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Jogo do Poder

Publicado: agosto 13, 2021 em Cinema
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Adults in the Room (2019 – FRA/GRE)

Quem conhece o cinema de Costa-Gavras não duvida de suas convicções políticas, ainda que seu cinema revigorante do passado tenha ficado para tras em narrativas recentes mais preguiçosas, o embate de suas ideias estão sempre lá. Portanto, não seria surpresa se ele resgatasse a recente história político-economica de sua terra natal, que em 2015 tomou conta da União Europeia e dos noticiários internacionais.

Sim, cinematograficamente seu filme segue nesse ritmo nada criativo da última safra de sua filmografia, basicamente aqui um filme de diálogos e mais diálogos entre políticos e economistas (portanto, chato para muita gente, no é o meu caso que lembro bem de ter acompanhado todos os preços dessa confusão financeira grega. Alguém lembra dos bancos fechados e saques diários com valor máximo limitado?).

Dito isso, o que Costa-Gavras consegue, adaptando as memória do ex-ministro greto de finanças, é reconstruir fatos (do ponto de vista do ministro) e demonstrar como a Europa ficou refém de tecnocratas que só tomam suas decisões em suas roupas sociais chiques e hotéis caros. Com toques de uma trilha sonora levemente irônica, e a cena musical final surpreendente o cineasta consegue deixar suas alfinetadas com classe.

IMG_2233A idéia é simples: conhecer todas as cinematecas do mundo. Prazo para cumprir esse plano? A vida toda. Nas próximas semanas posts de algumas que já tive oportunidade de visitar, e a promessa de a cada viagem incluir no roteiro os cantinhos de cinema mais queridos desse planeta. As cinematecas são locais de conservação e preservação de negativos, são bibliotecas do audivisual, além de desempenharem um papel muito importante da difusão de filmes novos e clássicos, resgatando filmografias e oferecendo mostras especiais. São o paraíso de qualquer cinéfilo!

De toda as Cinematecas do mundo, a de Paris é a mais famosa e festejada, por isso os posts começam por ela. Seja por sua importância política nos movimentos de 1968, pela militância cinematográfica dos grandes nomes da Nouvelle Vague, ou por sua estrutura de fazer inveja, La Cinémathèque Française é sempre a primeira lembrança quando se fala em cinemateca.

Hoje o diretor da Cinemateca Francesa é o diretor de cinema Costa-Gavras.

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Foi a primeira fundada no mundo (por Henri Langlois e Georges Franju em 1935), e em 1951 encontrou seu esndereço definitivo no 12th arrondissement de Paris (próximo ao metrô, mas longe do burburinho da região da Torre Eiffel ou da Champs-Elysées). Bem a sua frente um jardim homenageando Yitzhak Rabin. Lá dentro um café delicioso (e sempre movimentado por jovens discutindo cinema e artes), além de 3 salas de cinema (se não me falha a memória) com a mais variada programação de retrospectivas e mostras especiais. Além da costumeira loja de dvds (onde não resisti e voltei com um pequeno box do Wong Kar-Wai), livros e outros artigos do gênero.

 

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O local é exuberante, em especial o museu contando a história do cinema, principalmente pelos figurinos de grandes filmes que estão em exposição. Uma passada rápida traz uma sensação estranha de estar desperdiçando possibilidade de aproveitar tudo com mais tempo, saborear os detalhes. Se cinematecas são o paraíso, a de Paris é o Jardim do Éden das cinematecas do mundo.

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Estive lá em Fevereiro de 2013, mas foi uma passada bem rápido já que queria conhecer o máximo de Paris possível. E a Cinemateca é lugar para se frequentar diariamente, daqueles que deveriam ser lugares cativos mais frequentados que a sala da sua casa. Entre os filmes exibidos à época estavam retrospectivas de Maurice Pialat e Robert Guédiguian, além de clássicos do cinema americano. Ler o livreto com a programação já dá uma sensação de desconsolo por não poder aproveitar tudo aquilo. Mas fica a lembrança daquele local que mistura o simples da decoração com o sofisticado de cada canto que transpira cinema.

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Z (1969 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

”Qualquer semelhança com fatos ou pessoas vivas ou mortas não é casual, é intencional”; com essa proclamação inicia-se a obra máxima do diretor franco-grego Costa-Gavras, famoso por seu cinema de teor predominantemente político e de fortes convicções ligadas principalmente à justiça, à liberdade e à denúncia. Baseado no livro de Vassilis Vassilikos, o diretor narra parte da história de Gregorios Lambrakis e seu assassinato que motivou um golpe militar alguns anos depois na Grécia, Costa-Gavras deflagra assim este importante incidente político da história de sua terra natal.

Costa-Gavras filma em tom levemente documental, recria fatos usando a narrativa no melhor estilo thriller político, sem preocupar-se em grudar seu público na tela com mirabolantes tramas. Une atuações simples e diretas a um humor seco e preciso. Seu foco é mais amplo, algo distante de um filme essencialmente comercial, a vontade de denunciar leva o diretor a apontar a negligência do corpo policial e todo o envolvimento de pessoas do alto escalão do governo no assassinato de um honesto deputado (Yves Montand) oposicionista, é assim um aglomerado de situações tão conhecidas pela sociedade brasileira.

A figura do Comunismo começa a borbulhar pelo país, o movimento está sintetizado na figura de um engajado deputado. Governantes e policiais dificultam a realização de um comício e durante o tumulto o deputado é atacado por alguns militantes. Acaba falecendo no hospital. Um Juiz (Jean-Louis Trintignant) assume as investigações do incidente, não permitindo que certas influências manipulem a veracidade dos fatos.

Costa-Gavras não aponta para a ineficiência dos órgãos púbicos, cai direto na rede de interesses que estavam por trás do incidente. Com o dedo na ferida termina seu filme explicando que a letra ”Z” está relacionada com algo do tipo ”Está vivo”, algo bem próximo do que um líder morto nessas condições deixa de legado. O desejo de se obter o silêncio de vozes incômodas pode resultar em trapalhadas irremediáveis.