De Canção em Canção

Song to Song (2017 – EUA) 

Atualmente, é possível observar que A Árvore da Vida era o prenuncio da nova fase da carreira de Terrence Malick. Fase esta que testa a paciência de seus fãs, e pouco se esforça em angariar novos. Os três filmes a seguir (Amor Pleno, Cavaleiro de Copas e este novo) quase formam uma obra única, fechada nesse cinema sensorial, de narração em off com frases edificantes, enquanto a câmera baila por enquadramentos que buscam a intimidade máxima e elegante de corpos que se encontram ou que refletem o vazio.

Amor Pleno tinha o triângulo amoroso e a dor, já o Cavaleiro de Copas é ainda mais próximo que esse novo filme, ali um escritor (Christian Bale) vivia de festas luxuosas, sexo farto e grandes vazios. Malick mergulha seus personagens em Austin, o berço da cultura indie americana. Todos os personagens ligados a festival de rock, formando dois triângulos amorosos. Mesmo com a tendência de explorar a classe artística, não se nota em Malick a preocupação sua critica sobre o vazio existencial, a vida de luxos e luxúrias. Não, Malick parece mesmo sensibilizado pelo amor, pelas relações pessoais vindas do amor e do sexo. Além da separação, a dor, a reconciliação, o desprezo e a dependência. E seus filmes flutuam, sempre com as narrações em off que traduzem sentimentos, enquanto tentam ensinar (elucidar) ao público. Em todo esse contexto, surgem algumas cenas lindas, mas não deixa de ser um cinema cansado e circular.

Anúncios

Conspiração e Poder

conspiracaoepoderTruth (2015 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Voce deve ter visto alguns filmes de James Vanderbilt como roteirista, desde grandes acertos como o primeiro Homem-Aranha e Zodíaco, a equívocos como O Espetacular Homem-Aranha. Agora, ele se aventura como diretor. Num filme ousado, até certo ponto, e que esteve nas listas de cotados para o último Oscar, até acabar esquecido (até porque guarda semelhanças com Spotlight, e na comparação… Vanderbiltt perde feio). É outro filme sobre o jornalismo americano, dessa vez a história verídica dos bastidores de uma reportagem que fez tremer o consagrado 60 Minutes. A ideia de um furo de reportagem que poderia mudar os rumos de uma eleição presidencial, ao jogo de poder para abafar, negar, e difamar os envolvidos, tal como manda a cartilha da boa política dos poderosos.

Portanto, não faltam elementos intrigantes à história, que conta ainda com elenco de peso (Cate Blanchett e Robert Redford), mas deve mesmo acabar meio esquecido e com público restrito (tal qual sua bilheteria ndos EUA). Vanderbilt cai nas convenções do gênero, de usar trilha sonora, tom dramático, e tomar totalmente partido de sua protagonista. Passa longe do brilhantismo de O Informante, e se alguns diziam que Spotlight tinha cara de telefilme, esse intensifica ainda mais essas características. Como história é intrigante, como cinema é banal, e nesse limbo o filme vai ficando tão esquecido…

Carol

CAROLCarol (2015 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

E Todd Haynes não erra novamente. Um dos grandes, e mais inventivos, cineastas americanos contemporâneos. Dessa vez traz, um romance, ao charme da Nova York dos anos cinquenta. Filme de emoções contidas, porém vividas intensamente nos olhares. De amores reprimidos pelas convenções sociais, e Haynes conduz a narrativa com primor cinematográfico, o todo é de encher os olhos e causar angústia pelos obstáculos impostos.

A atração entre a jovem vendedora Therese (Rooney Mara) e a elegante madame Carol (Cate Blanchett) é imediata, uma conexão inexplicável dentro da loja onde Therese trabalha. Dai em diante, Haynes não desperdiça um fotograma enquanto adapta o romance escrito por Patricia Highsmith. O romance se constitui lentamente, o jogo da conquista ocorre em movimentos tímidos, com naturalidade e preocupação comedidas. O diretor já havia realizado Longe do Paraíso, mas se aquele lembrava os melodramas de Douglas Sirk, seu novo filme é puro requinte e sofisticação. Os diálogos, a atmosfera, a trilha sonora, ou a fotografia, o conjunto gerenciado pelo diretor Todd Haynes resulta num dos mais belos filmes do ano.

O Hobbit – A Batalha dos Cinco Exércitos

ohobbit3The Hobbit: The Battle of the Five Armies (2014 – NZL) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Nítida sensação de cansaço com a Terra Média e seus povos. O último capítulo da saga é de batalhas sem fim, anões, elfos, orcs e etc travam batalhas simultâneas. Outro show de efeitos especiais para Peter Jackson e sua turma, falta dramaturgia, falta aquele cinema que não é feito no computador. Ser o melhor da trilogia não chega a ser mérito, o sucesso não chega aos pés da trilogia Senhor dos Anéis, culpa da repetição, do cansaço do público, afinal, a fórmula apenas se repete. Seis filmes, com mais de 2-3 horas cada, é de uma quantidade de informações repetidas que só poderia provocar desgaste no público. Obviamente que é lucrativo, mas, desde que se transformou nessa monstruosidade de um anova trilogia, que ficou nítido a necessidade de caça-níquel, mesmo que não houvesse material bastante a ser trabalhado.

Oscar 2014

oscar_2014_2Há quem tenha saído bronquedo da entrega dos Oscars ontem, questionando que sentido há num filme ganhar 7 prêmios enquanto outro apenas 3 e sair como Melhor Filme. Se pensarmos num universo de milhares de votantes que são alvejados por uma metralhadora de opiniões, outras premiações e campanhas massivas de marketing, não dá para se esperar que o ponto alto seja a coerência. A verdade é que o Oscar se torna cada vez mais uma premiação óbvia e antecipada. O problema deve ser o formato da corrida, afinal, quando chega a reta final com os prêmios dos sindicatos (onde os votantes são os mesmos), fica bem fácil diagnosticar quem serão os vencedores da AMPAS.

Por isso, quando Jared Leto recebeu o primeiro prêmio da noite (ator coadjuvante) já se sabia o script das premiações. Havia uma leve dúvida entre Lupita e Jennifer Lawrence, uma possibilidade de Capitão Phillips ganhar Montagem de Gravidade, e Trapaça vencer figurino de O Grande Gatsby. Fora isso, eram certezas atrás de certezas (até documentário já se esperava a derrota de Ato de Matar para A Um Passo do Estrelato). O Oscar não premia o melhor, e sim o que conseguiu a campanha de marketing mais eficiente. O The Hollywood Reporter publicou uma série de entrevistas com membros da academia (mantido o anonimato) que prova como, em muitos casos, as pessoas não viram os filmes e votam de acordo com o hype (link para Brutally Honest Oscar Race)

oscar_2014_1Voltando ao script, enquanto as surpresas não aconteciam e ganhavam Alfonso Cuarón (direção), Matthew McConaughey (ator), Cate Blanchett (atriz), A Grande Beleza (filme estrangeiro) e os prêmios técnicos (som, fotografia, efeitos especiais e etc) para Gravidade. A comediante Ellen De Generes se esforçava em fazer piadas, de pizza a selfie). A festa é longa, ainda não se deram conta de que as apresentações musicais deveriam ser completamente banidas, e os clipes de homenagem devia ser lançados no Youtube apenas para promover o show. Como não fazem nada disso, lá se vão 4 horas de prêmios cantados há semanas.86th Annual Academy Awards - Show

Respondendo ao questionamento que abriu esse post. Gravidade se preocupa muito com a parte técnica, é realmente impecável, mas sua história e personagens são tão capengas que o resultado final não é um grande filme. Já 12 Anos de Escravidão é um duro, competente (sem falar na ladainha da grande história que precisa ser contada). O filme vai ser passado, obrigatoriamente, nas escolas dos EUA. Realmente havia alguma chance de não ser escolhido como Melhor Filme? Eu ainda acho que era o melhor mesmo.

oscar_2014_3Entre os discursos, Lupita foi o único verdadeiramente emocionante, sua alegria contagiante e simples foram o toque de inesperado em toda a festa. Cate Blanchett também agradou com seu estilo sofisticado, porém emocionado. Os demais foram protocolares, até coisas como Ucrânia e Venezuela estamos com você. Hello?

oscar_2014_5No fim, sem surpresas, até que ganhou o melhor, e nas demais categorias os prêmios não ficaram feios. Perder chances de premiar Ato de Matar e A Imagem que Falta são tristes, assim como escolher Frozen quando havia Vidas ao Vento ou Ernest e Celestine entre opções. Mas é Oscar, é lobby, o que mais será falado em alguns anos é o selfie da Ellen que se tornou a foto com mais RT da história da internet.

oscar_2014_6E para nós, brasileiros, por mais que digam que o mais próximo que se chegou de um Oscar foi a brasileria esposa do Matthew McConaughey, o ápice foi a mais que justa lembrança de Eduardo Coutinho no In Memoriam, junto de outros grandes nomes como Philip Seymour Hoffman, James Gandolfini, apesar da lentidão da Academia ao não acrescentar o mais importante de todos, Alain Resnais.

Caçadores de Obras-Primas

cacadoresdeobrasprimasThe Monuments Men (2014 – EUA) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Quando nos damos conta de mais um filme com George Clooney e sua trupe tem-se a impressão de algo estilo Onze Homens e Um Segredo ou Bastardos Inglórios. Aquela sensação de que os atores estão se divertindo mais ao gravar do que o público em assistir (não que o público não se divirta). Mas não é bem assim nessa nova incursão de Clooney pela direção. Sua motivação aqui são grandes temas, um resgate do cinema dos anos 40, aquele que tem o herói John Wayne e uma trilha sonora animada que beira o patriótico.

Plena Segunda Guera Mundial, os aliados encurralando Hitler, eis que surge uma equipe de oito bravos homens dispostos a dar a vida em prol de resgatar e proteger as obras de arte de Michelangelo, Picasso e etc, que foram roubadas pelos Nazistas. Vamos salvar a arte, e isso é assunto sério, então Clooney não pode ficar com piadinhas. O pouco do alívio cômico ou está entregue no trailer (Matt Damon pisando na mina) ou fica a cargo de Bill Murray. Mas é pouco, quase nada, Clooney queria mesmo resgatar a áurea de bravos soldados numa causa nobre, e meteu os pés pelas mãos.

Blue Jasmine

bluejasmineBlue Jasmine (2013 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Woody Allen faz San Fracisco parecer Nova York, se bem que sua cidade predileta é foco de boa parte da trama. A vida de Jasmine (Cate Blanchett) vem narrada em dois tempos, um deles, num passado recente, na sofisticada Manhattan. Enquanto, no tempo presente, ela busca refazer sua vida, na casa de sua irmã, na California. Blanchett impressiona na construção da personagem, do luxo e a sofisticação, aliados à futilidade, ao desprezo nas comparações com a vida suburbana real, uma adaptação inconcebível.

É um novo conto moral de Allen, no ritmo de sempre, aquela coisa de comédia dramática (dessa vez, menos preocupado em “vender” a cidade). O jazz que acompanha as confusões entre personagens, oferecendo aquela suavidade de uma proposta leve, porém ambiciosa. Alec Baldwin (novamente como um endinheirado mulherengo, repetindo suas atuações de 30 Rock) é o ex-marido, Sally Hawkins a irmã que a acolhe e acaba influenciada diretamente pela presença temporária de Jasmine.

Jasmine vive na gangorra entre o fundo do poço e o luxo, e esse vai-e-vém acontece em velocidade impressionante, típica de quem já esteve lá e sabe os caminhos. Aulas de informática e sonhos de faculdade para quem já viveu os luxos de Manhattan? Allen se tornou o cara dos bons roteiros, a crítica ama, mas não dá tanto valor ao resultado como um todo. E esse é outro desses filmes para assistir, depois ir jantar, e trocar meia duzia de palavras sobre o filme. O que vai ficar mesmo é a força da atuação de Cate Blanchett, o verdadeiro presente que Allen nos deixou.