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Como Nossos Pais (2017) 

Foi o grande vencedor da recente premiação do Festival de Gramado, mas teve sua estréia mesmo no Festival de Berlim. O novo drama da diretora Laís Bodanzky tem a classe média como eixo central, ou mais precisamente a figura da mulher de carne e osso. Aquela que causa identificação imediata com milhares de brasileiras que se equilibram entre a convivência em família, a guerra no mercado de trabalho e a necessidade de manter o conforto financeiro da família, além da enorme dificuldade de educar os filhos, e lidar com as crises e diferenças com o marido, cuidar da casa (não vamos nos esquecer disso) e ainda ousar ter espaço para ela mesma. Enfim, a super-heroína do dia-a-dia brasileiro.

É o personagem da vida de Maria Ribeiro, no cerne de todo esse drama, de representar a mulher da classe média brasileira, em toda a complexidade de suas fragilidades, necessidades, carências e  individualidade, mesmo que inibida pelo peso de tanta gente sob sua responsabilidade (financeira ou social). Não é fácil, e não bastasse isso tudo, o roteiro ainda prega peças nessa mulher, segredos revelados que desestabilizam ainda mais essa pessoa prestes a explodir.

E é dentro dessa claustrofobia dramática que o filme tenta reconstruir uma mulher que nem pode pensar em recomeçar. Bodanzky filma entre o íntimo e o voyeur, outro filme nacional que, nesse ano, tenta unir o popular e o autoral, com sucesso (sigo acreditando que com filmes assim que o público será levado a ver filmes brasileiros no cinema, e com o tempo partir para filmes mais “inovadores”. Ao mesmo tempo em que mantém essa narrativa de fácil dialogo, é um filme sufocante, uma personagem que não tem espaço para trégua alguma. Mesmo nos momentos em que ela parece respirar por seus próprios caminhos, ainda assim há muito peso de responsabilidades, massacrando a personagem. Pesa também momentos de diálogos artificiais, ou a referência tão clichê de Elis Regina, no momento chave da trama. Isso tudo causa irregularidade, a dificuldade em lidar com excessos, os zigue-zague entre naturalidade e artificialidade, é um filme que pede diálogos sinceros, doloridos, e essa equação é sempre difícil de se controlar perfeitamente.

Anjos do Arrabalde – As Professoras (1986) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Lembro bem da decepção em assistir ao filme, numa sessão da Cinemateca, onde havia, além de mim, apenas mais uma pessoa na plateia. Coisas do interesse pelo cinema nacional. Por outro lado, a força da memória afetiva não está nessa pequena decepção, e sim na mágica maneira com que Carlos Reichenbach pôde me fazer reviver pequenos detalhes da infância. Objetos em cena como aparelhos de TV, as estampas das cortinas, os bichinhos de pelúcia, a bolsa de manicure, um bule, a carteira. Objetos que estiveram tão presentes na minha casa, e resumem a classe média baixa dos anos oitenta, hoje artigos de museu ou de alguma decoração retrô.

O filme se passa num bairro suburbano paulistano, o foco em quatro mulheres, mais precisamente nas angústias da violência urbano-familiar, espécies de “anjos tortos” entre tantas mazelas e maus-tratos. Ele discorre apresentando essas mulheres: da manicure estuprada às três professoras amarguradas pela opressão de maridos, a narrativa retrata basicamente as desilusões amorosas e violência familiar. Não por coincidência, a cada mulher desamparada há um homem cruel, mesquinho, violento. Retrato da sociedade à época, onde a posição feminina passiva era mais flagrante que nos dias atuais.

Fácil notar o exercício de estilo de um cineasta, a preocupação de fugir a uma narrativa tradicional, o cuidado em retratar cidadãos comuns (como comuns), os traços enraizados do cinema marginal. Reichenbach flerta com a violência, coloca em cena características marcantes de seu cinema, posiciona seu público dentro do subúrbio que retrata com deliciosos movimentos de câmera. Sempre gentil e justo, Reichenbach homenageia os amigos cineastas como Luiz Sérgio Person e José Carlos Burle, que se tornam nome de escola, de hospital, manchetes de jornal e refletem parte importante da história.

O que é positivo acaba causando efeitos colaterais. A presença de Carlão, às vezes, parece maior que o próprio filme, o poder da imagem em detrimento das atuações. A câmera extenua cada imagem, o corte brusco não permite aos atores destilar mais profundamente suas emoções. Entre os eles, Clarisse Abujamra, Vanessa Alves e Ricardo Blat conseguem exprimir melhor seus sentimentos, com personagens contraditórios e cernes, que vivem cercados pela violência, marginalizados por seus entes ou por sua própria situação.