Posts com Tag ‘Charlotte Very’

aliberdadeeazulTrois Couleurs: Bleu (1993 – FRA)  estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Conheço quem viu 4-5 vezes um mesmo filme em cartaz. Dificilmente revejo um filme visto recentemente. Dessa vez o caso foi outro, havia alugado o dvd, acabei de assisti-lo e fui dormir. Incomodado, a impressão não fora das mais intensas (por mais que gostara, de alguma forma ele dominara minha consciência.

Logo pela manhã revi, não dava para desperdiçar aquelas imagens com uma primeira olhada, não é toda hora que você assiste um filme de perder o fôlego. Precisava ser revisto, dar maior importância a algumas nuances, algumas texturas. É um filme completo que na revisão surgiu como uma obra-prima, majestoso, inesquecível.

Por onde começar? Poderia ser pelo olhar de Juliette Binoche, adoro quando um ator não precisa pronunciar uma sílaba, em seus olhos estão explícitos sentimentos, desejos, angústias, ternura e dor. Juliette Binoche é uma surpresa a cada instante, um espetáculo a cada plano. Só que Krzysztof Kieslowski apronta das suas, sua câmera consegue ir além do olhar, chega a usar os olhos de Binoche como um espelho. Há cenas inimagináveis, como o princípio de um choro que é focado apenas nos lábios de Binoche, Kiéslowski espetacular a cada momento, impressionante.

Em alguns cenas de momentos mais emblemáticos a imagem é escurecida por três, quatros, cinco segundos, uma música clássica surge, a imagem volta ao ponto de onde o filme havia parado. É como se o diretor nos permitisse um momento de reflexão entre um instante e outro. Um respiro.

Julie (Binoche) renuncia a liberdade, depois de perder seu marido e filha num acidente de carro. Tenta o suicídio, fica apenas com a renuncia, a saudade, as lágrimas, a emoção, a liberdade. Tenta se livrar de tudo que a apegue à vida. Foge das lembranças, dos amigos, muda-se.

Não leva nenhuma recordação, a não ser um lustre azul. Aliás, o azul está presente no filme todo, começando pela divina fotografia. Mas há o amor, há a amizade, e por mais que renunciemos a esse tipo de relação humana, é impossível controlar. E, também, há a música, que embala nossos corações em momentos tocangtes da vida. Julie luta, mas será possível não se render a essas forças que nos movem? A cena final é a melhor resposta. Obra-prima!

contodeinvernoConte d’Hiver (1992 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

 O início se dá numa espécie de clipe musical. Ao fundo, a trilha sonora embalando as imagens, que funcionam como afirmação para um amor nascente, aparentemente passageiro, ocorrido em férias na praia. Fica tudo muito vago, a não ser a paixão que jorra das felizes feições de Felice (Charlotte Véry) e Charles (Frédéric van den Driessche).

Pualmos adiante, exatos cinco anos. Felice divide-se entre a casa da mãe (onde está sua filha Elise), e o apartamento do namorado Loic (Hervé Furic), um intelectual completamente apaixonado e não correspondido. Ela trabalha num salão de beleza, e mantém também relacionamento amoroso com Maxence (um cabeleireiro casado), outro não muito correspondido. Ele pretende abrir um salão numa pequena cidade francesa e deseja que ela e a filha se mudem com ele.

Felice é simultaneamente volúvel e segura, a primeira característica é mais clara porque no fundo nenhum dos dois a faz realmente feliz, mesmo que ambos não tenha culpa disso. Ela sente-se inculta demais para Loic, em contrapartida Maxence (Michael Voletti) é bruto e destemperado. Só que, o antagonismo dos dois amantes não faz diferença alguma, seu coração continua amarrado naquele inesquecível verão. Seus sentimentos palpitam por Charles e é com ele que Felice acredita encontrará a felicidade. A obsessão não lhe permite se entregar a outros relacionamentos.

Além do frio que cobre Paris, enquanto a história transcorre, no período próximo ao Natal, Conto de Inverno de Shakespeare também é peça importante no desenrolar da trama. Em mais um capítulo dos Contos das Quatro Estações, Eric Rohmer discute, não só, a dúvida de algo que poderia ter acontecido, e também expõe as dúvidas e incertezas da alma feminina. Os diálogos, bem amarrados, demonstram que o cineasta pretende ir além de retratar uma história. Seu intuito maior é de versar em discussões pessoais. Por exemplo, Loic é extremamente religioso e discute com amigos reencarnação entre outros assuntos. São nestes aspectos paralelos que filme ganha em riqueza, traz refinamento.

Nossa Felice recebe toda a atenção de seus amantes, mas não sabe o que quer da vida (já que o que realmente deseja não pode ter). Por isso, toma decisões erradas, termina relacionamentos desejando manter amizade e depois se joga aos mesmos braços. Não podemos nem considerá-la infiel, ela joga abertamente com todos, e em momento algum esconde seus sentimentos por Charles. A grande questão é se seria Charles tudo o que ela fantasiou, ou sua imaginação criou seu amor perfeito?