Posts com Tag ‘Cristian Mungiu’

Graduation

Publicado: dezembro 17, 2016 em Cinema
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graduationBacalaureat  / Graduation (2016 – ROM) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Em outro de seus trabalhos extremamente densos, Cristian Mungiu prova porque está sempre na competição de Cannes e pode ser considerado um dos grandes nomes do cinema arthouse da atualidade. O cineasta novamente não perdoa a sociedade romena, mas sua trama pode, facilmente,  ser interpretada de maneira universal, afinal, a corrupção é privilégio de toda a humanidade.

No centro da trama um médico respeitado, que se vê tentado a infringir as leis em troca de um favor que possa favorecer sua filha, num momento delicado. Estão postas as armas para a corrupção humana, em todas suas esferas. O que Mungiu faz é escancarar não só a questão de favores políticos, do dinheiro e poder comprando privilégios, mas também da corrupção e falsidade na micro-sociedade, da infidelidade às diversas mentiras que parece não prejudicar ninguém.

Quando criança, aprendemos que quanto mais se mente, mais o nariz cresce, como Pinóquio. Aqui, quanto mais corrupto, mais envolto num mar de lama infindável. É outro conto moral, dessa vez bem explícito, dirigido pelo estilo vigoroso e já bem estabelecido de Mungiu e este cinema romeno que dialoga muito na forma, mas que segue surpreendendo pelo poder de suas reflexões.

A lista dos meus filmes preferidos do ano, entre todos que entraram em cartaz no circuito brasileiro.

top 10 2013 Circuito

Além das Montanhas

Publicado: janeiro 23, 2013 em Cinema
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Além das MontanhasDupã Dealuri (2012 – ROM) 

Os cineastas romenos só podem ter feito um trato, e seguem à risca a cartilha pré-definida. Cinema rigoroso, lento, de planos fixos e que guarda finais capazes de desmistificar o tema detalhadamente desenvolvido. O boom dos romenos já passou, agora são uma realidade presente no cenário internacional, ainda assim capazes de realizar filmes surpreendentes.

Cristian Mungiu leva seu rigor estilístico a um convento, nuna zona rural da Romênia. A chegada de uma jovem não religiosa (amiga e ex-amante de uma das freiras) causa confusão, as freiras não conseguem agir normalmente, recriminam pela curiosidade. Mungiu gasta mais de duas horas entre as tentativas da visitante em retomar o romance, e na fé como combustível ao dia-a-dia das freiras. E o confronto é inevitável, chega ao limite.

A brusca mudança de ponto de vista, do mesmo fato, nos minutos finais, é chocante, crua, com uma frieza real. Absorta da questão religiosa, como se todo o peso do tabu da questão pudesse ser limado e julgado como uma questão prática. A posição cínica sob a ortodoxia religiosa, carregada de um humor negro capaz de causar gargalhadas, bate forte no tabu a ponto de torná-lo a coisa mais comum do mundo.

Amintiri din Epoca de Aur / Tales from the Golden Age (2009 – ROM)
 
O cineasta Cristian Mungiu escreveu seis pequenas lendas a cerca da Era Dourada (como era chamado pelos comunistas o governo do ditador Nicolae Ceausescu), dirigiu dois segmentos e deixou a cargo de quatro diretores de curta-metragem os demais (Hanno Höfer, Razvan Marculescu, Constantin Popescu e Ioana Uricaru). Em todos eles predomina o peso da política sob a vida das pessoas e seus efeitos nessas histórias em particular. Sem dúvida, os que despontam, são os que com a temática satírica direta às políticas governamentais, nesse quesito os políticos girando pela noite toda enquanto passa a comitiva internacional pela pequena cidade chega quase ao hilariante.

O ativista que deseja erradicar o analfabetismo numa pequena aldeia, e a confusão para ajustar a foto do ditador para a capa do jornal, também guardam esse humor ácido, irônico, seco que os romenos se especializam a cada ano. Já a segunda parte tem a ver com amor, mas sempre e formas de tentar driblar as imposições políticas que deixam o povo com escassez de alimentos e impossibilidades de maiores confortos, ladrões de garrafa, jeitinhos para se conseguir ovos, e o policial que tenta obter um porco (no mercado negro) para a ceia de Natal. Todos retratos da condição caótica de um país enfrentando os nos 80 como um burro que empacou no meio do caminho. Os dribles, as espertezas, rendem equívocos divertidos, mas, acima de tudo, apontam os absurdos tão recentes e que atualmente pareceriam improváveis (talvez o papel mais importante do cinema romeno nem seja apontar os erros do passado, mas torná-los ridículos para que não se repitam).