Posts com Tag ‘Carmen Maura’

la-vaniteLa Vanité (2015 – SUI) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O cinema volta a discutir a eutanásia no filme do diretor suíço Lionel Baier, que esteve presente em Cannes 2015. Longe do sentimentalismo barato, Baier prefere leves toques de humor enquanto permite a seu protagonista (Patrick Lapp) oxigenizar sua decisão enquanto se relaciona com o prostituto (Ivan Georgiev) que trabalha no quarto ao lado do hotel, e de Carmen Maura, como a pessoa que vem assistir à decisão. O filme segue mais interessante dentro do quarto de hotel, mais adiante abre a historia para pequenos flashbacks, e as premeditações de seus personagens diluem parte da proposta. No final, uma ode à vida e aos valores emocionais de um cinema motivacional.

Anúncios

Valentin (2006 – ARG)

Filmes narrados pela ótica de crianças sempre trazem a fórmula que adiciona fofura e incompreensão engraçadinha. É dessa maneira que os adultos enxergam a visão infantil para o mundo, resta apenas acertar mais ou menos no tom de sua narrativa para marcar o grau de sucesso alcançado nos cinemas. Alejandro Agresti traz o pequeno Valentin (Rodrigo Noya), criado pela avó (Carmen Maura) depois que a mãe abandonou a familia e o pai (o próprio diretor) não é tão preocupado assim com o garoto.

Valentin encanta a todos à sua volta com seus óculos e o sonho de ser astronauta. Garoto de percepções aguçadas, de visão peculiar do universo adulto, enquanto o garoto destila toda sua capacidade de cativar a plateia é no desenrolar dos “coadjuvantes” que orbitam à sua volta que Agresti apontam suas fichas para resgatar um cinema sedutor, resgatando o universo cotidiano dos anos 60 argentinos.

Volver

Publicado: novembro 13, 2006 em Cinema
Tags:, , ,
volverVolver (2006 – ESP) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Este filme marca muitos retornos que remetem ao título: desde o próprio retorno que o filme trata, há ainda a volta de Pedro Almodóvar filmar na região por onde começou sua vida artística, além do resgate da parceria com algumas de suas atrizes). O mais indireto, porém mais significativo, talvez seja, a volta de Pedro Almodóvar a algumas características contidas em obras mais próximas do seu início. Volver transita com o melhor diálogo entre o início e a fase atual de sua carreira, provando que Almodóvar é o mesmo sujeito, apenas um humano e cineasta mais maduro. Um sublime observador da alma feminina, e a expressa com delicadeza, e humor, capazes de nos hipnotizar, a cada nova cor berrante em cena, a cada nova pequena reviravolta na trama, a cada doçura num olhar.

Estou aqui embasbacando por Penélope Cruz, não por sua beleza escultural e indiscutível, mas também pela naturalidade de sua atuação. É meio complicado de explicar, mas ela pareceu estar um degrau acima da beleza, como se estivesse tão a vontade, mas tão a vontade, que ser linda tornou-se um mero detalhe. Uma heroína e sua antítese, uma mulher comum com todas suas aflições,  dificuldades, medos, e ao mesmo tempo, praticidade, fibra, charme. Poderia gastar dezenas de adjetivos, ainda assim não seria possível expressar, porque Penélope Cruz está linda, linda demais para palavras.

Aí surge Carmem Maura, nesse momento você se esquece que está dentro de um cinema, porque a somatória dessas duas peso-pesados do cinema, nos remete a algo distante daquele espaço físico. Almodóvar praticamente encosta sua câmera nas atrizes, aquele mar de emoções fica enorme aos nossos olhos. Quantas vezes mãe e filha não têm inúmeras contas a acertar? Carmem Maura é quase uma entidade dentro do filme. Que dupla, que espetáculo!

Retornar é sempre complicado, porque o tempo abafa o passado de sentimentos e ressentimentos. O retorno os traz a tona, assim como a morte oferece um retorno imediato das lembranças. Em Volver, há o retorno dessa mãe (que morreu), a nova chance para um acerto de contas com resquícios que estavam hibernando. O voltar nos aproxima da verdade, e com ela a paz que faltava. E dentro disso tudo há a análise interior dessa alma feminina, tantas vezes remoída de frustrações e dores que, para os homens seria pesado demais carregar.

Lembre-se que Almodóvar está dialogando com elementos do início de carreira, então há o suspense, há muito humor (aquele marca-registrada). Há também visões berrantes (principalmente relacionadas a cores e roupas). Delicado, de fino trato com as imagens e com os enquadramentos (alguns fantásticos vistos por cima dos personagens). Almodóvar está por todos os cantos, e a trama e suas reviravoltas apenas servem para explodir com a panela-de-pressão de emoções contidas nessas fabulosas mulheres. E Penélope Cruz canta Carlos Gardel, e aquilo tudo me deixa em nocaute.

quefizeuparamerecerisso¿Qué He Hecho Yo para Merecer Esto? (1984 – ESP) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

No início, a faxineira de uma academia transa, com um dos frequentadores, no vestiário. Eis a heroína de Pedro Almodóvar, a mulher centralizadora de todos os problemas, deveria ser a personagem a fazer a pergunta do título. O roteiro expõe a vida dessa mulher a um turbilhão, tão fantástico de situações, que a naturalidade com que se encara tudo isso causa inverosimilhança terrível.  Claro que é uma comédia de absurdos e deve ser encarada como tal, mas tem coisas que não descem goela a baixo. É inaceitável ver uma mãe afirmar, tão naturalmente, para o filho de doze anos (aproximadamente) que ele não estava estudando, mas tendo relações com um homem adulto, depois virar e continuar os afazeres domésticos. É surreal demais, ou eu que sou retrógrado?

A comédia tem uma primeira parte bastante divertida, enquanto Almodóvar distribui o mundo de absurdos que perpetua a vida de Gloria (Carmen Maura). A vizinha prostituta, o marido taxista que imita assinaturas e caligrafias, o filho traficante, o mais jovem já citado, a sogra mesquinha, as dificuldades financeiras, a vizinha com uma filha pequena com poderes mágicos (extremamente fora de propósito). Ainda há a história paralela de um casal de escritores que nada de bom acrescentam. Depois da introdução o roteiro vai se perdendo no seu conjunto de aberrações, até chegar ao momento em que deseja ganhar um lado policial com a morte de um dos personagens. Daí em diante, só me restava fazer a pergunta do título e esperar terminar logo, Almodóvar já estava completamente perdido.

mulheresabeiradeumataquedenervosMujeres al Borde de un Ataque de Nervios (1988 – ESP) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Com um título desses, duas conclusões são certeiras, trata-se de uma amalucada comédia e a culpa dessa histeria feminina deve s referir a algum homem. Bingo, minhas duas impressões estão corretíssimas, Pedro Almodóvar tece um emaranhado tão complexo, e tão cheio de coincidências, que fica difícil tentar separar um personagem de outro. Uma rede dos mais esquisitos tipos, dos mais diferentes desejos, se encontrando num mesmo apartamento. O filme marca o fim da fase de comédias de Almodóvar, a seguir veria sua fase mais prolífica, seus melhores dramas. Curioso como o cineasta espanhol deu essa guinada, em sua carreira, no exato momento que acertou em cheio. Até aquele momento era seu grande filme, sedimentando de vez sua carreira internacional.

Pepa (Carmen Maura) está desesperada para reencontrar seu amante que acaba de deixá-la, passa o dia entre telefonemas e visitas a possíveis paradeiros de Ivan. Sua amiga Candela se envolveu com terroristas xiitas. A ex-esposa de Ivan vive um amor obsessivo, o quer de volta a todo custo. Seu filho procura um apartamento, com sua antipática noiva. Como se pôde perceber, cada uma dessas mulheres vive conflitos amorosos. Desesperadas, perderam a noção da compostura, esqueceram a linha, movidas por seus objetivos.

É um Almodóvar completamente alucinado, reunindo tipos, aprontando mil. Uma mulher tenta pular pela janela, outra coloca fogo na própria cama, e um simples gazpacho torna-se peça chave nessa trama deliciosamente rocambolescas e com leves doses de suspense. Um roteiro genial, e delicioso, onde Almodóvar solta sua imaginação. Quando mulheres estão à beira de um ataque de nervos (Carmen Maura é a mais completa tradução desse momento), e colocam suas garras de mostra, é melhor deixar que elas se entendam.

aleidodesejoLa Ley del Deseo (1986 – ESP) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

A Lei do Desejo é um título mais que pertinente, é como se nessa micro-sociedade, exposta por Pedro Almodóvar, essa fosse a lei principal a reger as pessoas, a reger seus corpos, seu instintos. O amor está sempre envolvido, mas é o desejo a suprema força capaz de envolver esses estranhos personagens. Estranhos porque, como muitos sabem, Almodóvar é obcecado pelo bizarro, pelo esquisito, pelo repulsivo.

Não gosto do filme, mas sei perceber que o desejo está impregnado em cada cena, em cada movimento de câmera, em cada gesto dos atores. Um escritor apaixonado (Eusebio Poncela) vive crise com seu parceiro, que se mudou para uma cidade litorânea, simultaneamente inicia uma relação de puro desejo com um estranho (Antonio Banderas). Por mais claro que escritor tente deixar sobre seus sentimentos, o estranho é possessivo, e o desejo sem limites é a faísca para a fogueira que essa relação vai se tornar.

Almodóvar não tem vergonha em retratar que uma parcela das relações homossexuais preza pela promiscuidade, é como se ele quisesse dizer que essas relações são menos hipócritas já que o desejo é um instinto humano. Os relacionamentos do filme são mais honestos em aceitar e entender o desejo, não o tratando como infidelidade. Uma proposta complexa e delicada, e completamente impossível à sociedade de modo geral. Por outro lado, Almodóvar trabalha camuflando seus personagens com o bizarro e o estranho. O leve tom de suspense, o roteiro pobre que não foge do trivial, tudo está camuflado pelo homossexualismo e pela intensidade de desejo.

Mas nem tudo está perdido, num travelling, já no final do filme, Almodóvar mostra sua marca. Todos esperam o desenrolar dentro do apartamento, tensão. A câmera focaliza os carros de polícia, os policiais e outros pedestres que olham para as janelas do apartamento, uns fumam, outros apenas olham. Uma cena linda, a sirene dos carros de polícia, uma parada estratégica que mais intensifica do que alivia as tensões.