Posts com Tag ‘Charlotte Gainsbourg’

Les Fantômes D’Ismaël (2017 – FRA) 

Um dos cineastas franceses mais interesantes da atualidade, Arnaud Desplechin tem uma carreira tal qual seu cinema, onde a irregularidade é um dos seus charmes. Seus últimos três filmes deram uma guinada para crises mais íntimas, talvez um reflexo do próprio estágio na vida do cineasta (pura especulação), mas é fácil notar essa tendência: seja em Terapia Intensiva e a psicanálise com um índio americano, ou no recente Três Lembranças da Minha Juventude.

Não é coincidência que o filme tenha seu habitué Mathieu Amalric retomando o personagem intitulado Ismael (assim como era em Reis e Rainha), um diálogo direto ou uma continuação espritual, porque o personagem é semelhante, mas com trajetórias e casamentos diferentes. Aqui ele é cineasta, que vive de cama em cama desde que sua esposa (Marion Cotilard) desapareceu, há mais de vinte anos, inclusive dada como morta. Brincando com flashbacks e idas e vindas no tempo, a narrativa tenta construir as bases amorosas desse homem, enquanto conta sua nova história de amor com Sylvia (Charlotte Gainsbourg). Até que a esposa ressurge e assim todos seus fantasmas.

Diferente do brilho do anterior, este aqui demonstra o cansaço da fórmula de Desplechin, suas irregularidades não constituem um de seus mais saborosos retratos de personagens complexos e aflitivos. Novamente não é um filme fácil, mas é um caminho já transpassado pelo cineasta, sua zona de conforto, cujas angustias e crises funcionam melhor para pequenas momentos (como a dança de Cotilard ou encontro com o pai) do que na constituição do filme como um todo.


Festival: Cannes 2017

Mostra: Fora da Competição

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ninfomaniaca2Nymphomaniac: Volume 2 (2013 – DIN) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Interessante como a segunda parte da saga de Joe (Charlotte Gainsbourg) consegue não se parecer com um soft porn, à lá Emanuelle, mesmo que mantida a estrutura anterior. Trata-se de um filme muito mais denso, e ainda mais pesado, que seu antecessor. A pervertida Joe cruza qualquer limite em prol do saciar da sua sexualidade, vive sua vida através de uma imensurável necessidade por sexo, ainda mais incessante por só ter vivido um único orgasmo verdadeiro (ainda criança, numa cena sobrenatural).

Lars Von Trier, esse provocador. De um lado essa mulher que usa o poder de seu órgão sexual de forma deliberada, de outro um sujeito (Stellan Skarsgard) culto, religioso, assexuado, que ouve com uma curiosidade imensa e comenta com uma sapiência divina (faz metáforas religiosas ou literárias que chegam ao irritante do pertinente). Aliás, ponto fraco notório é essa necessidade de Trier em tentar o culto com simbologias didáticas (aquela da arma numa mancha de líquido da parede é um absurdo). Este é um filme do cineasta mais manipulador do cinema, nunca seria apenas um conto sobre o sofrimento de uma mulher em busca de sua liberdade e autonecessidade (Joe mergulha no sadomasoquismo, em orgias, cenas explícitas e desavergonhadas, como nunca se viu).

Por trás de toda essa provocação diabólica, um cérebro astuto que novamente entrega um trabalho abstrato, contestador e cínico, principalmente nas questões ligadas ao relacionamento humano. Trier revisita temas anteriores (como na questão da maternidade de Anticristo ou a maldade humana de Dogville e Manderlay), despreza o amor, mas abusa de coisas como transformar Joe numa cobradora de dívidas de um agiota (Willem Dafoe). Filma nos mínimos detalhes os cuidados para momentos de violência perversa, sua mente ensandecida traz à tona o que mais se senta jogar pelo tapete, mas por trás de todo esse de sexo explícito e fora dos padrões do “aceito pela sociedade”, estão críticas ferozes a temas que vão desde religião até provocações que devem ter tiro certo (e que nunca saberemos).

Ninfomaníaca01Nymphomaniac: Volume 1 (2013 – DIN) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Resumiria o primeiro volume da saga sexual de Joe (Charlotte Gainsbourg) em uma única palavra: estéril. Narrado como mais um capítulo da série de filme de soft Porn, Emanuelle (com Sylvia Kristel), apimentado com comparações filosóficas de um eterno arrogante (Lars Von Trier) que vão desde pescaria até a música de Bach.

O estilo manipulador de Von Trier está ali, suas pretensões faraônicas e a crueldade com que enxerga as relações pessoais também. Mas, ele já parte de uma faísca fraca (não cola aquele papo de narrar as aventuras sexuais ao sujeito religioso que a acudiu no meio da rua), o conjunto de clipes de apelo erótico leve que servem para as tais comparações entre desejo sexual irreprimível e a visão do tal observador (Stellan Skarsgard) são deturpados e nem tão provocativos quanto Lars pretendia.

E ele ainda insiste em cenas de constrangimento particular, especialmente com Uma Thurman em cena. Não que reações enciumadas como aquela não possam acontecer, o inimaginável é a própria Joe se sujeitar, afinal, dona de joguinhos sexuais tão apurados. Mas, é verdade que mais que qualquer outro filme, este carece da segunda parte, onde se espera que o todo faça sentido, e tenha um propósito maior do que parecer uma homenagem prepotente a sagas como as de Emanuelle.

Melancholia (2011 – DIN)

Sinceramente, começo a acreditar que Lars Von Trier é um mestre da manipulação, tudo bem que sua figura frente aos jornalistas é de um manipulador barato e irônico que fala o que fala mais para render discussões e perseguições do que defender idéias (e Cannes este ano foi prova disso na polêmica sobre ele entender Hitler). Mas, ali, dentro da sala escura, o cineasta dinamarquês cria histórias discutíveis, fortes, de impacto, mas me pergunto se não são apenas joguetes dentro de seu intuito maior de simplesmente manipular as sensações e percepções de seu público durante duas horas (e um pouco mais depois da sessão).

Dessa vez ele vem com essa história apocalíptica sobre o fim do mundo, um planeta que lentamente se aproxima da Terra e não se sabe se ele se chocará ou não com nosso planeta. Nas mãos de qualquer um teríamos um filme com noticiários, desespero, gente correndo pelas ruas, transito caótica, uma procura incessante por abrigo. Nas mãos de Lars temos um casamento. Sim, um casamento. Aliás, a história desse planeta Melancholia só aparece na segunda metade, porque a primeira é sobre o casamento (e aqui está o grande tema do filme). A noiva, Clare (Kirsten Dunst) chega atrasada na mansão onde está acontecendo a festa de seu casamento, antes ela dá uma olhada nas estrelas e uma avermelhada lhe chama a atenção. Pronto, dali em diante teremos a pior noiva da face da Terra (alias, tenho medo dos casamentos dinarqueses depois do que vi em mais de um filme). Ela é tomada por uma melancolia tão profunda (e Lars conduz essa sensação de forma tão extravagante que os tentáculos de melancolia parecem surgir da tela e afetar o público). Já vi filmes melancolicos, nada parecido com esse.  O fiasco da festa não importa, Lars está brincando de humilhar as relações pessoais, mas a presença marcante é dessa melancolia exacerbada, que chega a um estágio no filme que Clare praticamente não consegue se mover.

Na segunda metade temos o foco em Justine (Charlotte Gainsbourg), a irmã mais velha de Clare, que está aterrorizada com a possibilidade do fim do mundo. E Lars cria uma personagem tão humana, replete dos anseios materno-protecionistas, da confiança nas palavras do marido, na preocupação com coisas pequenas quando algo tão fora do nosso controle pode acontecer. A camera focaliza o planeta, praticamente olhamos pelos olhos de Justine, olhos com medo e confiança, o fim não pode estar próximo, meu filho ainda tem tanto a fazer. Nesse ponto ficam evidentes as diferenças entre as irmãs, é um outro tipo de melancolia, e Lars jamais trai seu filme, pouco interessa o que está acontecendo no mundo, o que estão dizendo, o mundo deles é ali, aquela varanda, os cavalos, e o pequeno convívio familiar.

Cheio de planos fechados, a entrega dos atores é total, as imperfeições dos rostos daquelas belas mulheres tornam a angustia mais clarividente, e talvez seja nesse ponto que Lars se destaque como o manipulador que é, o uso perfeito de fotografia, montagem e trilha sonora a favor dessa sua obsessão de ter as emoções do público sob seu bel-prazer. Chega a ser narcisista, porém funciona, o fim termina num dos finais mais poderosos e crus que se possa imaginar, e o peso do mundo parece estar sob os ombros, as feições de melancolia agora estão estampadas nas pessoas que saem daquela sessão, com créditos em silencio, e uma profunda dor na alma. Questionamentos? Mil. Mas não são exatamente quetionamentos sob a possibilidade do mundo acabar ou não, ou dos exageros picaretas presentes na festa do casamento (reparem não só nas duas protagonistas, como também na sempre excelente Charlotte Rampling como a mãe mais venenosa e sem coração da história do cinema). A questão é como alguém consegue plantar melancolia no coração de tanta gente, só contando uma história de ficção.

The Tree (2010 – AUS/FRA)

A felicidade do casal e seus quatro filhos, morando numa casa deliciosa numa pequena região na Austrália cujo no quintal há uma árvore gigante e centenária, é realmente de dar gosto. Eles vivem bem, ela cuida dos filhos, ele trabalha, as crianças se divertem, tudo certo até que uma tragédia inesperada leva o pai dessa família. Casa desestabilizada, a esposa (Charlotte Gainsbourg) precisa se recompor, começar a trabalhar, dar prumo para que os filhos se reergam. A filha de oito anos passa a acreditar que pode conversar com o pai por meio da árvore, a mãe divide com ela esse segredo, e dessa relação paternal estabelece-se problemas de comportamento, a difícil relação com um novo namorado para mãe e etc. É uma nova saga de família, dessa vez pelas mãos de Julie Bertucelli ganha contornos delicados, e uma presença constante e devastadora da natureza que é chave central nos conflitos dessa história (principalmente na sequência final eletrizante da passagem do furacão).

Anticristo

Publicado: abril 17, 2010 em Cinema
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Antichrist (2009 – DIN) 

Realmente estarrecedor pela agressividade moral e física de suas imagens. O filme abre-se com um lento prólogo, em slow-motion, dividindo-se entre o casal fazendo amor (numa cena sem emoção, focada apenas na plasticidade dos corpos), e o filho pequeno sofrendo um acidente ao sair do berço. Chamar o início de petulante é pouco, perto do mergulho fantasmagórico que o casal (únicos personagens de todas as cenas) será exposto quando o marido (Willem Dafoe) terapeuta decide que a esposa (Charlotte Gainsbourg) deve parar com os medicamentos e ser curada numa casa na floresta sob seus cuidados.

O perigoso jogo de provocar medos, de lidar com depressão e ansiedade, de envolver a própria relação no tratamento de dor, tão profunda, demonstra-se desastrosa, evocando sexo e violência em cenas em que o amor e afeto dão lugar à mutilação, ao desespero, a perda dos controles. Lars Von Trier demonstra arrogância perversa sob seus personagens, cria climas claustrofóbicos. Tem-se medo até da grama. Dar ritmo tão dilacerante, num filme com apenas dois personagens, não é tarefa simples. Por outro lado, se preocupa de maneira tão excessiva com o impacto, e com provocar o estômago do próprio público, que funciona apenas como um teste de dor no espectador, enquanto os atores esbanjam entrega em cenas sangrentas e nada fotogênicas.

Dia de uma grata surpresa, ótimo quando aqueles filmes desconhecidos tornam-se pérolas admiráveis.
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Samson e Delilah (Samson e Delilah, 2009 – AUS)

Tragédia pouca é bobagem para o diretor e roteirista Warwick Thorton, não bastava flagar a monótona, miserável e desesperançada vida de uma comunidade aborígene cravada no interior australiano. Era pouco demonstrar as mazelas desse urbanização precária e pobreza extrema, essa vida em transição que mal cultiva suas origens e nem compreende a lingua (dirá o estilo de vida da maioria da população). Os aborígenes vivem nesse mundo oco, sem perspectiva, entre o calor e olhar vago passam os dias cuidando de sua subsistência. Só que Thorton estava obstinado pela tragédia e a saída de dois jovens “apaixonados” dessa comunidade resulta numa série de acontecimentos trágicos (algumas cenas grotescas com um personagem que misteriosamente fica surdo nos momentos chaves) em que passa a ser impressionante acreditar que eles permaneçam vivos depois de tanto drama. A música Talismã (da dupla brasileira Leandro e Leonardo) aparece duas vezes, numa regravação em espanhol, suas inserções resumem bem o quanto os aborígenes parecem compreender o mundo a sua volta, não entendem mas sentem.
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Cúmplices (Complices / Partners, 2009 – FRA)

Após a descoberta do corpo de um garoto num rio o filme divide-se em dois tempos, no tempo presente a investigação a cargo dos parceiros Hervé Cagan (Gilbert Melki) e Karine Mangin (Emanuelle Devos), num passado recente o flerte num cybercafé e o consequente relacionamento entre os jovens Rebecca (Joana Preiss) e Vicent (Cyril Descours). Característica básica da direção de Frédéric Mermoud é seguir numa correta trama policial sem excessos, sem reviravoltas, as peças encaixando-se lentamente (tal qual uma investigação ofereceria) sem que deixemos de lado a vida pessoal dos dois policiais (relações familiares, desencontros amorosos, tudo de maneira precisa, coerente, dialogando com a realidade), depois o caso de amor jovem é uma graça, culpa dos atores talentosos (destaque para Preiss que transmite a paixão em cada sorriso, em cada beijo, Rebeca está apaixonada e seus semblantes dão todo sentido para o desenrolar que a trama desenvolverá). O título apresenta-se de duplo sentido graças a um grau de humanidade e bom-senso por parte dos personagens ao final da história trama que elevam a trama policial a um contexto onde amores e correções do passado de cada um deles pesam sob uma decisão de julgamento próprio. Daqueles filmes de beleza sutil, com trama envolvente e personagens cativantes e uma série de decisões corretas do diretor ocasionando um filme muito melhor do que se poderia imaginar, ao final chega a emocionar.

Perseguição (Persécution, 2009 – FRA)

Patrice Chéreau trata aqui dos descontroles do amor, Daniel (Romain Duris) é seu instrumento para representação do quanto a insegurança pode causar estragos inestimáveis a um relacionamento, desequilibrar comportamentos. A câmera gira em torno de Daniel, acompanha seu andar acelerado por entre os apartamentos em que cuida das reformas. Um homem passa a persegui-lo, diz amá-lo, ele praticamente enlouquece. Sua namorada, Sonia (Charlotte Gainsbourg), é uma mulher independente que mantém o relacionamento com certa distância e isso traz insegurança a Daniel com inúmeros questionamentos sobre a estabilidade dos dois, sobre o quanto se amam, teme o fim. Encontros com amigos em bares, incidentes com o perseguidor apaixonado, tanta paranóia e o ritmo frenético empregado por Chéreau e Duris causam a exata sensação do quão perturbado Daniel encontra-se, ainda mais pela enigmática Sonia que parece tão fechada quanto encantadora.
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Shirin (Shirin, 2008 – IRA)

A câmera focaliza a platéia (predominantemente mulheres) que atentamente assistem ao filme A história de Khosrow o Shirin, baseado na obra de Nezami, datada do século XII. O filme narra a história de amor e desencontros entre o principe persa e a princesa armênia. Abbas Kiarostami não está interessado no desenrolar da história, seu objeto de estudo são as reações da platéia. As mulheres e seus olhares atentos refletem as emoções dos próprios personagens, leves sorrisos ou gargalhadas, atenção e apreensão, choro e tristeza, suas reações pontuam o desenvolvimento dos personagens. Mas a ideia original não vai além dos primeiros vinte-trinta minutos, depois a fórmula torna-se gasta, as reações das atrizes focalizadas nem tão espontâneas e o filme cheio de intensões rola entre o esperado mais do mesmo.