Posts com Tag ‘Charlotte Rampling’

Hannah

Publicado: julho 12, 2018 em Cinema
Tags:, ,

Hannah (2017 – ITA) 

O cinema dos silêncios é uma arte dificílima. Afinal, numa era que tudo está tão acessível ao alcance da mãos, via smartphone, incluindo vídeos em tantas redes sociais, realizar um filme em que os silêncios são a figura dominante da estrutura narrativa, e conseguir assim deixar seu público intrigado, é algo raro. A sempre sensacional Charlotte Rampling foi escolhida melhor atriz em Veneza, não era por menos, o filme do italiano Andrea Pallaoro não se afasta um segundo de sua protagonista silenciosa.

Os planos fechados intensificam a rotina dessa mulher que sofre com o marido preso e com o distanciamento do filho. As informações são escassas, um quebra-cabeças pouco claro para o público, e bem curioso como a protagonista cria uma realidade paralela, quase uma negação dos fatos. Unir a familia parece impossível, mas ela segue ali, impassível ou apenas incapaz de enxergar a realidade bem diante dos seus olhos. Não é um filme arrebatador, mas é dentro do meticuloso que permite a compreensão dessa protagonista que não sabe, ou não quer acreditar no que possa ter ocorrido para destruir aquela familia.


Festival: Veneza 2017

Mostra: Competição

Prêmios: Melhor Atriz

45anos45 Anos ( 2015 – RU) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O cineasta Andrew Haigh chamou atenção, recentemente, com Weekend. E agora ficou definitivamente entre os nomes promissores do momento. Em Berlim ganhou o prêmio de Melhor Ator e Melhor Atriz, e realmente as interpretações de Charlotte Rampling (sempre ela) e Tom Courtenay são destacadas, diria até estupendas. O casal prestes a comemorar quarenta e cinco anos de matrimônio, na semana de contagem regressiva para a celebração chega uma noticia que se torna bombástica. Os pilares do casamento abalados, o passado vindo à tona e com ele a dor da descoberta.

Ciumes, insegurança, são apenas pontas de um iceberg, exposto de forma contida, pela elegante condução de Haigh. Assim como as canções que ouvem, e o ritmo do dia-a-dia, o filme não perde a classe levemente burguesa desse casal pacato.  O roteiro enxuto, fugindo dos clichês e do melodrama, revive pequenas histórias da década de sessenta, e fatos ocorridas antes do casal se conhecer, mas que podem ecoar tão ferozmente mesmo após tantos anos de casamento. E o final é a perfeita tradução da construção daqueles personagens, pequenos gestos simples que resumem com perfeição presente, e quem sabe futuro. Charlotte Rampling é aquela atriz, que a cada dia que passa prova um talento fora do comum, fora de série, que merecia um destaque muito maior do que goza.

oquartoproibidoThe Forbidden Room (2015 – CAN) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

E as loucuras de Guy Maddin, dessa vez divide a assinatura do filme com Evan Johnson, ataca novamente. O canadense que revive os primórdios do cinema mudo e preto e branco, cheio de texturas e efeitos visuais que dão impressão de um filme centenário, está de volta com uma de suas maiores viagens.

E na questão ousadia, longe que este é o que vai além desse conceito. Com uma geleia mortal dentro de um submarino, e uma dezena de filmes-dentro-do-filme, que une diversos atores e outros nomes famosos do cinema mundial (como Jaques Nolot, Geraldine Chaplin, Charlotte Rampling, Maria de Medeiros ou Mathieu Amalric), o roteiro extrapola os limites do racional, sem dó e nem piedade do público.

A dupla de diretores está mais interessado em brincar com iluminação, texturas, colagens e sobreposições, e a diversidade de filtros que transformam ssistir numa experiência quase sensorial. Dessa vez os personagens tem falas, uma das sequencias é quase um musical. Há ainda um humor peculiar, meio escroto, meio deboche, é tudo over. O exagero fantasioso, a radicalidade nas propostas anárquica, Maddin foi muito além e o excesso nunca é benéfico.

mostra tiradentes lista• Festival de Veneza: filme de abertura será Gravity, de Alfonso Cuarón, promissor sci-fi com George Clooney e Sandra Bullock [Screen Daily]

• Mostra de Tirandentes: o cultuado festival mineiro ganha uma versão no Cinesesc, já está no ar a programação que ocorrerá de 4-11 de Julho [Revista de Cinema]

• Blade Runner: várias polaroids de Sean Young das filmagens do filme [Retronaut]

• Guerra Mundial Z: o final dessa história era outro, mas preferiram alterá-lo para o cinema, nesse aqui temos o final original [Movies.com]

• Terence Davies: seu próximo projeto será sobre a vida do peota Emily Dickinson [Screen Daily]

• Charlotte Rampling: falando sobre as filmagens de I, Anna, dirigido por seu filho Barnaby Southcombe [Cineuropa]

Melancholia (2011 – DIN)

Sinceramente, começo a acreditar que Lars Von Trier é um mestre da manipulação, tudo bem que sua figura frente aos jornalistas é de um manipulador barato e irônico que fala o que fala mais para render discussões e perseguições do que defender idéias (e Cannes este ano foi prova disso na polêmica sobre ele entender Hitler). Mas, ali, dentro da sala escura, o cineasta dinamarquês cria histórias discutíveis, fortes, de impacto, mas me pergunto se não são apenas joguetes dentro de seu intuito maior de simplesmente manipular as sensações e percepções de seu público durante duas horas (e um pouco mais depois da sessão).

Dessa vez ele vem com essa história apocalíptica sobre o fim do mundo, um planeta que lentamente se aproxima da Terra e não se sabe se ele se chocará ou não com nosso planeta. Nas mãos de qualquer um teríamos um filme com noticiários, desespero, gente correndo pelas ruas, transito caótica, uma procura incessante por abrigo. Nas mãos de Lars temos um casamento. Sim, um casamento. Aliás, a história desse planeta Melancholia só aparece na segunda metade, porque a primeira é sobre o casamento (e aqui está o grande tema do filme). A noiva, Clare (Kirsten Dunst) chega atrasada na mansão onde está acontecendo a festa de seu casamento, antes ela dá uma olhada nas estrelas e uma avermelhada lhe chama a atenção. Pronto, dali em diante teremos a pior noiva da face da Terra (alias, tenho medo dos casamentos dinarqueses depois do que vi em mais de um filme). Ela é tomada por uma melancolia tão profunda (e Lars conduz essa sensação de forma tão extravagante que os tentáculos de melancolia parecem surgir da tela e afetar o público). Já vi filmes melancolicos, nada parecido com esse.  O fiasco da festa não importa, Lars está brincando de humilhar as relações pessoais, mas a presença marcante é dessa melancolia exacerbada, que chega a um estágio no filme que Clare praticamente não consegue se mover.

Na segunda metade temos o foco em Justine (Charlotte Gainsbourg), a irmã mais velha de Clare, que está aterrorizada com a possibilidade do fim do mundo. E Lars cria uma personagem tão humana, replete dos anseios materno-protecionistas, da confiança nas palavras do marido, na preocupação com coisas pequenas quando algo tão fora do nosso controle pode acontecer. A camera focaliza o planeta, praticamente olhamos pelos olhos de Justine, olhos com medo e confiança, o fim não pode estar próximo, meu filho ainda tem tanto a fazer. Nesse ponto ficam evidentes as diferenças entre as irmãs, é um outro tipo de melancolia, e Lars jamais trai seu filme, pouco interessa o que está acontecendo no mundo, o que estão dizendo, o mundo deles é ali, aquela varanda, os cavalos, e o pequeno convívio familiar.

Cheio de planos fechados, a entrega dos atores é total, as imperfeições dos rostos daquelas belas mulheres tornam a angustia mais clarividente, e talvez seja nesse ponto que Lars se destaque como o manipulador que é, o uso perfeito de fotografia, montagem e trilha sonora a favor dessa sua obsessão de ter as emoções do público sob seu bel-prazer. Chega a ser narcisista, porém funciona, o fim termina num dos finais mais poderosos e crus que se possa imaginar, e o peso do mundo parece estar sob os ombros, as feições de melancolia agora estão estampadas nas pessoas que saem daquela sessão, com créditos em silencio, e uma profunda dor na alma. Questionamentos? Mil. Mas não são exatamente quetionamentos sob a possibilidade do mundo acabar ou não, ou dos exageros picaretas presentes na festa do casamento (reparem não só nas duas protagonistas, como também na sempre excelente Charlotte Rampling como a mãe mais venenosa e sem coração da história do cinema). A questão é como alguém consegue plantar melancolia no coração de tanta gente, só contando uma história de ficção.

Vers Le Sud (2005 – FRA/CAN) 

A estrutura de onde parte a trama é bem interessante, querendo colocar o Haiti como um paraíso para mulheres de meia-idade e mal resolvidas sexualmente. Um local onde  encontrariam prazer, com os garotões negros que realizariam todos seus desejos e fantasias. É a prostituição às avessas, onde os homens se vendem para o poderio financeiro feminino.

A ação se desenvolve a partir de três turistas vindas de partes diferentes do mundo, mais precisamente entre a dominadora e ácida Ellen (Charlotte Rampling) e a doce e apaixonada Brenda (Karen Young). As duas disputam as atenções do mesmo garoto, Legba (Ménothy Cesar). E a seu modo, cada uma demonstra seus sentimentos ao garoto que só busca sua sobrevivência. Ganhar seus carinhos (claro que em troca de presentes e outras mordomias financeiras) torna-se mais importante do que qualquer paisagem que o Haiti possa oferecer.

Até esse ponto o filme caminha bem, mas o roteiro demonstra-se mal resolvido quando pretende mergulhar dentro da realidade de Legba e seu país. Pouco elucidativo, o filme passa a ficar carente de fatos, explicações, ou de alguma bagagem que dê crédito ao que vem a seguir. Nem para demonstrar a miséria com que o povo haitiano convive o filme é ccompetente. Ficando apenas no clichê de um país pobre.

Pouco a pouco, nos resta a sempre competente Charlotte Rampling, brindando cada cena com elegância e sofisticação. O diretor Laurent Cantet tinha chance de muito mais, talvez tenha faltado ser ousado, talvez o problema vá muito além. É um filme que começa interessante e chega ao fim quase que arrastado num triângulo amoroso e um pano de fundo que pretende deflagrar a opressão porque passa o povo hatiano, mas o pano de fundo não resiste e Karen Young parece tão chata e frágil quanto sua própria personagem.