Honkytonk Man

honkytonk-manHonkytonk Man (EUA – 1982) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Baseado na novela escrita por Clancy Carlile, e transcorrida no período da Grande Depressão nos EUA, Clint Eastwood dirige e protagoniza (junto com seu filho Kyle Eastwood) este road movie sobre um cantor country, sem grana e com tuberculose, que conta com a ajuda de seu sobrinho, ainda criança, para dirigir o carro e levá-lo a um programa de tv em Nashville que oferece um bom dinheiro.

O protagonismo é do Tio (Clint), mas as grandes transformações e possibilidades que o filme resgata são todas calcadas no garoto, na possibilidade de descobrir um mundo desconhecido, de amadurecer pela forma como o tio o trata como um igual, com poderes de decisão próprios, e até mais responsabilidade que o tio. Além, é claro da música que permeia toda a narrativa, com Clint tocando e cantando. A partir do politicamente incorreto do tio, que o garoto conduz suas decisões e se torna o verdadeiro porto seguro do irresponsável cantor e compositor que ainda busca seu lugar ao sol. Honkytonk Man é belo e triste, tal qual a canção que Red Stovall tenta gravar ao longo do filme.

Sully – O Herói do Rio Hudson

sullySully (2016 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Clint Eastwood chegou a um absurdo ritmo narrativo que você, simplesmente, presta atenção maravilhado ao domínio na arte de contar histórias. Clássico, além da maturidade, seu ritmo sobrevive sóbrio, como um instrumento que nunca desafina, muito menos sai do tom.

No recorte da vez, o curioso caso do avião que pousou sob o Rio Hudson, em Nova York, devido a problemas ocorridos após a decolagem. Da transformação em herói ao severo questionamento se sua decisão foi acertada, eis o calvário que enfrenta Sully (Tom Hanks) no exato momento em que o filme dá início. Entre flashback’s e a investigação, Clint vai e volta (até se repete algumas vezes descessariamente) nos fatídicos segundos em que a tripulação teve para analisar opções até optar pela arriscada aterrisagem.

Não é um filme diferente do que o cineasta tem feito, mas não deixa de ser outra visão humana e emocionante, que colocada num tom tão sereno, facilmente criar a atmosfera para que o público tenha laços fortes com o drama de Sully e seus passageiros. Dificil não se emocionar com os agradecimentos entusiasmados, a celebração à vida, ainda que o filme tente sustentar o suspense no julgamento da tripulação, sempre pelo prima de Sully, esse tipo de herói comum e cristalino que funciona perfeitamente na visão nacionalista de Clint.

Top 25 – 2015

Os meus 25 filmes favoritos do ano de 2015. O critério é o mesmo do ano passado, filmes vistos ao longo do ano, e que foram produzidos até 2 anos atrás (portanto, limite é 2013). Eles formatam, na visão deste blog, o melhor do panorama do cinema, com toda a subjetividade que uma lista dessas possa ter. E, novamente, o top 10 comentado tenta captar um pouco da percepção sobre estes filmes e sobre o cinema contemporâneo.

assassina

  1. A Assassina, de Hou Hsiao-Hsien
  2. Mad Max: Estrada da Fúria, de George Miller
  3. Hard to be a God, de Aleksey German
  4. Carol, de Todd Haynes
  5. Noites Brancas no Píer, de Paul Vecchialli
  6. Diálogo de Sombras, de Jean Marie-Straub e Danièle Huillet
  7. Phoenix, de Christian Petzold
  8. As Mil e Uma Noites: Volume 1 – O Inquieto, de Miguel Gomes
  9. Sniper Americano, de Clint Eastwood
  10. Spotlight, de Tom McCarthy
  11. O Tesouro, de Corneliu Porumboiu
  12. O Ano Mais Violento, de J. C. Chandor
  13. Três Lembranças da Minha Juventude, Arnaud Desplechin
  14. O Peso do Silêncio, De Joshua Oppenheimer
  15. Vício Inerente, de Paul Thomas Anderson
  16. Son of Saul, de Laszlo Nemes
  17. A Terra e a Sombra, de César Augusto Acevedo García
  18. Os Campos Voltarão, de Ermanno Olmi
  19. A Vida Invisível, de Vitor Gonçalves
  20. Um Amor a Cada Esquina, de Peter Bogdanovich
  21. É o Amor, de Paul Vecchialli
  22. 45 Anos, de Andrew Haigh
  23. Mountains May Depart, de Jia Zhang-ke
  24. João Bérnard da Costa: Outros Amarão as Coisas que Eu Amei, de Manuel Mozos
  25. Aferim!, de Radu Jude

 

A lista deste ano parece ter no amor, e na inquietude, suas vozes mais presentes. São filmes, que em sua maioria, tentam falar mais intimamente com seu público, causando reflexão ou estabelecendo conexão com o que esses corações possam reverberar. O amor é determinante no grande filme do ano, o aguardado e deslumbrante retorno de Hou Hsiao-Hsien. Tanto ele, quanto o lindo romance feminino de Todd Haynes, ofuscaram o fraco vencedor da Palma de Ouro, com narrativas sofisticadas e visualmente hipnóticas. O amor como uma âncora que afasta os protagonistas dos caminhos trilhados, a eles, pela sociedade. Num tom muito semelhante também esta o drama-romântico, do alemão Christian Petzold. Com o provável melhor desfecho do ano, seu filme vai de Fassbender a Hitchcock, quando trata genuinamente do amor e seus impactos.

Se Paul Vecchiali flerta com o cinema experimental, e adapta Dostoiévski, com seus dois personagens em encontros notívagos sobre vazios existências dos corações, o média-metragem de Jean Marie-Straub e Danièle Huillet versa sobre amor, religião, e até o tédio. Vecchiali tem o mar ao fundo, a dupla francesa o local bucólico. E em tons bem diferentes, ainda que com a semelhança do tom teatral, ambos filmes vagueiam entre o racional e o irracional.

O de Clint Eastwood está entre o amor e a inquietude. O apego à família e à pátria, e a inquietude causada pela guerra são temas latentes nesse drama de soldado. Como um todo, a trilogia de Miguel Gomes decepciona, ainda que tenha sido tão elogiada em Cannes, porém, exibidos em separado nos cinemas, o primeiro volume demonstra a força da inquietude por meio de críticas corrosivos ao cenário político português, em tom de humor debochado.

Aleksei German e George Miller criam (ou retomam) visões futuristas do caos regido pela irracionalidade. Miller e seu espantoso retorno a saga Mad Max beira a unanimidade, com surpreendentes chances reais no próximo Oscar nessa ventura alucinante pelo deserto pós-apocalíptico. Já o veterano russo recria a Europa feudal, lamacenta e exasperante, tendo na inquietude visual a grande desconstrução de seu protagonista semi-Deus.

O patinho feio da lista é o filme independente sensação da corrida ao Oscar. Mais do que um filme-denúncia, sobre acusações de pedofilia de padres católicas, Tom McCarthy realiza um empolgante estudo dos caminhos da imprensa investigativa.

 

E encerrando, os meus 10 filmes favoritos dentro do circuito comercial de 2015, sempre atrasado arrastando filmes que já estiveram no top do ano passado.

  1. Norte, o Fim da História, de Lav Diaz
  2. Mad Max: Estrada da Fúria, de George Miller
  3. Noites Brancas no Píer, de Paul Vecchialli
  4. O Conto da Princesa Kaguya, de Isao Takathata
  5. Phoenix, de Christian Petzold
  6. As Mil e E Uma Noites: Volume 1, O Inquieto, de Miguel Gomes
  7. Dois Dias, Uma Noite, de Jean e Luc Dardenne
  8. A Pele de Vênus, de Roman Polanski
  9. Acima das Nuvens, de Olivier Assayas
  10. Winter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan

Sniper Americano

americansniperAmerican Sniper (2014 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

O novo american way of life do americano médio é defender seu país contra o terrorismo, enquanto em casa uma bela família aguarda o retorno do pai herói contra os inimigos islâmicos. São conceitos enraizados após os governos de Bus pai e filho, onde o nacionalismo e a defesa nacional estão acima de tudo. É outro típico trabalho do bom e velho Clint (Eastwood), sereno e republicano, porém antenado as coisas mais íntimas da “sua gente”.

A partir da biografia de Chris Kyle (Bradley Cooper), um atirador de elite americano, que se tornou lenda, pela quantidade de mortes de combatentes inimigos durante batalhas no Iraque, Clint traz a guerra para dentro da cidade, da vida rotineira, para perto de nós. Falando ao celular com a família, disparos por todos os lados, a rua vira um campo de batalha e a esposa ouve tudo do outro lado, frágil, louca, incapaz de fazer nada, os tempos mudaram, tudo está ao alcance de nossas mãos.

Chris é o herói americano típico, se alista depois de ver na tv americanos mortos num ataque terrorista. De caráter integro, de nacionalismo puro, de virtudes únicas. Esposa (Sienna Miller), filhos, o respeito dos colegas, a precisão militar. Clint legitima a decisão dos governantes de interceder militarmente em outros países, enquanto traça o drama particular de Chris, como a dificuldade de adaptação quando longe do campo de batalha.

A posição antagônica de Clint frente a guerra-ao-terror, legitimar e ainda assim realizar um filme tão antiguerra, tem causado discussões homéricas, polêmica por todos os lados. Encontro na visão do velho Clint, o dissecar desse sonho americano: puro e ingênuo, carregado de austeridade e dramaticidade que foge ao melodrama. Por outro lado, o heroísmo exacerbado, o exagero da rivalidade entre antiradores inimigos, Clint não é perfeito, como ninguém é. Homens duros que choram por dentro, mas agem em prol de sua integridade, de suas convicções, de sua nação. É o sonho americano desmistificado, personificado pela incomunicabilidade de um herói cristalino traído por sua própria solidariedade.

Jersey Boys: Em Busca da Música

jerseyboysJersey Boys (2014 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Da Broadway para os cinemas, o musical de sucesso nos palcos chega às telas sob a direção de Clint Eastwood. Ele utiliza os mesmos atores do teatro, tenta tornar o grupo, The Four Seasons, o foco tentando a artimanha dos personagens conversando com a tela, uma forma de trazer versões diferentes da mesma história à tona. Mas, o resultado é uma espécie de versão soft de Os Bons Companheiros, com grande apelo musical.

Clint é um exímio contador de histórias, além de apaixonado por música (compôs muitas das trilhas de seus filmes). Ao tentar dar cabo de todos seus personagens, não desenvolve bem nenhum deles, seus dramas pessoais são renegados a pequenas citações, ou nem isso (Frankie Valli, que geralmente seria o protagonista, só ganha esse status no terço final, e de forma abrupta, acelerada). Clint demonstra carinho pela história, porém suaviza como se contasse para seus netos. Paira no filme todo aquele clima de reencontro após anos distante, exatamente o que acontecerá no final, Clint se coloca como um interlocutor e deixa a história contarse por si só, e isso é bem pouco.

Links da Semana

Vamos para a segunda parte do post sobre filmes que vem por ai!

Zama (de Lucrecia Martel) [Los Andes] [IndieWire] [Hollywood Reporter]

Francofonia: Le Louvre Under German Occupation  (de Aleksandr Sokurov) filmado no Louvre [Screen Daily] [24 FPS Verite] [C7nema]

Gone Girl (de David Fincher) – adaptação do livro Garota Exemplar [IndieWire] [Vulture] [Youtube]

Cemetery of Kings (de Apichatpong Weerasethakul) [Hollywood Reporter] [IndieWire] [IonCinema]

Jersey Boys  (de Clint Eastwood) [Variety] [Omelete]

April (de Vincent Gallo) [IndieWire] [Film Buff]

Meia-noite no Jardim Do Bem e do Mal

meianoitenojardimdobemedomalMidnight in the Garden of Good and Evil (1997 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Algumas vezes me pergunto o que, de tão especial, um cineasta encontra num livro, a ponto de adaptá-lo ao cinema. Essa pergunta é ainda mais recorrente ao se conhecer a trajetória de Clint Eastwood, suas posições política, seu estilo narrativo que demonstra sua maneira de ver o mundo. Por outro lado, há tanto de Clint ali que esse contraste inicial converge, pouco-a-pouco, a um denominador comum onde se encaixa perfeitamente na obra do diretor.

A primeira curiosidade (no meu caso, que já estive na cidade, mais ainda) é como a pequeninice de Savannah consegue reservar tantos acontecimentos “especiais” (sobrenaturais, chamam como quiserem), e Clint capaz, não só destacá-los, como resgatar a vida singela e tranquila. O clima bucólico e apaziguador, a praça próxima da prefeitura, a atmosfera precisa da cidade em si.

Antes de virar um filme de tribunal, a narrativa é misteriosa. O escritor (John Cusack) convidado para cobrir a festa de ricaço (Kevin Spacey), que acaba acusado de matar um marginal (Jude Law). O pragmatimo Republicano de Clint, misturado com a discussão a cerca do homossexualismo e transexuais, a sociedade moralista, são tantos conflitos internos entre diretor x cidade x personagens. Mais tarde o formalismo do cineasta se sobressai, mesmo que o fantástico, com entidades e outras esquisitices, estejam presentes, Clint mantém sua mão firme na narrativa clássica, com as críticas à justiça legal, social, e a ética pessoal, fica meio quadradão, de toda forma, é um todo que parecia tão torto e resulta tão arredondado e saboroso.