Posts com Tag ‘Catherine Keener’

Get Out (2017 – EUA) 

Filme-sensação do ano, até o momento, é dirigido pelo estreante Jordan Peele (também atua com papel importante na história) e se coloca como novo acerto da produtora Blumhouse, afinal, a relação custo x bilheteria é impressionante. Seu sucesso de critica e público está ligado a uma ideia simples e inteligente, e a pegada pop de sua narrativa que sempre intercala terror e humor.

O ideal é chegar ao filme com a menor quantidade possível de informações, da sinopse basta saber que um rapaz negro viaja com a namorada branca para conhecer a família da moça. Casa afastada da cidade, sinal de celular que não pega bem, empregados misteriosos, hipnose, os clichês se amontoam e Peele sabe se aproveitar deles para oxigenar ideias velhas, e assim oferecer o novo.

Para quem gosta apenas de um bom filme de gênero, já pode contar com isso, mas além do clima de horror (longe de ser o ponto alto do filme, por mais que a expressividade dos olhares assustado de Daniel Kaluuya seja marcante), há a forte bandeira do racismo como, talvez, o grande vilão. E esse viés critico é sagaz e tratado de maneira natural, dentro de uma abordagem bem atual e marcante quando temos o aguardado plot twist da trama.

mesmosenadadercertoBegin Again (2013 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

O diretor John Carney ataca novamente, poderia ter descambado para a comédia romântica, seria mais prático/honesto. Após seu sucesso indie com Apenas uma Vez, ele erra feio ao tentar mesclar o pop, com a cena indie (cinema e música) que tomou conta da internet. Filma com aspecto caseiro, personagens cheios de seus probleminhas pessoais, novamente pessoas ligadas à música. O título brasileiro dialoga com o próprio Carney, porque nada sai certo, mas como tem cenas “fofas”, parte do pública compra, e fica tudo certo.

Começando pela enormidade de canções, nenhuma delas que seja, no mínimo, marcantes. Elas preenchem emoções, causam desavenças, tentam preencher o que o roteiro não consegue desenvolver bem. O produto musical Dan (Mark Ruffalo) e seu caos psicológico esbarram o antagônico entre o doce e o alcoólatra, e esse encontro não funciona. Os demais personagens são clichês, a garota romântica, doce e bonita (Keira Knightely), o namorado calhorda arrependido (Adam Levine, que só consegue mesmo emprestar seu nome), e assim sucessivamente. O tempo todo Carney fica tentando encontrar o tom certo entre o pop e seu espírito indie, essa gangorra pende sempre a falta de necessidade de mais um filme como esse, que serve para ser esquecido no minuto seguinte ao término.

 

 

Capote (2005 – CAN/EUA)

“Algo entre quarenta e cinqüenta dólares”, antes mesmo de ouvir a resposta, à pergunta feita por Truman Capote, já achei aquele questionamento pedante. Ao ouvir a módica resposta citada acima, um inevitável arrepio correu pelo corpo. Por mais obviedade que viesse carregada na pergunta, ela provou que se fazia necessária, nós gostamos de sentir na pele a dor, que diferença faria o valor respondido? Nenhuma, mas ouvi-lo é dolorido.

Chamar de biografia é quase um insulto ao filme, não, honestamente não se trata de uma biografia. É verdade que Capote resgata sua infância, fala dos problemas infantis, da mãe e seu alcoolismo, das tias que o criaram. Porém, isso faz parte, de meu modo de entrevistar, de sua maneira de fazer pesquisa, o filme é sobre a confecção de um livro e sobre o mergulho de corpo e alma de um escritor (com todas suas crenças, seu egocentrismo, seu sofrimento e seu envolvimento).

Uma família é assassinada numa fazenda em Kansas, todos os repórteres queriam uma reportagem, Capote transformou aquilo num livro e revolucionou a literatura de seu país com um novo modo de se fazer literatura de não ficção. Falamos do best-seller À Sangue-Frio. O que mais se encontra de novo é a proposta do roteiro de Dan Futterman em não dar contornos definitivos, sob os temas que o filme aborda, mergulhando nessa maneira pessoal de Capote pesquisar sobre os fatos de seu livro. Muito se especula sobre uma possível paixão desperta pelo homossexual Capote após tantos encontros com um dos condenados (Perry Smith – Clifton Collins Jr), outro tema controverso seria uma luta velada do escritor para mantê-los vivos até que terminasse seu livro e por fim o desejo final de que a sentença fosse logo executada para que ele obtivesse o final de seu livro e se livrasse daquela tortura.

O filme não esconde e não opta por nenhuma dessas verdades, fica tudo exposto ao julgamento de cada um. O que o cineasta Bennett Miller não esconde é sua competência em recriar a época, o momento, em dar condições de Philip Seymour Hoffman resgatar a complexidade dessa figura única, um sujeito orgulhoso, sensível, arrogante e matreiro. Até busquei algum adjetivo, mas meu vocabulário é incapaz de explicitar algo que se aproxima da mágica interpretação de Philip Seymour Hoffman, portanto imaginem o melhor elogio que se possa fazer, não passou nem perto do que esse rapaz merece. Falar das semelhanças com alteração da voz e dos trejeitos é pouco, praticamente nada. Tenho costume de dizer que um ator com uma impecável interpretação representa a alma do filme, nesse caso ele é a alma, o corpo, a áurea…

Não há discussão sobre a brutalidade ou as razões dos crimes, em dado momento Capote se compara a Perry, pelos dois terem tido os mesmos problemas de abandono e alcoolismo materno na infância, e sutilmente mostra o caminho oposto que seguiram. Depois Capote fala sobre duas Américas existentes dentro de seu país, uma cercada de segurança e outra dos subterrâneos, da violência. Concluiu, profetizando, que naquele 14 de Novembro de 1959, aquelas duas Américas confluíram. Capote era um prepotente, um arrogante, divertidíssimo em reuniões sociais, um solitário com seus sofrimentos e medos, um homem trancado no calabouço de suas angústias.

The Interpreter (2005 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Escolheram um país fictício, foi até melhor, seria injustiça mirar na história político-sangrenta de um país africano, e deixar que vários outros escapassem ilesos da imagem de genocídio, como se aquela fosse uma história isolada. Líderes que pregam a paz durante sua fase de guerrilheiros, e ao subir ao poder tornam-se ditadores implacáveis, promovendo verdadeiras carnificinas, pelo país, são a triste realidade de grande parte do continente africano.

O que ganha dimensões além da história é o cenário, o filme já ficou marcado como o primeiro gravado dentro da sede da ONU. Muitos cineastas tentaram permissões, e só Sidney Pollack conseguiu convencê-los a abrir os salões da organização. Talvez tenha sido uma escolha política, já que a ONU está com sua imagem fragilizada depois dos acontecimentos políticos no Iraque, principalmente na decisão dos EUA de não aceitarem o veto do Conselho de Segurança contra a invasão. Não importa, ao filme, a utilização desse cenário foi altamente benéfica, trazendo realismo.

E no grande salão que a trama tem seu estopim, quando por acaso a intérprete Sylvia Broome (Nicole Kidman) ouve um diálogo em que se tramava o assassinato do presidente Zuwanie (Earl Cameron) de Matobo. A situação política daquele país fervilhava, e Zuwaine pretendia discursar na ONU em buscar de apoio. Silvia procura a polícia, desconfiados os agentes trabalham com a hipótese do atentando, enquanto investigam a própria intérprete. Qualquer outro detalhe estragaria o thriller.

Pollack nos reservou boas doses de suspense, alguns deles realmente eletrizantes como a fantástica seqüência no ônibus. Porém, em vários momentos e com clichês a exaustão o filme se torna sentimental ao extremo. A cena em que o lenço umedecido limpa o rosto, com sangue, talvez seja o ápice desse sentimentalismo banal. Essa gangorra, de bons e maus momentos, traduz a irregularidade do filme, se o silêncio substituísse alguns diálogos já teríamos um resultado melhor. O agente secreto (Sean Penn) é usado pela interprete como bola de ping-pong, sua vida pessoal escancarada é a maneira encontrada pelo roteiro para dar um toque romântico à história.

queroserjohnmalkovichBeing John Malkovich (1999 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Por que as pessoas têm tanta curiosidade em saber da vida dos outros? O que há de tão fascinante em não ser você mesmo? Até que ponto nossa privacidade deve ser respeitada, qual o conceito de privacidade hoje? Se é que ele existe este conceito ainda. Num mundo tomado por “reality shows”, ter a possibilidade de entrar na cabeça de um famoso ator é algo surreal, porém instigante.

Craig Schwartz (John Cusack) é um marionetista, apaixonado por sua arte, porém enfrentando graves problemas financeiros. Sua esposa, Lotte (Cameron Diaz), adora animais, e os dois vivem numa espécie de mini-zoológico. Obrigado a buscar um emprego “normal”, e auxiliado pela agilidade com as mãos, Craig arruma um emprego de arquivista. O inusitado começa a aparecer aqui, a empresa está localizada no andar 7 ½. Todos andam meio envergados, porque o andar tem realmente metade da altura.

Rapidamente, Craig se apaixona, no trabalho, por Maxine (Catherine Keener), quem não lhe dá nenhuma atenção. O surreal entra de vez na trama quando Craig encontra uma estranha porta na parede, e descobre que se trata de um portal que vai direto ao cérebro do ator John Malkovich. Bizarro, não? Você entra pelo portal e consegue ficar quinze minutos lá dentro, até ser arremessado à beira de uma rodovia. Obviamente que Craig fica fascinado, e conta tudo a Maxine, que vê a possibilidade de ganhar muito dinheiro.

Os dois abrem uma empresa clandestina, e nas madrugadas cobram dos interessados a passar alguns minutos na cabeça do astro. Maxine vai à procura de Malkovich, e o encontra quando Lotte estava dentro da mente do ator. O resultado é que Lotte se apaixona por Maxime. Craig descobre o amor das duas, “executado” através do corpo de Malkovich, e enciumado descobre uma maneira de controlar o ator, como controla suas marionetes. Sob o comando de Craig, a vida de Malkovich muda completamente e esse roteiro segue por caminhos inimagináveis.

Spike Jonze dirigiu inúmeros clips musicais de sucesso, e também trabalhou como ator no filme Três Reis. Em sua estreia na direção surge um talento inventivo, que flerta com humor leve e agradável, enquanto busca na criatividade e em temas atuais, a vasão para suas ideias completamente malucas. Algumas cenas inteligentes como a perseguição no subconsciente de Malkovich, ou a dança imitando uma marionete, provam que nasce um diretor para se ficar bem atentos.