Posts com Tag ‘Christian Petzold’

Undine

Publicado: fevereiro 24, 2022 em Cinema
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Undine (2020 – ALE)

Christian Petzold flerta com a fábula ao trazer à Berlim contemporânea, a mitologia grega de Undine, que sai das águas para enfeitiçar os homens. O filme começa num café, um plano contraplano entre close-up’s e planos mais abertos, onde o namorado rompe com Undine, porque está com outra mulher e ela o ameaça de morte. Essa não parece uma ameaça desesperada, é apenas o primeiro sinal dos pequenos toques fantásticos que a trama absorve do mito de Undine. Da tristeza ao infortúnio encontro com outro homem, um mergulhador, um pequeno acidente e um aquário que se quebra. Há água por todos os lados nessa história, assim como há Berlim, afinal ela é uma historiadora que dá palestras sobre a urbanização da cidade, a unificação oriental e ocidental, e etc.

O tom romântico e melodramático sempre encontra aconchego na maneira afetuosa como o cineasta alemão narra suas histórias. Casais apaixonados, enquanto visitamos a cidade por estações de trem, café, museus, além das cenas em que Petzold mais do que narra sua história pela capacidade de romantismo, de falar de amor, de saudade, de carinho, de decepção, e de dor, claro, sempre numa abordagem sutil. A cada filme Petzold parece apurar a sofisticação do que envolve personagens e tramas com a sociedade alemã, essa parece ser a abertura de uma nova trilogia, já estou esfregando os dedos na expectativa do que mais vem por ai.

Jericó

Publicado: fevereiro 23, 2022 em Cinema
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Jerichow (2018 – ALE)

A cada novo filme de Christian Petzold o entusiasmo se renova, impressionante como foi apurando o estilo a cada filme, sem deixar de ser fiel a temas, ainda que os relacione em pequenas variações. E nesse sentido, Jericó parece um resumo precioso daquele momento de sua carreira: imigração, dinheiro, desejo, tudo está ali. Não é uma adaptação, mas Petzold declara ter se inspirado na trama do livro The Postman Always Rings Twice, de James M. Cain (adaptado algumas vezes ao cinema, no Brasil talvez mais conhecido como O Destinado Bate à Sua Porta). O cineasta alemão opta pelo desejo sexual exposto de forma comedida, no filme de Bob Rafelson é mais intenso, nesse ele esta lá, é nítido, mas vem sobreposto. Em seu filme os personagens são muito movidos financeiramente, muito mais ligado à sobrevivência, do que ganância, mas é o que vem primeiro.

A relação da necessidade de dinheiro surge desde a primeira sequencia, o militar que volta da guerra e tem uma dívida que está sendo cobrada. Totalmente quebrado consegue emprego de motorista de um comerciante turco, e acaba se envolvendo com a esposa do chefe. Nesse universo de filmes de Petzold os personagens conversam muito dentro de carros, trocam olhares, sucumbem ao desejo, e por entre cenas elegantes e comedidas declaram sentimentos, paixões, planos (alguns sórdidos). Seus filmes sempre fecham com dilemas morais , aqui não é diferente, não há nem sobram de uma figura muito heróica ou totalmente vítima, há sim essa mistura de interesses, desejo, personagens movidos por seu interesse próprio a ponto de traçar uma nova linha dos limites morais.

Bárbara

Publicado: fevereiro 22, 2022 em Cinema
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Barbara (2012- ALE)

Foi meu primeiro contato com o cinema de Christian Petzold (o primeiro texto sobre o filme está por ai no blog), e ao revisitá-lo agora a sensação de novidade é substituída por um grau de familiaridade com o estilo, os temas, com esse universo petzoldiano de cinema. Vários os personagens, as épocas, mantem-se as estruturas, as surpresas dos finais, as questões sentimentais, políticas, e tantas de suas obsessões.

A direção elegante de Petzold esconde, propositadamente, muitas informações para que o público possa preencher as lacunas sobre a história da médica arredia (Nina Hoss) que está contrariada com seu novo posto de trabalho, numa espécie de castigo por ter tentado migrar para o lado ocidental da Alemanha. Nesse pequeno retrato da vida nos anos oitenta da Alemanha Oriental tem-se a sensação de estar sob vigilância o tempo todo, o governo não lhe deixa respirar, as liberdades limitadas.  

Um médico se aproxima, ela ainda tem planos de escapar com seu marido, pacientes que criam diferentes vínculos. O roteiro realmente é um fiapo, o que sobra é elegancia no trato, e essa imersão que vai ficando maior quanto mais se adentra nos personagens e em suas complexidades numa trama que pretende falar de política velada, e deixar para que os sentimentos decidam o caminho da protagonista.

Dreileben: Algo Melhor do que A Morte

Publicado: fevereiro 21, 2022 em Cinema
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Dreileben: Beats Being Dead / Dreileben: Etwas Besseres Als den Tod (2011 – ALE)

Três dos mais importantes cineastas da Geração de Berlim realizaram esse projeto para tv alemã de três filmes que partem de um ponto de intersecção: um homem que matou uma mulher e foge para o bosque numa cidade no interior daa Alemanha. Esse é o filme de Christian Petzold, que já tinha uma larga história com telefilmes no início de sua carreira e aqui insere, facilmente, todos os elementos e obsessões de sua filmografia em outro belíssimo drama romântico, com toques de thriller, talvez de fábula.

No centro da trama um jovem que estuda para ser médico, e acaba se apaixonando por uma imigrante bósnia. Tal qual o estilo de Petzold, a narrativa é direta, pouco sai do entorno de seu protagonista, os planos mantém a elegância refinada, e a narrativa guarda pequenas sacadas que tornam essa ou aquela cena especiais (aqui se destaca o cena com tradução e dança de Cry me a River). Ao mesmo tempo que é direto, ele também guarda tons de mistério, de que algo está prestes a acontecer (aqui ainda mais presente pela tal intersecção do projeto de trilogia), mas é essecialmente outro caso de desenlace amoroso com imigração, com cenas importantes de diálogos em carros, com decepções e paixões e a capacidade de Petzold em trabalhar com os mais diversos personagens e ainda assim fazer seus filme se unirem como se fossem partes de uma mesma valsa.

Yella

Publicado: fevereiro 20, 2022 em Cinema
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Yella (2007 – ALE)

Em poucos minutos o clima tenso já toma conta, um grau de ansiedade controlado, é bem verdade, já que os filmes de Christian Petzold não são frenéticos. Porém, a tensão está lá, e permanece com você, o tempo todo. A protagonista é quieta, e por isso mesmo enigmática, o que ela está realmente pensando e sentindo são respostas que o filme trará lentamente e flertam mais com o capitalismo do que se poderia imaginar.

Alemanha unificada, de sua pequena cidade natal do lado oriental, Yella (Nina Hoss) tenta se livrar do ex-marido agressivo e desesperado que a persegue, que não lhe deixa em paz. Ela conseguiu emprego numa cidade grande do lado ocidental,  e essa transição nos apresenta um país imerso num sistema financeiro nocivo, que já conhecemos tão bem, mas no estilo alemão tudo parece mais frio, impessoal e até peçonhento.

Ela segue vendo o marido a perseguido por todos os lados, o emprego não dá certo, mas ela consegue um outro que a joga ainda mais nesse mundo do sistema financeiro que arrisca e se aproveita dos que produzem, que visa o lucro rápido, e nesse universo de reuniões empresariais e balanços contábeis que Petzold desenvolve essa relação profissional com o executivo-caixeiro-viajante e suas negociatas e nossa protagonista passivo-capitalista. A critica à ambição financeira vem travestida de drama romântico, de toxicadade masculina, de romances tortos e  jogos de interesse cujo rio que divide o lado ocidental e oriental  dessas alemanhas em reconstrução se torna um coadjuvante essencial. Nina Hoss, como casa perfeita com as protagonistas dos filmes de Petzold, impressionante.

Fantasmas

Publicado: fevereiro 19, 2022 em Cinema
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Gespenster / Ghosts (2005 – ALE)

Solidão e tensão, na filmografia de melancolia de Christian Petzold esses dois elementos casam, combinam. Poucos diálogos, pouquíssimos personagens, e o cineasta alemão constrói outra rede de personagens marginalizados à sociedade, que aqui se encontram na dualidade entre sua solidão e a tensão causada por nosso profundo desconhecimento delas eclipsado pelo intempestivo.

A jovem que vive num abrigo e trabalha recolhendo lixo num parque até ver uma outra jovem ser roubada, quase violentada. Um misto de choque, de afetividade, de curiosidade, a solidão que as aproxima. De outro lado uma mulher que não superou o desaparecimento de sua bebê. Os destinos cruzam essas três mulheres, é fácil conectá-las com o título, fantasmas, mas a teia de relação dos filmes de Petzold são bem mais complexas. Sim, a seu modo, cada um delas desfila como fantasmas por essa Alemanha fria de planos meticulosos e carregados do melodrama do cineasta. Mas, é essa dose de solidão, uma solidão que até nos surpreende, que faz com que essas personagens quietas, que agem quase robotizadas quando confrontadas, criem uma força inesperada e autêntica ao filme.

Wolfsburg

Publicado: fevereiro 18, 2022 em Cinema
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Wolfsburg (2003 – ALE)

A cada filme Christian Petzold vai apurando seu elegante estilo narrativo. Neles os romances são todos marcados por alguma grau de firmeza e quase sempre sugerem relações pouco promissoras, até aqui seus personagens vem sempre marcado por crimes ou questões éticas questionáveis, e com esse filme não vai ser diferente.

Wolfsburg, cidade com maior PIB da Alemanha, fruto da força da indústria automobilística. De um lado um vendedor de carros de luxo que se envolve num acidente, e foge. De outro a mãe do garoto acidentado, que leva a vida trabalhando num supermercado. O peso da culpa por fugir o leva a investigar, se aproximar deles, tentar ajudar uma família bem mais humilde que sua vida. Intrigante como ambos personagens centrais tem relações amorosas conflituosas em seu trabalho, ela recebe convites para sair com seu chefe, enquanto ele trabalha na concessionária da família da noiva.

Essa culpa misturada com uma atração muito mais ligada à solidão do que algo físico os aproxima, enquanto isso as questões sociais estão à beira da trama. Cada passo da história é comedido, vagaroso, eles pouco falam, Nina Hoss de cabelos pretos enaltede esse quê de melancolia, de desesperança, que o filme carrega até chegarmos ao grand-finale e Petzold mostrar porque é um dos grandes cineastas da atualidade.

Something To Remind Me

Publicado: maio 9, 2021 em Cinema
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Toter Mann / Something to Remind Me (2001 – ALE)

Christian Petzold cada vez mais cativanete nessa arte de nos intrigar. Uma mulher misteriosa, que foge de qualquer aproximação, de flertes, de qualquer relação social que possa trazer um traço de intimidade. Tentamos adivinhar seus segredos: foi magoada por um homem? Está fugindo de um? É uma criminosa foragida?

Quem se aproximada dessa bela mulher na piscina é o advogado tímido, e quanto mais ela se esquiva, mais ele se demonstra interessado, como desafiado a vencer as próprias barreiras intransponíveis de suas dificuldades. Se você está achando que é apenas um filme sobre uma história de amor, então passou longe.

A primeira parte da trilogia Fantasmas de Petzold guarda segredos na simplicidade até deixar o público atônito quando tudo for revelado. O primeiro grande filme do cineasta alemão foi feito para a tv,mas os produtores se admiraram tanto com o resultado que acabou sendo lançado nos cinemas, mais que justo, a interpretação de Nina Hoss valia as telas grandes.

A Segurança Interna

Publicado: maio 15, 2020 em Cinema
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Die Innere Sicherheit / The State I am In (2000 – ALE)

Um drama político e também um coming-of-age, o primeiro filme da Trilogia dos Fantasmas do cineasta alemão Christian Petzold unifica esses dois subgêneros, tão distantes aparentemente. Um casal de ex-terroristas alemães da década de 70 vive se esconcendo pela Europa, uma vida na clandestinidade com a filah adolescente. Enquanto se desenrola a trama de viver sob identidades falsas, com poucos recursos financeiros e quase como nômades, a filha chega numa fase em que precisa se descobrir, que se apaixona, que deseja, que precisa de amigos. A necessidade x estilo de vida criam um novo conflito familiar, e Petzold transforma os fantasmas do passado em novos obstáculos .

The Sex Thief

Publicado: outubro 3, 2019 em Cinema
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Die Beischlafdiebin / The Sex Thief (1998 – ALE)

Encerrando sua trilogia de telefilmes com personagens femininas, quase, fora-da-lei, Christian Petzold tece também sua crítica à economia e o mercado de trabalho da Alemanha dos anos 90. São duas irmãs que mentem sobre seus empregos, seu sucesso profissional e o verdadeira ganha-pão. Novamente com fotografia suja, e de forma bastante cru, o diretor explora a oportunidade pelo caminho fácil e os destemperos que tais escolham podem sugerir.

O título já dão os indícios de que as artimanhas sexuais fazem parte do jogo de perde e ganha, mas Petzold vai além ao criar essa relação fraternal de rixa, orgulho e compaixão. De querer o melhor ao ente querido, de proteger, mas também não admitir a derrota. Assim, de uma aparente trama de duas mulheres dando golpes para sobreviver, surge um pequeno filmes de outras camadas.