Posts com Tag ‘Claude Chabrol’

Inspecteur Lavardin (1986 – FRA)

O tom humorístico e os meios pouco ortodoxos utilizados em seu método de investigação fazem do delegado Lavardin (Jean Poiret) uma verdadeira figura, e, no fundo, sua figura é o que sustenta o filme. Quase uma tolice, uma traquinagem de Claude Chabrol. Um escritor conservador é encontrado morto à beira da praia, a maneira como Lavardin se relaciona com suspeitos e pessoas próximas traz a tona facetas desconhecidas do assassinado e outras relações estranhas dos familiares que habitam aquela mesma casa. Com o desenrolar da trama, mais interessante se torna a figura de Lavardin e não o mistério que se está desvendando, e isso é muito pouco.

Gainsbourg – Vie Heroique (2010 – FRA) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Não poderia ser mais pobre a cinebiografia desse ícone da música popular francesa dos anos sessenta. Polêmico, libertinoso, sensual, a vida do poeta judeu Serge Gainsboourg (Eirc Elmosnino) vem às telas sob a visão do cartunista Joann Sfar. Desse estilo, fábula em quadrinhos, criado por Sfar, o que melhor se salva é a fase criança, a relação com os pais e o amor/ódio pelo piano. Entra em cena um personagem imaginário do garoto, uma criação que mais parece sua consciencia mais perversa. E tal personagem flertará com ele (no filme) pelo resto de sua vida, da ascenção à destruição.

De resto, as grandes canções, as grandes mulheres e os casos amorosos, apenas caem como para-quedas e desaparecem como chuva da vida e do filme. A sensualidade das canções passa quase desapercebida, Juliette Gréco e Brigitte Bardot meras figurantes, só Jane Birkin consegue algum destaque. O que parecia impossível, Joann Sfar conseguiu perfeitamente, tirando os cigarros, a cinebiografia de Gainsbourg vem comportada e apática.

Une Affaire de Femmes (1988 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Marie e seus dois filhos pequenos lutam para sobreviver numa França sob domínio alemão durante a Segunda Guerra Mundial. Seus sonhos de cantora foram abafados pelo emprego de garçonete, num pequeno bar. E, principalmente pela luta diária para colocar comida na mesa, do minúsculo apartamento, próximo aos trilhos de trem, mesmo que formem apenas uma mísera sopa rala. Comida e dinheiro escassos, medos e inseguranças presentes, permanentemente, em toda a população. A caça aos judeus instaurada. A imensa maioria dos homens servindo na guerra, ou presos. A dificuldade é sobreviver.

Esta França caótica serve de palco, para o diretor Claude Chabrol, detalhar a história de uma mulher irremediavelmente gananciosa. Uma jovem vizinha necessita de um auxílio feminino para resolver alguns “assuntos de mulher”, após ajudá-la nesse “probleminha” de maneira totalmente rudimentar, Marie (Isabelle Huppert)  antevê a possibilidade de melhorar de vida. A necessidade das mulheres interromperem gravidez indesejada (já que não poderiam apresentar novos filhos aos maridos ausentes) torna-se  um trampolim à felicidade financeira.

umassuntodemulheres2Em completo distanciamento, e imparcialidade, Chabrol conduz a história, baseada no livro de Francis Szpiner, encontrando o equilíbrio capaz de evitar o sentimentalismo. Trata a personagem central com um humanismo que não lhe permite variar entre o heroico e o diabólico. Com o decorrer da trama, essa mulher influencia-se pelos prazeres que o dinheiro pode comprar, perde o controle sobre sua postura e ganância. Numa cena, mais alarmante, aceita o restante do pagamento, mesmo sabendo que uma mulher morreu deixando seis órfãos após passar por seus métodos.

Com seu talento inebriante e uma sensibilidade raramente vista no cinema, Huppert admira com a segurança invejável no processo de transformação de Marie, de uma simples e lutadora mãe de família, para uma burguesa preocupada exclusivamente com passeios, galanteios e artigos femininos. Fora a ausência de apreço pelo próximo, que lhe cega a capacidade de entender, de refletir.

Chabrol não discute o aborto, mantém-se alheio a posições, preferindo o tom humanístico da história. Mas o diretor não passa inerte, antes dos créditos finais coloca, propositalmente, uma frase para se refletir, que provavelmente assemelhe-se a suas convicções: “que as crianças tenham piedade daqueles que condenamos”.

Madame Bovary (1991 – FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O escritor Gustave Flaubert foi perseguido à época do lançamento de seu livro por ser considerado de conteúdo altamente imoral, desde então, várias foram as adaptações ao cinema. Claude Chabrol filmou uma das mais célebres visões da esposa entediada, durante o século XIX, entre infidelidades e luxúrias buscando a felicidade.

Emma Bovary (Isabelle Huppert) vive o dilema constantemente entre o tédio e o desejo, o casamento se torna um fardo, as boas intenções do marido em agradar acabam sempre frustradas. Insatisfeita, volúvel, triste, e com todo o conforto que a nova burguesia pode lhe oferecer, Bovary busca seus prazeres em bailes, em vestidos finos, e nos galanteios dos homens.

Emma acaba sucumbindo aos seus próprios erros na importuna tentativa de se realizar, a filha de camponeses descobre a vida de romantismo e luxúria, o céu e o inferno, a ingenuidade e a altivez levando-a ao funesto. Chabrol mantem indiferença à personagem, filma o essencial, por mais que traga o sufocante, a angústia de alguém liberando seus instintos. Madame Bovary parece deslocar o aborrecimento a tudo, mais cedo ou mais tarde. Seus amantes trazem jovialidade, sua filha é um aposto, mera boneca para apresentar às visitas.

La Cérémonie (1995 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

A abastada família Lelièvre procura uma empregada doméstica para residir na casa da família, localizada um pouco distante do centro de uma pequena cidade interiorana francesa. Com boa experiência e referências, Sophie (Sandrine Bonnaire) é contratada e rapidamente conquista, não só Catherine Lelièvre (Jacqueline Bisset) como a todos com sua eficiência.

Por mais que ela seja uma mulher um tanto estranha, muito quieta e seca, guardando segredos e um repetitivo “não sei” entre os lábios. Todos da família demonstram certa preocupação com Sophie e com reserva tentam aproximar-se, seja oferecendo consultas médicas ou disponibilizando um carro caso ela necessite, porém nada disso parece alterar a pacata e quieta Sophie que passa seu tempo livre comendo chocolate ou sentada no chão de seu quarto assistindo programas infantis na tv.

Claude Chabrol sutilmente incorpora o tom de suspense psicológico à trama, explorando minuciosamente música e posicionamentos de câmera, ao seu modo, criar ares de thriller. Chabrol ainda permeia sua história com a diferença entre classes sociais, a jovem Melinda acusa seu pai (Jean-Pierre Cassel) de fascista a todo momento, mesmo que ele demonstre zelo por Sophie. Um certo sentimento de culpa dos mais ricos em deixar os outros à margem, não oferecendo o mesmo conforto que possuem, não deixa de ser um discurso socialista vindo de uma voz burguesa que apenas vocifera, mas muito se aproveita dos confortos que o dinheiro lhe oferece.

Finalmente Sophie cria algum vínculo social ficando amiga de Jeanne (Isabelle Huppert), uma funcionária do correio muito falante, atrevida e curiosa que adora ler correspondências e saber da vida dos outros. As duas escondem passados obscuros e a amizade aflora um lado mais leviano de cada uma delas, de duas mulheres aparentemente inofensivas a dupla torna-se nada menos que diabólica. E o final apoteótico entre Mozart e o total descontrole humano eleva o clima há alguns momentos exasperantes. Baseado-se livremente no livro A Judgment in Stone de Ruth Rendell.