Posts com Tag ‘Chloë Sevigny’

The Brown Bunny (2003 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Um piloto de motovelocidade vaga em busca de consolo, ao encontro de respostas que nada sabemos. Ele apenas dirige seu carro, observa, a câmera o acompanha com grande proximidade. Não percebemos nada além de seu desconsolo, sua desolação, e Gallo é muito eficiente em assumir os riscos de se tornar monótono, mas ele alcança o prometido: causar questionamento e interesse. O filme transcorre, e já nos perguntamos se seria esse, mais um daqueles exercícios de um cineasta autoral arrogante. Só que, o cineasta nos pega no contrapé com a famosa cena no quarto de hotel. Não se trata apenas de uma cena real de sexo-oral (onde grande parte da critica e do público sentiu-se horrorizada, pela atriz, ou principalmente pela razão daquela cena estar ali). O fato é com ou sem cena de sexo explícito, o que temos é um grande e arrebatador desfecho, oferecendo ao filme um significado bonito, triste e desolador, tal qual o próprio protagonista tentava o tempo todo esquecer.

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Dogville (2003 – DIN/ING/ALE)  

Visualmente é diferente de tudo o que você já viu. Estruturalmente é uma crítica veemente, e vigorosa, a uma sociedade podre, que usa seu poder para dar as cartas, e conquistar seus objetivos, enquanto esconde suas fragilidades. O dinamarquês Lars von Trier filma num tablado negro de teatro, com riscas brancas demarcando casas, representando arbustos e animais. Poucos objetos em cena e a total ausência de muros. A câmera tremendo com grandes closes e cortes secos e bruscos. Nada de amadorismo, a obra é tecnicamente perfeita, com uma fotografia deslumbrante, e o filme tem seus propósitos para ser como está apresentando.

Dogville é uma pequena cidade no interior dos EUA, quase uma aldeia, onde poucas famílias sobrevivem pacatamente em meados da década de trinta. A jovem Grace (Nicole Kidman) aparece misteriosamente na cidade fugindo de gangsteres e é acolhida por Tom (Paul Bettany), que consegue convencer os habitantes da cidade a protegê-la, desde que ela demonstre ser confiável no prazo de duas semanas.

No início é tratada com muito apreço pelos moradores, mas gradativamente seus favores não são mais suficientes e a jovem passa a ser abusada, estuprada e humilhada por cada um dos seus novos amigos. Sem muros podemos acompanhar na mesma cena um estupro acontecendo enquanto pessoas lavam louça ou varrem seu quintal, em suas casas. Os homens sedentos por saciar seus desejos sexuais, as mulheres invejosas espezinham Grace, o que eram pequenos favores torna-se uma relação de vassalagem.

A relação trabalhista, o espírito capitalista, a falsa ingenuidade, a democracia, a amizade de aparências, uma artificial vida harmônica, a inveja. Não caia no erro de olhar Dogville como uma história normal e tentar entender cada fato, julgando, condenando ou justificando cada ação, esse raciocínio simplista tira a razão de ser do filme. Todo o texto é composto de metáforas e ironias que dissecam de maneira direta a sociedade americana (não especificamente, mas com grande intensidade). Cada personagem representa uma parte dessa sociedade moralista, arrogante e gananciosa, que não pensa duas vezes em usar seu poder para impor regras e decisões, o centro do egoísmo.

A cena que marca a entrada de James Caan em cena é triunfal, Nicole Kidman mostra novamente seu talento, John Hurt é o narrador da história e tem o timming perfeito. Dividindo o filme em dez capítulos (sendo um deles o prólogo), Lars von Trier conta sua fábula sem diminuir a intensidade de suas críticas, o poder de chantagear, o egocentrismo e o alto grau de aceitação são armas fatais nas hábeis mãos do diretor. Dogville é corajoso, inquietante e em nenhum momento desvirtua-se de seus princípios, o nome Thomas Edison não está ali por acaso. Nunca mais escutarei Young Americans (David Bowie) sem lembrar-me daquelas fotos.