Posts com Tag ‘Corneliu Porumboiu’

A Second Game (Al Doilea Joc / A Second Game, 2014 – ROM)

Infinite Football (Fotbal Infinit / Infinite Football, 2018 – ROM)

Numa carreira ainda curta, dois documentários que envolvem futebol, são um claro indicativo da relação de Corneliu Porumboiu com o esporte. Com A Second Game, seu filme menos conhecido até aqui, entendemos que a relação com o esporte vem de berço, seu pai foi árbitro e atuou na primeira divisão do campeonato romeno.

E é um pouco disso que o filme trata, a imagem exibe um jogo gravado em VHS entre os dois maiores times do país, o Steaua e o Dínamo. O gramado coberto de neve, entre os jogadores em campo o craque Hagi, maior nome do futebol romeno nas últimas décadas.  As únicas imagens que teremos são as da partida, enquanto o áudio traz  pai e filho conversando, comentam lances do jogo, recordações. Há um teor político envolvido, nos anos 80, um dos times era ligado ao ditador Nicolae Ceausescu, enquanto o adversário ligado aos militares.

Com Infinite Football, Porumboiu retorno ao futebol e às telas. O personagem central é um amigo do cineasta, Laurentiu Ginghina, que nos anos 80 se machucou praticando o esporte e não pode mais voltar a jogar. Atualmente funcionário público, Ginghina é entrevistado pelo diretor sobre as teorias que ele criou para alterar o futebol, ou até mesmo criar um novo esporte. Em meio a suas explicações e teorias, acompanhamos um pouco de sua persona, trabalhando ou assistindo um treino de futsal, enquanto Porumboiu tenta desenvolver no subconsciente um estudo sobre a liberdade, o pensamento. Novamente usando o futebol para trazer um pouco da história de seu país, outro rascunho de paralelo entre o esporte e o governo Ceausescu.


Infinite Football

Festival: Berlim 2018

Mostra: Forum

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Os meus 25 filmes favoritos do ano de 2015. O critério é o mesmo do ano passado, filmes vistos ao longo do ano, e que foram produzidos até 2 anos atrás (portanto, limite é 2013). Eles formatam, na visão deste blog, o melhor do panorama do cinema, com toda a subjetividade que uma lista dessas possa ter. E, novamente, o top 10 comentado tenta captar um pouco da percepção sobre estes filmes e sobre o cinema contemporâneo.

assassina

  1. A Assassina, de Hou Hsiao-Hsien
  2. Mad Max: Estrada da Fúria, de George Miller
  3. Hard to be a God, de Aleksey German
  4. Carol, de Todd Haynes
  5. Noites Brancas no Píer, de Paul Vecchialli
  6. Diálogo de Sombras, de Jean Marie-Straub e Danièle Huillet
  7. Phoenix, de Christian Petzold
  8. As Mil e Uma Noites: Volume 1 – O Inquieto, de Miguel Gomes
  9. Sniper Americano, de Clint Eastwood
  10. Spotlight, de Tom McCarthy
  11. O Tesouro, de Corneliu Porumboiu
  12. O Ano Mais Violento, de J. C. Chandor
  13. Três Lembranças da Minha Juventude, Arnaud Desplechin
  14. O Peso do Silêncio, De Joshua Oppenheimer
  15. Vício Inerente, de Paul Thomas Anderson
  16. Son of Saul, de Laszlo Nemes
  17. A Terra e a Sombra, de César Augusto Acevedo García
  18. Os Campos Voltarão, de Ermanno Olmi
  19. A Vida Invisível, de Vitor Gonçalves
  20. Um Amor a Cada Esquina, de Peter Bogdanovich
  21. É o Amor, de Paul Vecchialli
  22. 45 Anos, de Andrew Haigh
  23. Mountains May Depart, de Jia Zhang-ke
  24. João Bérnard da Costa: Outros Amarão as Coisas que Eu Amei, de Manuel Mozos
  25. Aferim!, de Radu Jude

 

A lista deste ano parece ter no amor, e na inquietude, suas vozes mais presentes. São filmes, que em sua maioria, tentam falar mais intimamente com seu público, causando reflexão ou estabelecendo conexão com o que esses corações possam reverberar. O amor é determinante no grande filme do ano, o aguardado e deslumbrante retorno de Hou Hsiao-Hsien. Tanto ele, quanto o lindo romance feminino de Todd Haynes, ofuscaram o fraco vencedor da Palma de Ouro, com narrativas sofisticadas e visualmente hipnóticas. O amor como uma âncora que afasta os protagonistas dos caminhos trilhados, a eles, pela sociedade. Num tom muito semelhante também esta o drama-romântico, do alemão Christian Petzold. Com o provável melhor desfecho do ano, seu filme vai de Fassbender a Hitchcock, quando trata genuinamente do amor e seus impactos.

Se Paul Vecchiali flerta com o cinema experimental, e adapta Dostoiévski, com seus dois personagens em encontros notívagos sobre vazios existências dos corações, o média-metragem de Jean Marie-Straub e Danièle Huillet versa sobre amor, religião, e até o tédio. Vecchiali tem o mar ao fundo, a dupla francesa o local bucólico. E em tons bem diferentes, ainda que com a semelhança do tom teatral, ambos filmes vagueiam entre o racional e o irracional.

O de Clint Eastwood está entre o amor e a inquietude. O apego à família e à pátria, e a inquietude causada pela guerra são temas latentes nesse drama de soldado. Como um todo, a trilogia de Miguel Gomes decepciona, ainda que tenha sido tão elogiada em Cannes, porém, exibidos em separado nos cinemas, o primeiro volume demonstra a força da inquietude por meio de críticas corrosivos ao cenário político português, em tom de humor debochado.

Aleksei German e George Miller criam (ou retomam) visões futuristas do caos regido pela irracionalidade. Miller e seu espantoso retorno a saga Mad Max beira a unanimidade, com surpreendentes chances reais no próximo Oscar nessa ventura alucinante pelo deserto pós-apocalíptico. Já o veterano russo recria a Europa feudal, lamacenta e exasperante, tendo na inquietude visual a grande desconstrução de seu protagonista semi-Deus.

O patinho feio da lista é o filme independente sensação da corrida ao Oscar. Mais do que um filme-denúncia, sobre acusações de pedofilia de padres católicas, Tom McCarthy realiza um empolgante estudo dos caminhos da imprensa investigativa.

 

E encerrando, os meus 10 filmes favoritos dentro do circuito comercial de 2015, sempre atrasado arrastando filmes que já estiveram no top do ano passado.

  1. Norte, o Fim da História, de Lav Diaz
  2. Mad Max: Estrada da Fúria, de George Miller
  3. Noites Brancas no Píer, de Paul Vecchialli
  4. O Conto da Princesa Kaguya, de Isao Takathata
  5. Phoenix, de Christian Petzold
  6. As Mil e E Uma Noites: Volume 1, O Inquieto, de Miguel Gomes
  7. Dois Dias, Uma Noite, de Jean e Luc Dardenne
  8. A Pele de Vênus, de Roman Polanski
  9. Acima das Nuvens, de Olivier Assayas
  10. Winter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan

otesouroComoara / The Treasure (2015 – ROM) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Corneliu Porumboiu está de volta com outra comédia dramática, eficaz em seu humor peculiar, e altamente crítica à situação política romena pós-revolução de 1989. Um pai (Toma Cuzin) lê histórias de Robin Hood para embalar o sono do filme, nada é colocado ao acaso. O vizinho que lhe pede dinheiro emprestado, uma proposta tentadora. Mas, quem da classe média vive conforto financeiro nos dias de hoje?

Pronto, já estamos inseridos na situação econômica dos países do leste europeu, dentro da zona do euro. Um tesouro que estaria enterrado, desde a 2ª Guerra Mundial, no quintal da casa do avô, de um homem atualmente falido. Desesperado por 800 euros para alugar um detector de metais que auxiliaria na procura.

Por meio do humor seco de Porumboiu, se desenvolve essa caça ao tesouro. O cineasta tece essa pequena fábula moral (estão lá a corrupção do dia a dia, a aceitação de comportamentos morais incorretos, a sede capitalista, por exemplo) e política, estabelecendo as faixas de humor e de conto moral, de seu novo filme, exatamente entre seus dois primeiros filmes (À Leste de Bucareste, mais humorístico, e Polícia, Adjetivo, mais ligado à condutas morais).

Sempre com seus planos longos e fixos, em sua maioria planos gerais, que aproveitam muito bem o extracampo. Porumboiu discute, por meio de linguagem aparentemente tão simples, tantas questões e comportamentos, comprovando ser um dos grandes expoentes desse cinema romeno destacado e curioso.

Quando-a-noite-cai-em-Bucareste-ou-metabolismoCând se Lasa Seara Peste Bucuresti Sal Metabolism (2013 – ROM) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Últimos dias de filmagem, o diretor (Bogdan Dumitrache) e a atriz do filme (Diana Avramut) conversam no carro, a câmera fixa no banco de trás, só podemos ver parte da nuca deles, um beijo. Corneliu Porumboiu vem discutir as interferências do extra-filmagem num filme. O diretor que adiciona uma cena nua de sua atriz, as discussões, entre eles, sobre sexo, saúde, aspectos culturais, o cinema de Antonioni.

Sempre com longos planos de câmera fixa, Porumboiu brinca de discutir a realização em si. A gastrite do diretor, as cobranças do produtor, essa relação extra-conjugal que surge entre atriz-diretor. A dificuldade entre o filme imaginado por ele, e a forma como ela quer interpretar. São elementos que parecem peças soltas, mas que unidas demonstram a dificuldade da criação, sempre com o estilo questionador de Porumboiu, em cenas de longos diálogos que não tem medo de quebra pelo silêncio. Em seu terceiro longa-metragem, o cineasta romeno continua criando uma interessante filmografia, com marca autoral, e abordagem tão pessoal quanto de uma parte da Europa que tenta se adaptar a essa libertação de fronteiras, com tantas diferenças culturais.

policiaadjetivoPolitist, Adjectif / Politist, Adjectiv (2009 – ROM) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Deliciamos-nos no cinema com intrigantes filmes policiais de investigações e perseguições. Grandes bandidos e casos mirabolantes, lindas mulheres. Aqui é diferente, Corneliu Porumboiu esmiúça o dia-a-dia monótono do investigador Cristi (Dragos Bucur), que agora está trabalhando no caso de um adolescente, e seus amigos, que fumam maconha, e são suspeitos de tráfico de drogas.

Seria o anti-filme policial, nada de perseguições de carro em alta velocidade, tiroteios e show pirotécnicos com a câmera. Estamos dentro do voyeurismo da situação, das incansáveis horas em que Cristi enfrenta o frio, na rua, esperando que os três adolescentes fumem um cigarro nos fundos da escola, ou divirtam-se à tarde na casa de um deles.

No contexto, há também a vida de Cristi, a monótona burocracia de uma delegacia (aos poucos os romenos esmiúçam os serviços públicos do país, lembrando os hospitais em A Morte do Sr Lazarescu). Também sua relação com a esposa (em dois grandes diálogos, principalmente na discussão da música brega-romântica) e o grande ponto onde Porumboiu realmente quer levantar discussão: a ótima e interminável cena com câmera fixa e três personagens buscando no dicionário significados a fim de discutir sua conduta moral e ética. O cineasta faz de seu filme entediante um poço de autoquestionamento, de humor ácido e das pequenas reflexões que pontuam nossa rotina.

alestedebucaresteA Fost Sau N-A Fost? (2006 – ROM) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

De princípio a câmera é relativamente voyeur. São três os personagens focados, por entre cantos e portas entreabertas. Um professor constantemente bêbado, o dono de uma minúscula emissora de TV, e um senhor de idade. Retrata o despertar dos três, uma manhã qualquer. O professor acorda de ressaca e discutindo com a mulher (momentos engraçados). Uma briga entre pai e filha por ela não querer cobrir o reveillon na tv. Enquanto isso, o senhor de idade brigando (literalmente) com a TV.

Corneliu Porumboiu desenha ricamente a personalidade de cada um deles, ainda não sabemos aonde estes personagens irão se encontrar (ou confrontar). A segunda parte é uma, não diria crítica, e sim constatação, da realidade romena (extensível a de todos os países do extinto Segundo Mundo?). Num programa de tv, nossos três personagens encontram-se debatendo fatos que ocorreram há dezesseis anos. Teria ocorrido uma revolução nessa pequena cidade à leste de Bucareste antes da queda do ditador Nicolau Ceausesco?

Nesse instante o filme descamba, a câmera inquieta, porém não fica estática, o amadorismo do operador de camera, o tosco do cenário e do programa em si, principalmente nos debatedores. É um desfile de gargalhadas, as discussões entre os participantes da mesa redonda e os telespectadores que os desmentem por telefone, retratos de um país com falsos heróis e um povo cansado de ser enganado, iludido, e assistir a tudo calado.

Fico me coçando de vontade de descrever alguns momentos inesquecíveis, onde é impossível conter os risos. É verdade que estão muito mais ligados à peculiaridade dos personagens, do que a estrutura proposta por Porumboiu, e daí? O filme vive dessas pequenas riquezas não vão sair da memória. Por exemplo, a fila dos amigos esperando o professor receber o salário para que ele pagasse as dívidas, ou o velho fazendo barquinhos de papel em pleno programa ao vivo. Um filme de pequenos e toscos, porém grandiosos momentos.