para lá (talvez devido a alguma crise financeira?). A maneira como cada um dos moradores daquela casa se relaciona com o novo meio parece ser o único (a meu ver explicável) fio condutor dessa trama.

A criança pequena com a natureza e os animais, as brigas do casal, o marido com os moradores da região, garotos numa partida de rugby, até mesmo as experiências num casarão de swing. O diabo que aparece num estilo gráfico completamente diferente daquele universo rural, carregando uma maleta. Reygadas, como sempre, foge da narrativa clara e retilínea, muito mais absorvida do que entendida. Há a tragédia, a violência, mas tratar essas sugestões como temas é diminuir ou simplificar demais.

Por outro lado, o risco dessa falta de clareza e absorção mínima de tudo que se passa ali, gera desconfiança, desconforto, quase nenhum entendimento. E ficar apenas com belos planos e essa sensação de cubismo no cinema, de partes que não forma um todo.

Japón

Publicado: janeiro 22, 2013 em Cinema
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japonJapón (2002 – MEX/ESP) 

Num povoado árido, inóspito, de vida melancólica, surge um forasteiro. O questionamento é sintomático, o que teria vindo fazer aqui? Não tem ligações com o local, não há nada turístico naquele mundo de pobreza, vida cercada de animais caseiros e uma geografia que não é rica além de algum verde, poucas árvores e pedras.

Não espere de Carlos Reygadas um thriller sobre as razões do estranho, seu cinema é outro, o homem está ali como instrumento para que a câmera contemplativa/investigativa de Reygadas possa adentrar no ritmo daquelas pessoas, no âmago do povoado.

O homem veio para se matar, os motivos depressivos pouco importam. Aluga um quarto na casa de uma senhora idosa, que teima em lhe preparar algo para jantar. Reygadas e seu diretor de fotografia (Diego Martínez Vignatti) desbravam a região com curiosidade, são planos lindos de natureza morta, de céu e árvore que se misturam, mas também de acompanhar o que há além, atrás daquela parede, ou mais profundos como a cena lírica do homem deitado ao lado do cavalo morto.

É nítida a relação entre ficção e documentário, a utilização de não-atores permite esse naturalismo misturado com esse formalismo estético poderoso. Reygadas vai atrás da morte, mas está falando da vida, uma vida sofrida, uma vida que parece vegetativa, mas ainda assim vida.

Mas sua obstinação pela morte não termina em vão, as injustiças provocam o tal homem que na simplicidade da senhora encontra um recarregar de baterias, isso até o majestoso plano final. Um longo plano-sequencia em 360, cenas de uma tragédia, que dialoga simplesmente com o filme todo, com tudo que Reygadas vinha abordando, a vida, a morte, a vida da velha, e todos do povoado em si.

Año Bisiesto (2010 – MEX)

Michael Rowe trata de solidão e fuga, a jovem jornalista que deixou sua cidade natal para tentar a vida na Cidade do México vive marcada pela ausência (familiar, de amigos, de um amor). Passa horas, quem sabe dias, trancada em seu apartamento, trabalhando, comendo, vendo a vida passar (até bisbilhotando a vizinha). As vezes se arruma e na noite arruma alguém para transar. Depois de exposta a solidão, das mentiras contadas à mãe sobre sua incrível vida agitada na metrópole e suas dificuldades profissionais, partimos para a fase de fuga quando ela se entrega a um homem com tendências violentas durante o coito, com prazeres sadomasoquistas. E por mais estranhamento que cause num primeiro momento a ela, se entrega numa fuga de uma realidade que o calendário teima em lembrar, chegando a um desfecho piegas, e ainda assim crível. A maneira como Rowe filma lembra Reygadas, apenas no trato da imagem, sua preocupação estética é muito maior do que significados que a imagem possa oferecer além do objeto filmado.