Posts com Tag ‘Cassia Kiss’

redemoinhoRedemoinho (2016) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Parte do reencontro inesperado de dois amigos de infância, Luzimar (Irandhir Santos) e Gildo (Júlio Andrade), na véspera de Natal, para se tornar quase uma sessão de terapia entre lembranças, traumas, e o renegado passado voltando à tona. Cataguases, cidade onde o cinema brasileiro cresceu com Humberto Mauro e outros, é o palco para o filme dirigido por José Luiz Villamarim, que aliás surge como grata surpresa, direção sóbria do estreante em cinema, mas já bem experiente diretor de novelas da Globo.

Até por seu currículo televisivo, surpreende como Villamarim sai da narrativa padrão. Explora localidades da cidade ou cômodos das casas, sempre com enquandramentos inusitados, fugindo totalmente dessa linguagem dita como “mais comercial”. Utiliza muito bem sombras, a escuridão, planos mais abertos ou fechados. Mantém as rédeas de um filme pequeno, focado em criar a atmosfera de uma panela de pressão prestes a estourar. Sentimentos e diálogos velados, a amizade de outrora que esbarra no tempo de distância, além, é claro dos fantasmas que após algumas horas e cervejas, vem assombrar a amizade. O final pode não entregar tudo que a expectativa possa ter criado, ainda assim não diminui o trabalho de Villarim, de Walter Carvalho na fotografia, e do ótimo grupo de atores.

 

 

afestadameninamortaA Festa da Menina Morta (2008) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Rapidamente, Matheus Nachtergaele se colocou como um dos ícones, da melhor safra, do cinema nacional mais recente. De filmes populares a outros “mais artísticos”, o ator esteve presente, e com, 2-3 outros atores, se tornou sinonimo de cinema nacional. Sua única experiência na direção, onde até em Cannes foi parar, me parece ter sido o último prego no caixão que as novelas colocaram no caixão da carreira cinematográfica.

Nachtergaele viaja à região amazônica, adaptando alguma crença que por lá encontrou, de um figura carismática (Santinho – Daniel de Oliveira) que teria visões após a morte de sua irmã. O filme irregular desmascara a figura mimada, egoísta e adorado por um povo apto por acreditar em símbolos religiosos. Nachtergaele não escapa da caricatura que o próprio cria a seu personagem principal, entre os trejeitos homossexuais e o destempero das revelações pessoais às vésperas da festa de vinte anos da menina morta.

Bróder (2010)

“Não é Bróder que fala Mano, é Mano”, eis uma das falas de Macu (Caio Blat), o único dos três amigos que ainda mora na favela onde cresceram. Jaiminho (Jonathan Haagensen) é craque da seleção e joga no futebol espanhol, enquanto Pibe (Silvio Guindane) se vira com sua esposa e filho ali na região do Minhocão. Aniversário de Macu, todos reunidos na favela novamente para celebrar, Jeferson De nos insere rapidamente (e habilmente) no cotidiano da família de Macu, na difícil relação com o padrasto, em sua iniciante proximidade com o tráfico, e nos pequenos dramas dos demais membros. O filme é delicioso, os atores estão extraordinários, a vida na favela mostrada sem caricaturas, Jeferson De nos envolve nessa trama, nos leva ao convívio desses três moleques adultos que estão ali dividindo a saudade da infância enquanto encaram frente a frente os dramas da vida adulta, e os perigos que podem estar envolvidos. De final forte, de final justo, amizades, família, na hora H tudo junto separado, e de quebra (mesmo com o foco masculino da história) há uma cena linda entre Cassia Kiss e sua filha, sobre a menina chorona que guarda uma mulher.

bichodesetecabecasBicho de 7 Cabeças (2000) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Dois pontos não podem fugir de qualquer discussão, ou reflexão, por serem as reais proposições levantadas pelo filme: a desinformação que gera situações irremediáveis e a lastimável situação de funcionamento dos manicômios públicos. A primeira é a espinha dorsal da história, e dela chegamos à denúncia da conjuntura dos institutos públicos de saúde.

A história, inspirada no autobiográfico livro Contos Malditos, de Austregésilo Carrano Bueno, tem como protagonista Neto (Rodrigo Santoro), um jovem típico, gosta de curtir com os amigos, descobrir as coisas da vida, viver aventuras. Um pré-delinqüente que picha muros e fuma maconha, eventualmente. A rebeldia atrapalha o diálogo em casa, principalmente com o conservador e intransigente pai (Othon Bastos). A situação chega ao insustentável quando o pai encontra nas coisas de Neto um cigarrinho de maconha, despreparado para lidar com a situação, e mal assessorado, o pai trata o garoto como um viciado, interna-o prontamente em um manicômio para desintoxicação.

A diretora Laís Bodanzky foca sua câmera na deplorável figura dos internos do lugar, as paredes mal cuidadas, os uniformes sem cor, a gente sem esperança deixando no rosto as marcas do sofrimento, o cinza carregado (intensificado pela fotografia capitaneada por Hugo Kovensky). Tratados como presidiários, num sistema tão falido quanto, é impossível crer que dali alguém possa recuperar-se são. Um ambiente contaminado pela desesperança.

Como os loucos do lugar, Neto é tratado a base de calmantes e outras drogas, a revolta gerada pela situação é propulsora de violência e combatida com sessões de choques elétricos. Nessa fase que a figura de Rodrigo Santoro ganha ares de grande ator, até então seu personagem não passava de um jovem rebelde. O andar mole, o jeito de olhar, meio sem rumo, o desespero oriundo da dor, Santoro encarna as agruras de Neto.  A quebra de confiança na relação pai-filho é a chave para dissolução da história, nessa ruptura os personagens aprendem a amadurecer (pelo menos deveriam).