Posts com Tag ‘Catherine Deneuve’

oignoranteLe Cancre (2016 – FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Talvez haja muito do próprio Paul Vecchiali no personagem do ancião Rodolphe (que o próprio diretor interpreta), nesse filme que resgata nove anos de convivência, na mesma casa, entre pai e filho (Pascal Cervo). Rodolphe é rabugento e um longo histórico de mulheres que passaram por sua vida. Ele vive um momento de memórias, algumas dessas mulheres de alguma forma retornam, neste momento, em encontros infortúnios. Mas ele quer mesmo é reencontrar a que foi seu verdadeiro amor (Catherine Deneuve).

Para contar essa história de resgate, de amor e desejo, Vecchiali usa situações nada típicas, que fogem completamente do irracional. A direção de atores é solta, entre o naturalista e o qualquer jeito, tais elementos dificultam o diálogo com parte do público. O resultado assim é irregular. Entre erros e e acertos, Vecchiali oferece momentos bonitos e questionadores, seja na complicada relação pai e filho (sexualidade, desapego da vocação paternalista), seja na relação sensível e indiferente que teve com cada uma das mulheres de sua vida.

La Tête Haute / Standiang Tall (2015 – FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Recentemente os Irmãos Dardenne trouxeram ao cinema O Garoto de Bicicleta, que trazia proposta parecida, ao retratar a violência explosiva de um garoto sem controle. O último filme de Emmanuelle Bercot, que abriu o último Festival de Cannes, repete a ideia. Desde o plano inicial temos o pequeno Malony (Rod Paradot) de frente a juíza (Catherine Deneuve), naquele momento por conta da incapacidade de sua desequilibrada mãe em ser responsável, mais tarde pelos próprios atos do jovem explosivo, delinquente por impulso.

Seguindo a capacidade do estreante ator, Bercot se equilibra em altos e baixos a fim de exprimir o comportamento indomável. São nos acessos de fúria que o filme se equilibra melhor, e nos dramáticos que peca pela obviedade. Questionamento interessante que fica é sob a maioridade penal e o poder do Estado em recuperar pessoas via Judiciário, a estrutura de reformatórios, prisões e os meandros das leis para menores de idade, entre punir e buscar a forma de canalizar comportamentos ao que chamamos de convívio social. No fundo tudo tenta ser justificado pela imaturidade, e essa responsabilidade talvez tivesse que ser dividida com outros padrões comportamentais.

ohomemqueelasamavamdemaisL’Homme que’on Aimait Trop (2014 – FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O novo elegante drama de André Téchiné é baseado numa polêmica que balançoou a França há poucos anos. Revive uma história ocorrida há 30 anos, envolvendo uma dona de cassino na Riviera Francesa, sua filha e um advogado conselheiro da família. Téchiné realiza uma adaptação livre de Une Feem Face à la Mafia, escrito por Jean-Charles e Renée Le Roux. Estranhamente o cineasta tenta esconder a fase atual da história, focando quase toda a duração de seu filme em possíveis fatos que formaram a relação entre as mulheres da família Le Roux e o advogado.

Os personagens são criados de forma rica, a matriarca poderosa e astuta para os negócios. O advogado manipulador, conquistador e interesseiro. A jovem, reçem-divorciada, romântica e carente, que pouco interesse tem com os assuntos financeiros da família. Téchiné e seu costumeiro requinte, repetindo o piloto automático de seus trabalhos anteriores, confirma (o que nem necessário era) sua capacidade de exímio narrador, mas ainda tento entender porque um filme tão francês guarda segredo do paradeiro de seus personagens, para ser encerrado de forma tão acelerada e abrupta, como um filme de tribunal. Os créditos finais revelando os últimos fatos, tudo tão corrido, apressado, enquanto Téchiné calmamente desenhava as relações políticas entre cassinos e máfia, ou a doçura da paixão que a frágil mulher deixara se entregar por completo.

repulsaaosexoRepulsion (1965 – ING) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Não é, mas bem que poderia ser um estudo sobre esquizofrênia homicida (aparentemente o roteiro foi baseado na história de uma conhecida). Num dos grandes filmes do diretor Roman Polanski, Catherine Deveuve (tão jovem) sofre de uma terrível repulsa ao masculino. A garota tímida e reprimida apresenta sinais esquizofrênicos de aversão à presença masculina. O namorado da irmã que coloca a escova de dentes perto da sua, o garoto que flerta com ela e tenta arrancar-lhe um beijo, pequenos fatos cotiadianos capazes de criar um grau de perturbação letárgico.

Quanto mais reprimida, mais rebelde. Deneuve explode, Polanski filma essa sensação explosiva de forma crua e aterrorizante. Os pesadelos, o apartamento na penumbra, o desejo que ela desperta nos homens, elementos que unidos provocam o terror psicológico de forma primitiva e agonizante. Repulsa ao Sexo é sobre o terror que vem de dentro de nós mesmos, de uma força inexplicável e incalculável.

Le Fille du RER (2009 – FRA)

A história é fictícia, adaptação de um livro de Jean-Marie Besset, porém houve um caso real durante o governo de Jacques Chirac. O cineasta André Téchiné traça duas linhas de tramas que seguem paralelamente durante a primeira metade até confluírem. Por um lado, mãe (Catherine Deneuve) e filha (Émile Dequenne), a garota procura emprego, se apaixona por um lutador de luta greco-romana. De outro lado um advogado judeu (Michel Blanc) e a rotina de sua família. Entre os noticiários as agressões antissemitas que deixam perplexos os franceses.

A discussão está no alarde da mídia, na visão “cega” das autoridades, alguém inventa uma agressão por um grupo de antissemitas, as duas tramas finalmente se encontram. Parte-se da verdade máxima, sem que haja qualquer prova além de um depoimento, é o peso da culpa sobre a própria sociedade que simplesmente aceita passiva a mais um caso de preconceito. A farsa se torna verdade, Téchiné não se resolve bem entre os cotidianos familiares e o “grande tema”, dessa forma temos um filme frio, calculista, e moderadamente interessante.

Les Bien-Amiés (2011 – FRA)

Num primeiro momento pode parecer que Christophe Honoré foi buscar em seu musical anterior uma forma de apagar o fracasso de seu último filme, afinal a parceria com Alex Beaupain se repete, assim como alguns dos atores que também estiveram em Canções de Amor, além dessa mistura de relações amorosas entre heteros e homossexuais. Os planos de Honoré eram mais audaciosos, narrar a vida de mãe e filha por mais de cinquenta anos de história, entre França, Tchecoslováquia, Londres e Montreal. A mudança mais drástica é no tom, se Canções abusava (inteligentemente) da leveza, com um toque de pluma nos tabus, esse drama-musicado vem com o peso. Peso da Segunda Guerra, o peso de mulheres marcadas pelo sofrimento, e o peso de um roteiro que almeja caminhos diferentes dos usuais a seus personagens.

Se largamos mão nesse placebo que o filme se apresenta, temos apenas dois triângulos amorosos, é a vida da mãe refletindo na da filha. Se a mãe era uma puta que viveu entre o médico tcheco e o guarda frances, a filha se divide entre o professor (colega de trabalho) e o músico americano. Honoré busca, de todas as formas, complicar essa simples equação, porém seus personagens são tão egocêntricos, que o filme se cansa da luta ingrata de deixar de orbitram a volta deles, e se entrega a seus personagens de forma quase desinteressante. Onde está a leveza, Honoré? Ela era seu trunfo, deixe de fugir de uma de suas marcas pessoais.

Belle de Jour (1967 – FRA) 

Existe mulher no mundo capaz de identificar melhor a burguesia do que Catherine Deneuve? Falo isso no que se refere à elegância, postura, sutileza de movimentos e tom de voz. Ela é a própria personificação da aristocracia, do lado bom da aristocracia. Um simples desabotoar, um mero toque na campainha, a classe está nos pequenos gestos. Ver Deneuve em trajes de um jogo de tênis é uma visão indescritível, é a naturalidade da situação o ponto de maior exacerbação, tem gente que nasceu para aristocracia (outro exemplo é Charlotte Rampling, porém sem a beleza hipnotizante de Deneuve).

Recém-casada, bem de vida, um marido amoroso, Sèverine não deveria ter nada a se queixar. Frígida, ama o marido, mas não encontra prazer nele. Desesperada (sem perder a pose) decide testar-se na casa de Madame Anais, entregar-se a qualquer um. Sèverine encontra o que faltava em sua vida, ama cada dia mais seu marido, contudo seu prazer sexual vem das suas tardes secretas.

Luis Buñuel oferece a cada imagem à elegância e classe que sua personagem exala, cada cena é serena, delicada, nenhuma quer ser mais importante que outra. O filme começa com um delicioso passeio de carruagem que depois demonstra ser uma vingança, o marido descobriu suas atividades secretas, mais tarde saberemos porquê Pierre decidiu armar sua vingança daquela forma. Os personagens de Buñuel são isentos de cinismo, de uma transparência virtuosa, são o que são e ponto final.

A Bela da Tarde oferece esse estudo da libertação feminina, numa época em que não havia espaço para tais liberdades. Não estamos só fascinados pelas costas nuas de Deneuve, por sua presença marcante em cena, mas também pelos movimentos que fazem uma mulher entediada, com tudo, buscar prazer na mais antiga das profissões.

 Roit et Reine (2004 – FRA) 
Primeiro ponto que chama atenção é o roteiro que parece, cada vez mais, se desconstruir, com o passar do tempo. Uma teia de flashbacks e alternância entre os dois personagens principais que quase fazem com que esqueçamos do outro, um estilo narrativo diferente, aliado a uma fotografia cheia de vida, amplamente iluminada. Duas histórias que se entrelaçam, uma bem carregada de humor e outra mais puxada para o drama. A trama armada por Arnaud Desplechin corre difusa, mas nunca confusa, causando estranhamento saboroso através des figuras bíblicas ou místicas que permeiam toda a história seja nos nomes dos personagens, ou no presente que Nora (Emmanuelle Devos) escolheu para seu pai, até mesmo o título do filme.

. rainha é a citada Nora, os reis são: seu filho, seu pai, e os homens com que ela se relacionou. Pode haver outras correlações entre o título e o filme, mas essa é simples e direta. A outra figura chave é Ismael (Mathieu Amalric), seu ex-marido que não é o pai de seu filho, um violinista sofrendo algumas crises existenciais, a ponto de se preparar para cometer suicídio e acabar internado numa clínica psiquiátrica. A reaproximação entre os dois ocorre nesse momento, principalmente porque Nora está cuidando do pai que sofre com um câncer terminal.

Há reviravoltas, algumas bem interessantes, outras nem tão bem arranjadas (a carta, o encontro com o marido falecido), enquanto Desplechin opta por filmar Devos de uma maneira tão tenra e ainda assim dúvia: ela não fica nem totalmente na maneira fantasiosa com que a câmera teima em filmá-la, nem com a maldade que o roteiro gostaria de pintá-la. Alguém que comete erros e tenta levar sua vida com as ferramentas que a vida lhe disponibiliza. É uma personagem equilibrada, muito ligada a realidade humana, diferente de Ismael que é uma figura raramente possível na realidade, mas com uma atuação tão estupenda como a de Amalric fica difícil não se encantar por ele, suas paranóias e seus desequilíbrios.


Festival: Veneza 2004
Mostra: Competição

Dancer in the Dark (2000 – FRA) 

Câmera na mão, trepidante. Enquadramentos fora do padrão, com planos fechados e rostos cortados, Lars Von Trier está por trás de mais uma direção. O acerto do tom cinemoatográfico é de suprema importância ao resultado final, a escolha da intensidade de carga dramática pode produzir fiascos impensáveis ou sucessos inesperados. Vejo como principal acerto desse filme o tom, a precisão cirúrgica com que Lars Von Trier (que também assina o roteiro) conduziu seu musical. Fugindo das fórmulas do gênero e acrescentado camadas em sua interpretação moral da humanidade.

Claro que vindo desse cineasta ninguém esperaria os tais padrões do gênero, mas o detalhe curioso é que ele utiliza os musicais de Hollywood como arma em sua história. Sua protagonista é uma imigrante do Leste Europeu, morando nos EUA com seu filho. Ela nutre paixão especial por musicais, sonha acordada com situações de seu cotidiano, transformando-se em seqüências cantadas, com sapateado.

Selma (Bjork) está perdendo a visão, sofre de uma doença que a deixará cega em pouco tempo. Seu filho tem o mesmo problema, mas pode ser operado. Para isso, ela trabalha duro numa fábrica de chapas de inox, economiza cada dólar para a operação do filho. O filme reserva personagens de caráter distintos, a luxúria sem limites desperta a reviravolta na história, enquanto alguns demonstram solidariedade infinita.

Esse antagônico comportamento é a maneira como Lars Von Trier vê a sociedade americana, como se o american way of life de décadas passadas pudesse ser alcançado a todo custo. A pureza daquela heroína não é corrompida, seus valores permanecem, mas as aparências são o que de mais credibilidade há naquela sociedade. É um filme delicado, parcial em sua maneira autoral de ser, o tom nada melodramático mascara a poderosa crítica contra o Imperialismo. Ou por que vocês acham que a coitadinha imigrante da Tchecoslováquia, cega, pobre, simples, e íntegra (não ingênua) sofre tanto por culpa da ganância alheia, exatamente no país das oportunidades?

umfilmefaladoUm Filme Falado (2003 – POR) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

A cortês Rosa Maria (Leonor Silveira), professora de português da Universidade de Lisboa, parte num cruzeiro com sua filha Maria Joana (Filipa de Almeida) pelas águas do Mar Mediterrâneo e Vermelho. O destino final é Bombaim, onde se encontrarão com o pai da menina, para partirem em férias. Rosa Maria aproveita a oportunidade para conhecer, de perto, todos os lugares fascinantes que ela ensina a seus alunos, e só os conhecia pelos livros. A viagem também se torna enriquecedora aa o público, que pode ouvir os ensinamentos que Rosa Maria transmite à filha, em tom meigo e pueril.

Propositalmente, os pontos turísticos representam parte da história das civilizações, assim passeamos pelo Vesúvio, pela Esfinge, pela Acrópole, o Canal de Suez e sucessivamente. Em cada parada, um pouco da história desses locais é colocada em perspectiva. Depois entramos na segunda fase do filme, o comandante do navio (americano, John Malkovich) convida para jantar três figuras ilustres que embarcaram durante a viagem, são elas: a mega-executiva Delfina (francesa, Catherine Deneuve), a ex-modelo Francesca (italiana, Stefania Sandrelli) e a cantora e atriz Helena (grega, Irene Papas).

Inicia-se um diálogo, extremamente educado, entre quatro pessoas de nacionalidades distintas, e o tema ronda aspectos das civilizações. Cada um deles fala sua própria língua e estranhamente todos se entendem bem (crítica clara a União Européia). A escolha de cada um das nacionalidades prova ser meticulosamente planejada, cada um dos personagens funciona como espelho de seu país, e juntos representam os principais povos que dominaram as civilizações ao longo da história: a Grécia antiga, o Império Romano, a Revolução Francesa e o atual império dos EUA. Com diálogos afiados e humor leve, ficam nítidas as posições e divergências entre eles. Num segundo jantar, Rosa Maria e sua filha juntam-se a essa mesa, completando esse quadro histórico com a época das Grandes Navegações Portuguesas do século XV.

O diretor Manoel de Oliveira nos reserva, no último ato, sua visão sob a atual situação da civilização, a famigerada globalização, entre outros ponto foca em quando a violência já perdeu o controle, e nem o mais inocente e puro ser está livre de suas garras. O diretor não manda recado, deixa claro sua insatisfação com o mundo, e com seu próprio país (não poderia ser mais atual), afinal por que todos entendem as outras línguas menos o português? Irene Papas se sobressair sob o elenco de peso, além de dar o tom de humor na mesa, com suas reclamações sobre a incapacidade dos gregos de colonizarem outros países, ainda canta divinamente em grego. Poético, delicado, magistral, Manoel de Oliveira realiza uma obra sublime e atemporal, sua genialidade é tão delicada e discreta quanto precisa. E ainda guarda um desfecho tanto questionador, quanto perturbador.