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Chico – Artista Brasileiro

Publicado: janeiro 28, 2016 em Cinema
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chicoartistabrasileiroChico – Artista Brasileiro (2015) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Depois anos após o sucesso do documentário Vinícius, eis o cineasta Miguel Faria Jr novamente retratando um músico com ligações na Bossa Nova. Chico Buarque já foi tema, ou participou, de tantos documentários para cinema e tv, que pouco de novo pode ser acrescentado. E o cineasta simplesmente não inventa nada, joga para a torcida, sabe quem há um público cativo que vai se interessar em (re)ver sobre a vida do multiartista brasileiro.

Por outro lado, é Chico Buarque, e seu bom papo, e as histórias interessantes, ajudam seu dom de manter o papo descontraído e atrativo. É por culpa do documentado que o longa se sustenta, entre alguns clipes musicais (soltos pelo ar), Chico revive sua carreira, fala de exílio, de um irmão alemão que não conheceu, de suas crises criativas. Fala de passado, presente e futuro, sempre sóbrio e divertido, e capaz de trazer alívio a mesmice do filme como um todo. O efeito imediato de sair da sessão é o de querer correr para casa e ouvir seus discos de novo.

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O Abismo Prateado (2011) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Tomando por base a fabulosa canção de Chico Buarque (Olhos nos Olhos), o diretor Karin Aïnouz narra um momento dramático na vida de Violeta (Alessandra Negrini). O inesperado rompimento do casamento, via mensagem de voz no celular, desbaratina a dentista. Ela não consegue trabalhar, pensar, cuidar do filho. Único refugio, abandonar tudo, sair por ai, sofrer.

Quem conhece a canção sabe que ela não trata do rompimento, mas de um momento logo a seguir, um pouco mais sereno, que demostra forte afeto, porém uma maturidade para seguir adiante. Aïnouz escolhe a fase traumática, neurótica, e simplesmente mergulha a protagonista na noite carioca (bares, motel, praia, banheiro público). Um universo bem condizente com seu cinema, porém pouco voluntarioso à própria história, seja pela incapacidade dos coadjuvantes da noite fugirem do lugar-comum, seja pela condução quase precária de Aïnouz pelo sofrimento tão dolorido e inesperado dessa mulher. E ainda há as versões da música, populares, distantes da força dos versos de Chico.

cabracegaCabra-Cega (2005) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Muito mais que um filme de efeito, Cabra-Cega é um filme de espírito. O espírito revolucionário, as animosidades obsessivo-ideológicas que um isolamento resulta em um idealista. Os anos de chumbo, após confronto com a polícia, Tiago (Leonardo Medeiros) é baleado, e ainda assim consegue ser resgatado por seus companheiros do aparelho. Ferido, fica escondido na casa de um arquiteto simpatizante do movimento.

Rosa (Débora Duboc) faz a ponte com a organização, além de lhe trazer informações é uma espécie de enfermeira. São semanas de enclausuramento, dias fustigantes para alguém ávido em dar sua vida pela causa. É o corpo que não cura, já sua vontade de voltar às ruas não cessa. Sua foto espalhada em cartazes pela cidade, e ele ávido em retornar à luta armada. A mente efervescente se torna sufocante, o consciente de Tiago pira, quase sai órbita. Paranóia, desconfiança, falta de equilíbrio, sua percepção é de que todos o observam, qualquer um pode delatá-lo.

A brisa oferece sensação de liberdade, em momentos como esses, uma pequena abertura na janela, e o toque do vento, no rosto, trazem o revigoramento de libertação, um momento de paz. A subida ao terraço é ainda mais poética, as mãos flutuam pelo ar, o corpo desfruta de cada instante de liberdade. Em momentos de enclausuramento é que se reconhece a importância de poder usufruir dela.

Cabra-Cega não se prende a movimentos políticos, ou discussões filosóficas, nem mesmo a denuncismo. Não que fuja desses temas, mas o filme de Toni Venturi discute o ser humano de maneira mais ampla, o espírito recluso e as explosões que dessa reclusão eclodem. Leonardo Medeiros é de uma lisura extravagante, seu revolucionário tem todas as características básicas, e ao mesmo tempo, em momento algum parece caricato. É como se sintetizasse a figura ideal do oposicionista armado contra a ditadura.

Fernanda Porto é um capítulo à parte, toda a trilha musical é empregada com precisão cirúrgica, e o desfecho apocalíptico, ao som da irresistível versão de Roda Viva da cantora, é tão importante quanto a seqüência quase literal onde Construção é executada. Sim, as músicas de Chico Buarque são personagem importante da trama. Aliás, Construção é uma música altamente cinematográfica, visual que se encaixa perfeitamente ao clima de urgência da ultra-esquerda à época. Um filme de espírito, um filme de explosões, ideológicas, sentimentais, ocasionais.