Posts com Tag ‘Claire Denis’

A lista dos meus filmes preferidos do ano, entre todos que entraram em cartaz no circuito brasileiro.

top 10 2013 Circuito

bastardosLes Salauds / Bastards (2013 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Por entre tantas elipses, fatos pouco conexos, silêncios e segredos, a cineasta Claire Denis apresenta mais um daqueles filmes suntuosos, que trazem a sensação de uma névoa cobrindo seus olhos, não permitindo que se possa enxergar, claramente, as peças de um quebra-cabeças, que ela teima em, magistralmente, montar à frente de nossos olhos. Uma jovem (Lola Cretón) encontrada nua, e sangrando no meio da rua. O pai, diretor de uma fábrica de sapatos falida, cometendo suicídio. Família fragmentada é pouco.

O fio condutor é Marco (Vincent Lindon), cunhado da vítima. Entre varrer os cacos e entender, exatamente, o que está se passando, o capitão de navio mergulha de cabeça com o outro lado da história: a amante (Chaira Mastroianni) de um industrial (Michel Subor), que era amigo e supostamente estaria envolvido no suicídio.

bastados2Contar mais do que isso já é partir para julgamento próprio, desse estopim surge a história nebulosa, onde julgar quem é vítima realmente, passa a ser um dos maiores prazeres do público. Claire Denis pega pesado, em temas e cenas, mas principalmente nessa atmosfera que perturba o estômago de quem assiste. Mentiras, segredos sórdidos, a natureza humana e todo o poder corrompido por desejos escusos, relações absurdas, e um primitivismo grotesco. Seus filmes não são fáceis, mas são adoráveis e inquietantes. E no quesito inquietude, a cena do dirigir às cegas é daqueles momentos que você tem vontade de pular para dentro da tela.

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Finalmente um favorito disparado (nesse reta final, já estava passando da hora), o filme de Abdellatif Kechiche causou frison (links só no próximo post). Enquanto isso, a argentina Lucia Puenzo veio a Cannes com um filme sobre o nazista Mengele, e recepção morna.

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ONLY GOD FORGIVES

ONLY-GOD-FORGIVESApós o sucesso de Drive, o novo filme de Nicolas Winding Refn era o mais aguardado do festival. Decepção da maioria. Ryan Gosling é um traficante vivendo em Bangcoq, Kristin Scott Thomas sua mãe. Sangue, violência desenfreada, poucas falas, filme de ação em câmera lenta (pelas críticas, essas características resumem bem o filme).

Críticas: TimeOut LondonThe Telegraph – The Guardian

Termômetro: pé atrás

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GRISGRIS

GrisgrisMahamat Saleh-Haroun novamente retratando relacionamentos entre pai e filho. A história do dançarino com algum problema ósseo não animou ninguém.Um John Travolta africano, cheio de cenas de danças. Pelo visto, entrou na competição só para ter um filme africano na lista, deixar o todo mais globalizado.

Críticas: VarietyO Globo – The Guardian

Termômetro: pé atrás

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LES SALAUDS

les-salaudsO muito aguardado novo filme de Claire Denis está dividindo a crítica (eu aguardo ansiosamente), pode se encontrar quem o aponte como um dos grandes filmes dessa edição, e outros considerando que Denis já fez trabalhos bem melhores. Um homem se suicida, uma mulher vaga nua pela rua, outro filme misterioso, soturno, meticuloso, bem ao seu estilo.

Críticas: The Guardian – Little White Lies IndieWire

Termômetro: quero ver

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ALL IS LOST

627Fora da Competição, o novo filme de J.C. Chandor vem agradando bastante. Num misto de Náufrago com As Aventuras de Pi, Robert Redford é um velejador enfrentando sozinho tormentas no Oceano Índico, casco quebrado e todos os tipos de aventuras que um filme-catástrofe pode oferecer.

Críticas: The Independent – What Culture – Cine-Vue

Termômetro: quero ver

J’ai Pas Sommeil / I Can’t Sleep (1994 – FRA)

Claire Denis centraliza a narrativa em três personagens e o que orbita suas vidas em Paris. Aparentemente são pequenos dramas, a imigrante lituana (Yekaterina Golubeva) buscando adaptar-se a nova vida, idioma e tudo mais. Um músico (Alex Descas), seus cuidados com seu filho pequeno, e a relação conturbada com a esposa (Beatrice Dale) inconstante. E o travesti (Richard Courcet), irmão do músico, com sua vida “promíscua”, suas relações amorosas e modelos extravagantes. Denis está tratando da vida marginal aqui e ali, sempre evitando o distanciamento, e simultaneamente, permitindo que os corpos movimentem-se livremente entre os enquadramentos.

Enquanto essas vidas seguem seus caminhos os noticiários falam do “assassino de idosas”, Paris está aterrorizada. Mais adiante o roteiro aproxima os personagens do serial killer, o filme é baseado no assassino conhecido como “a Besta de Montmartre” e Denis mostra-se extremamente astuta na ligação de personagens, na forma como trata todas essas formas de marginalização. E, principalmente, como transforma três pequenos personagens num astuto estudo da personalidade humana, de suas facetas. E tudo isso, de forma natural, a mesma sensação quando uma tragédia é lida no jornal e são desconhecidos, e quando são pessoas próximas.

O Intruso – Indie 2011

Publicado: setembro 25, 2011 em Uncategorized
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L’intrus (2004 – FRA)

Claire Denis nos convida, aceite entrar nessa jornada sem igual. Um filme indecifrável e ainda assim capaz de nos causar sensações absurdas, Claire Denis mergulha profundamente no enigmático ao contar a história de um homem rude, e doente, misterioso, que deita-se nu com seus cães no meio da floresta, mas despreza seu filho adulto com dificuldades financeiras para sustentar sua família. Uma série de eventos onde não captaremos nada além da frieza desse sujeito, da sua necessidade de um transplante de coração, e de um outro filho que vive numa ilha no Pacífico Sul.

Para desalinhar isso tudo, Claire Denis nos oferece um filme sensorial, enervante, um tipo de tensão não usual, que nos intriga e eleva a curiosidade. O filme não se explica, não se coloca a se entender, é muito mais o sentir, o hipnotizar-se pela sensação de sentir o cheiro de sangue, o calor daquele sol, ou o sal daquele mar. São tantos os intrusos possíveis nessa história que talvez sejamos o maior deles, invadindo aquelas vidas for a do comum, aquelas relações promíscuas e perigosas, a falta de emoção quando o peso do passado pesa sob tantos corpos, e nós ali, testemunhas, intrusos como um coração que teima em rejeitar sua nova casa. Quem é a tal Rainha do Hemisfério Norte? Não sei, tente descobrir voce.

 

Nennéte et Boni (1996 – FRA)

Claire Denis expõe de maneira tão naturalista alguns temas que parecem os dramas mais corriqueiros do mundo (ok, talvez sejam mesmo). A gravidez na adolescencia aqui é tratada com pesar, com drama, mas de maneira tão comum que mais parece uma mera briga de casais. Novamente a cineasta voltava a esse contato com o universe jovem, os atores Grégoire Colin e Alice Houri atuam como irmãos novamente. E como irmãos brigam, uma relação conturbada, não que não haja fraternidade (principalmente nos momentos dificeis). Ela foge do colégio e da casa do pai, ele mora sozinho e se mantém afastado da figura paterna. Enquanto essa relação familiar conturbada se desenvolve, o garoto vive como pizzaiolo num trailer por Marselha, e tem sonhos eróticos com a esposa (Valeria Bruni-Tedeschi) do padeiro (Vicent Gallo). E nesse universo Claire Denis começa seu “estudo” sobre os corpos, desvendando seus mistérios em cenas que não são só eróticas, e sim contemplativas.

U.S. Go Home (1994 – FRA)

Duas “pirralhas” entram numa festinha (daquelas que o pai de alguém vai viajar e a casa fica livre), tentam se ambientar aqui e ali até encontrarem lugar num sofá ao lado da sangria. Try a Little Tenderness invade o ambiente, uma delas se levanta, vai até um grupo de garotos, pede um cigarro, é convidada a dançar, a música aumenta o tom, os corpos se aproximam, a camera abre para outros casais que também dançam, que se beijam, sinta o swing oferecido pela cineasta Claire Denis, mais uma garota que está inserida definitivamente no mundo da sedução.

Serão 24 horas na vida de três jovens, sedentos por conhecer o sexo, amadores que fuma, ouvem rock, brigam entre si ou com os pais, buscam autoafirmação.  Uma base de soldados americanos fica na região, em contato com um deles o garoto dispara: “soou comunista, não bebo Coca-cola”. Eles têm a rebeldia como ferramenta, quando queremos apenas sentir, descobrir, conhecer, almejam viver, tudo aquilo que veem nos filmes, ouvem nas músicas, tudo que consomem. E Claire Denis invade esse universo, com absoluta lisura, a sofisticação que seu cinema ganharia no futuro aqui dá espaço para uma complete inserção no universo adolescente, filma toda aquela festa como quem viveu tudo aquilo e sabe muito bem as reações de garotos e garotas, as fraquezas e traquejos. Seu olhar sempre particular, busca, dessa vez, essa necessidade de perda da inocencia, nesse telefilme da série Tous les Garçon et les Filles de Leur Age (pertencente à mesma série, as semelhanças com Água Fria de Olivier Assayas não são mera coincidencia) .

Jacques Rivette – Le Veiller (1988 – FRA)

Há documentários em que não há muito a se falar, voce deve simplesmente assistir, tirar suas próprias conclusões e permitir que o filme está ali para que voce agregue mais, vá mais fundo sobre o tema. Este trabalho de Claire Denis (faz parte da série Cinéma, de notre temps) é uma constatação de sua admiração por Jacques Rivette, mas acima de tudo é um mergulho na obra do cineasta por sua própria visão. Dividido entre dia/noite, aos que se interessam pela Nouvelle Vague, pelos tempos áureos da Cahiers du Cinéma, e principalmente pelo cinema de Rivette, o documentário apresenta-se como um deleite de curiosidades. Rivette narra pequenos detalhes da “turma dos quatro”, de sua chegada a Paris, de seu processo de criação. Discute a forma de seu cinema, seus gostos e o paralelo com sua vida pessoal. A camera adentra a intimidade, e revela além de seus filmes.

 

Vendredi Soir (2002 – FRA)

A cidade-Luz parece mais iluminada do que nunca, greve nos transportes públicos, o transito caótica numa sexta à noite. Claire Denis esmiúça um carro como jamais se viu no cinema, de todos os ângulos, cada detalhe, enquanto Laure (Valérie Lemercier) tenta se distrair entre ouvir o radio, olhar o carro ao lado ou mexer nas coisas no banco de trás. A elegância é novamente presença fundamental no cinema de Denis, o uso da trilha sonora, a maneira onírica e suave com que estabelece o diálogo entre imagem e ação, cada detalhe devidamente pensando, ou mais, sentido. O radio sugere às pessoas darem carona no meio daquele caos no inverno, e Laure recebe Jean (Vicent Lindon) em seu carro. Daí em diante que Denis levanta o tom de requinte e sofisticação na mise en scène, mesmo com dois personagens aparentemente comuns, ela extrai uma enormidade de pequenas cenas onde nos sentimos embasbacados pela beleza de momentos espontâneos, de um amor delicado, dos mistérios de uma sexta-feira à noite.

Trouble Every Day (2001 – FRA/ALE/JAP)

Pessoas sofrendo de um instinto sexual tão forte que ultrapassam os limites da razão, chegam ao canibalismo, é a libido elevada às necessidades dos vampiros por sangue. O desejo como forma involuntária de satisfação máxima, o corpo fora do controle de si mesmo. Claire Denis impõe seu estilo, aqui então nada fica tão claro, a narrativa fragmentada, a abordagem às margens do tema, as feições quase indecifráveis de Shane (Vicent Gallo), o recém-casado que viaja com sua esposa June (Tricia Vessey) a Paris em busca de um cientista. Podemos sentir os movimentos musculares dos corpos, a movimentação dos pelos, chegamos ao detalhe do detalhe, nada passa inerte aos olhos da camera, muito menos a explosão insaciável do desejo representada fortemente por Core (Béarice Dalle). Não há sensualidade, o desejo é tratado de forma primitiva, necessidade básica. E Denis faz de tudo para ora esconder essa intensidade e ora demonstrar de maneira voraz, em mais um de seus exímios trabalhos a cineasta encontra todos os subterfúgios para transformar o tema em personagem principal, as sensações acima dos personagens.