Posts com Tag ‘Cláudio Assis’

bigjatoBig Jato (2015) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O quarto filme de Cláudio Assis foi o grande vencedor do último Festival de Brasília. Ainda mais polêmico fora das câmeras, do que seus filmes (que são bem polêmicos também), o cineasta pernambucano vagueia sempre pela estética suja, pelo discurso crítico e provocador, pelo uso constante de palavras que causam reação na público (merda, sexo, e etc). Seus filmes fedem, e esse cheio vem imerso em discurso poético e contestador. É bem verdade que após sua bela estreia em Amarelo Manga, seu estilo autoral foi confirmado em seus demais trabalhos (Baixio das Bestas e Febre do Rato), ainda que não com a mesma contundência da estreia.

Aqui ele trabalha adaptando a biografia de Xico Sá, a fase adolescente do escritor entre sua sensibilidade pouco condizente com a aspereza do interior nordestino, e a o choque de ideias e atitudes das duas fortes figuras masculinas de sua vida (o pai e o tio, ambos interpretados por Matheus Nachtergaele). O pai prega o trabalho, o tio radialista provoca o emprego de carteira assinada, vive da liberdade e de suas historias com a indústria musical.

Big Jato é o nome da empresa de limpa-fossas da família, o pai carrega os filhos maiores para ajudarem, e entre o tempo trabalhando com o pai, e as visitas ao tio, o jovem Francisco vislumbra seu mundo, seus anseios. É o mais palatável filme de Assis, ainda que o cineasta se esforce com planos-conceituais, busque o diferente dentro da linguagem cinematográfica, a narrativa beira e um tradicionalismo que náo havia antes. Mas, a narrativa nem tem problemas, e sim sua filosofia e sensibilidade que apenas repetem outras tantas histórias de jovens borbulhando por dentro, buscando seu rumo na vida, nem que seja com a quebra de paradigmas familiares.

Febre do Rato (2011)  estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Entre amigos, tenho pregado a ausência de diretores brasileiros que conseguiram construir uma carreira, no cinema nacional mais recente, com filmes que dialoguem, que tenham unidade, que realmente apontem um autor. Cláudio Assis é uma das raras exceções em que a carreira é coerente, sólida, que de tempos em tempos lança uma nova obra que se enquadra num “padrão” próprio. E isso é positivo, gostem ou não desse “padrão”.

Febre do Rato é um jornaleco feito no fundo do quintal, sua existência não vai além da necessidade de Zizo “Poeta” (Irandhyr Santos) se expressar. Não basta a ele imprimir e entregar ao povão, ele precisa de um palco, de um microfone e soltar sua verborragia inflamada contra a condição social dos não favorecidos, ou, simplesmente, falar de amor. Calma, o discurso de Cláudio Assis não é nada panfletário, e sim libertário, anárquico, é de fazer refletir com sua própria liberdade.

Estamos novamente em Recife, Assis filma os submundos de sua cidade, é sua grande obsessão junto da necessidade de chocar. Todo em preto e branco, se o poeta é o instrumento, o foco do filme é esse grupo de amigos que vive alheio às convenções sociais mais conservadoras, e também ao caso de amor que o poeta se debruça em viver, porém a moça (Nanda Costa) nega por mais que coloque lenha na fogueira. O coveiro casado com uma travesti, as velhas que bebem e transam com o poeta, os três amigos que dividem uma casa e uma mesma mulher.

Assis agride nossos olhos, principalmente a moral de muita gente (chega realmente a passar dos limites), mas é sempre coerente à sua proposta, aos seus personagens, ao seu submundo recifense de sexo, drogas, e diversão, num mundo fétido e barrento.  De provações sexuais à rotina alcoolica maconhada, a liberdade sob perspectivas que acabam abafadas pelo modus operandi do sistema.

baixiodasbestasBaixio das Bestas (2007) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

As diversas vertentes do tema sexo, discutindo seus comportamentos na Zona da Mata de Pernambuco (e porque não expandir para as diversas zonas predominantemente rurais brasileiras). O filme de Cláudio Assis exagera na dose de violência e perversão (não que esteja mentindo), mas o desejo de chocar parece o único mecanismo que o cineasta encontrou para prosseguir com seu tema, e se fazer entender.

O mundo transpira sexo, começando pelos filhinhos mimados de fazendeiros que estudam na capital e barbarizam nos finais de semana, com os carros dos pais pela cidadela. Mergulhados em álcool e drogas, atravessando madrugadas em orgias por bordéis. Passando pelo puritanismo hipócrita do velho sustentado pelo trabalho de lavadeira da neta adolescente, e que a noite exibe a menina nua aos caminhoneiros de passagem pela cidade (de tudo que será visto, nada mais indigesto e repugnante do que esse conjunto de cenas).

Um filme irmão de seu antecessor, só que com menor contundência, e algum desperdiço de talentos (Hermila Guedes é o melhor exemplo, por outro lado Caio Blat, Matheus Nachtergaele e Dira Paes estão bem como sempre) aqui e ali debruçados em uma gratuidade nas cenas. Os homens vivem para a cachaça, as mulheres para a submissão, e o destino imperdoável a quase todos eles. Assis não nos oferece reflexão, seu filme é novamente cru e direto, a fotografia oferece sensação de lama, de logo, é nesse antro que vive essa gente, assolada por seus costumes antiquados, desumanos, egocêntricos, sexuais.

amarelomangaAmarelo Manga (2002) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Rústico, quase cru. Amarelo é a realidade de um Brasil metropolitano, que se esconde de sua periferia. Um país doente, sem cor. A realidade desses personagens está em cada esquina de nossas grandes cidades, e mesmo não sendo enxergada pelas elites, acaba apresentando seus resquícios. O filme é ambientado em Recife, mero detalhe, qualquer outra capital seria palco tão perfeito quanto.

“O Brasil é estômago e sexo”, esta é a afirmação que o filme quer move a trama, e é impossível não constatá-la ao termino da projeção. Nosso povo movido por estômago e sexo, como se fossemos ocos, falta conteúdo e sobra instinto. Tudo nesse país resume-se a busca de saciar esses desejos, a falta de educação do povo reflete em pessoas simples e deturpadas.

Peguemos como exemplo o açougueiro Wellington “Canibal” (Chico Diaz). Casado com a devota crente Kika (Dira paes). Ela é daquelas que vivem nos cultos, não fazem mal a ninguém. Seu único medo é o adultério. Perdoaria qualquer coisa, até matar, exceto traição. Nosso Canibal confia mais nela que em si próprio, mas ela é ruim de cama, boa mesmo como mulher, então ele mantém um caso. Vem a pergunta, o que é uma boa mulher, alguém respeitável que cuida da casa e da comida? Para Canibal, e outros milhares de brasileiros, é exatamente isso. Sua vida é um bom prato de comida e uma mulher boa de cama.

Este é apenas um exemplo, em vinte e quatro horas, o filme fará um pequeno retrato de inúmeros personagens, capazes de prova a teoria de que nossa vida beira à mesmice, cada um com sua maluquices e problemas. Dunga (Matheus Nachtergaele) é homossexual, daqueles cheios de frescura e trejeitos. Trabalha num hotel esdrúxulo, e é apaixonado pelo açougueiro Canibal. Sua mente diabólica planeja conquistar, a todo custo, seu amor, como ele mesmo diz: “Bicha quer, bicha faz”. No hotel mora Isaac (Jonas Bloch), um homem estúpido, que troca um pouco de maconha por um defunto, para matar seus estranhos prazeres. Da janela de seu carro acompanhamos uma cidade deteriorada, coberta de lixo pelas ruas, edificações pichadas e caindo aos pedaços.

O padre é dos mais liberais, sua igreja está fechada, mas ele continua pela redondeza batendo papo, pregando para seus “fiéis” e gastando sua sabedoria. Há também os amigos que filosofam na mesa do bar, Dona Aurora e sua eterna falta de ar, e sentimento de perseguição por um possível passado obscuro que ela tenha vivido. No meio destes e outros personagens tão reais e perturbadores vemos uma luz no fim do túnel, um pouco de sanidade. Lígia (Leona Cavalli) é dona de um boteco. Seus dias resumem-se a bêbados que pensam que seu corpo está à disposição deles, só que ela consegue enxergar sua realidade, sabe que aquilo não é vida para ninguém, mas não lhe restam alternativas. Esse país tão viciado não permite que as pessoas tentem recomeçar. Lígia é a lucidez dentro desse amarelão sem fim.

Cláudio Assis estréia na direção com muita pose de cinema experimental, sua construção de personagens é evoluída, e a narrativa de filme-painel é seca, suja. Peculiaridades do povo nordestino são apresentadas com bom humor, como na cena do bar em que o rapaz se refere à turma como “Talebans e Osamas”. O título é competente, a metáfora da cor inteligente. Não quero mais ver meu país pintado em amarelo manga.