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albumdefamiliaAugust: Osage County (2013 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Até tento não comparar, tratar apenas como mais um filme, mais uma história, mas quando surgem os comentários sobre a “veracidade” do drama familiar, como as famílias são tão cheias de problemas, mágoas e segredos. Como um filme onde a única pessoa “decente” é a índia que trabalha como doméstica, fico me questionando se é só a minha família que tem uma relação mais light, com seus problemas, mas muito longe desse mundo perverso onde ninguém presta.

O filme dirigido por John Wells, adaptação de uma peça de teatro escrita por Tracy Letts, segue esse caminho das imperfeições. O patriarca (Sam Shepard) desapareceu, as três filhas voltam com seus maridos, filhos, e problemas a conviver com a mãe (Meryl Streep com a mesma peruca de Cate Blanchett interpretava Bob Dylan) que sofre de câncer na boca. A reunião familiar é estopim, Wells filma guerras verbais em cada cômodo, basta transpassar outra porta para dar de cara com outro quebra pau.

Nesse mar de discussões e humilhações surgem alguns momentos engraçados, aquele humor provocativo costumeiro, mas a proposta é mesmo de jogar para baixo qualquer ser vivo que aparece por aquela casa. Não questiono nenhum dos dramas, mas o conjunto parece tão diabolicamente perpetuado para o propósito de desestruturar a instituição falida (família) que fica difícil dar crédito ao peso de interpretações tão carregadas (ok, Julia Roberts convence, Chris Cooper também, Streep dá outro show), ainda assim, parecem andorinhas isoladas que juntas não fazem nem um veranico sequer.

Capote (2005 – CAN/EUA)

“Algo entre quarenta e cinqüenta dólares”, antes mesmo de ouvir a resposta, à pergunta feita por Truman Capote, já achei aquele questionamento pedante. Ao ouvir a módica resposta citada acima, um inevitável arrepio correu pelo corpo. Por mais obviedade que viesse carregada na pergunta, ela provou que se fazia necessária, nós gostamos de sentir na pele a dor, que diferença faria o valor respondido? Nenhuma, mas ouvi-lo é dolorido.

Chamar de biografia é quase um insulto ao filme, não, honestamente não se trata de uma biografia. É verdade que Capote resgata sua infância, fala dos problemas infantis, da mãe e seu alcoolismo, das tias que o criaram. Porém, isso faz parte, de meu modo de entrevistar, de sua maneira de fazer pesquisa, o filme é sobre a confecção de um livro e sobre o mergulho de corpo e alma de um escritor (com todas suas crenças, seu egocentrismo, seu sofrimento e seu envolvimento).

Uma família é assassinada numa fazenda em Kansas, todos os repórteres queriam uma reportagem, Capote transformou aquilo num livro e revolucionou a literatura de seu país com um novo modo de se fazer literatura de não ficção. Falamos do best-seller À Sangue-Frio. O que mais se encontra de novo é a proposta do roteiro de Dan Futterman em não dar contornos definitivos, sob os temas que o filme aborda, mergulhando nessa maneira pessoal de Capote pesquisar sobre os fatos de seu livro. Muito se especula sobre uma possível paixão desperta pelo homossexual Capote após tantos encontros com um dos condenados (Perry Smith – Clifton Collins Jr), outro tema controverso seria uma luta velada do escritor para mantê-los vivos até que terminasse seu livro e por fim o desejo final de que a sentença fosse logo executada para que ele obtivesse o final de seu livro e se livrasse daquela tortura.

O filme não esconde e não opta por nenhuma dessas verdades, fica tudo exposto ao julgamento de cada um. O que o cineasta Bennett Miller não esconde é sua competência em recriar a época, o momento, em dar condições de Philip Seymour Hoffman resgatar a complexidade dessa figura única, um sujeito orgulhoso, sensível, arrogante e matreiro. Até busquei algum adjetivo, mas meu vocabulário é incapaz de explicitar algo que se aproxima da mágica interpretação de Philip Seymour Hoffman, portanto imaginem o melhor elogio que se possa fazer, não passou nem perto do que esse rapaz merece. Falar das semelhanças com alteração da voz e dos trejeitos é pouco, praticamente nada. Tenho costume de dizer que um ator com uma impecável interpretação representa a alma do filme, nesse caso ele é a alma, o corpo, a áurea…

Não há discussão sobre a brutalidade ou as razões dos crimes, em dado momento Capote se compara a Perry, pelos dois terem tido os mesmos problemas de abandono e alcoolismo materno na infância, e sutilmente mostra o caminho oposto que seguiram. Depois Capote fala sobre duas Américas existentes dentro de seu país, uma cercada de segurança e outra dos subterrâneos, da violência. Concluiu, profetizando, que naquele 14 de Novembro de 1959, aquelas duas Américas confluíram. Capote era um prepotente, um arrogante, divertidíssimo em reuniões sociais, um solitário com seus sofrimentos e medos, um homem trancado no calabouço de suas angústias.