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First Man (2018 – EUA)  

O que estamos acostumados ao ver versões cinematográficas do homem no espaço é o glamour de ser astronauta, de ver a beleza da Terra, e flutuar numa espaçonave através da diferença de gravidade. O que Damien Chazelle nos proporciona é outra experiência. Com seu cinema sempre marcado pelo apuro técnico, o expoente cineasta americano mergulha em espaço claustrofóbicos, na força do som, e planos fixos e tremedeira louca para dar a sensação mais precisa do que foi a corrida espacial dos anos 60.

No centro de tudo Neil Armstrong (Ryan Gosling), na pele do personagem quieto, introvertido, que carrega uma espécie de vazio existencial que pode ser explicado por suas angustias, o drama do luto da filha e o peso da expectativa e responsabilidade de sua missão na NASA. Chazelle não dá conta de suas complexidades, prefere o silêncio, o afastamento, trabalhar com sua figura fechada ao invés de buscar respostas.

Enquanto isso, seus filhos e sua esposa (Claire Foy) vivem as expectativas de Apollo 11. Os EUA e os Soviéticos correm para feitos antes de seu oponente, e os EUA questionam os acidentes e mortes durante os anos de corrida espacial. Está tudo lá no filme, Chazelle está interessado nisso tudo? Aparentemente não. Ele quer mesmo é a fotografia granulada, as expressões opacas de Gosling, a visão do espaço por uma fresta de janela, ou detalhs do cubículo onde mau se pode movimentar por onde os astronautas cruzam o espaço. Chazelle está preocupado com a ciência, com o realismo, e por isso gasta mais de 140 minutos com essas idas ao espaço de maneira tão pouco glamourosa, talvez mais romântica por essa possibilidade de resgatar os momentos e menos questionar os passos. Peca quando tenta dramatizar, mas, pelo menos escapa das armadilhas de dar resposta para tudo (apenas algumas).


Festival: Veneza 2018

Mostra: Competição

lalalandLa La Land (2016 – EUA)  estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

De vez em quando um novo musical traz a sensação de frescor ao cinema, e a pergunta: será que os musicais podem voltar dessa vez? E o filme passa, o momento passa, e os que odeiam musicais respiram tranquilizados. Mais que qualquer outro gênero, o musical talvez tenha sido o que mais envelheceu, ou o que menos consegueu dialogar com o público moderno, ao mesmo tempo em que seja o que mais exige dos atores. É curiosa essa relação, e talvez por isso, alguns filmes sejam tão bem recebidos, de vez em quando.

Damien Chazelle já tinha a música como tema em seus dois trabalhos anteriores, Whiplash o mais conhecido. Agora, realiza uma brincadeira de trazer ao tempo presente, personagens que poderiam estar, facilmente, nos anos 50. Carregam seus celulares, mas se vestem como na época, combinam de ir ao cinema ver filme do James Dean. Ele (Ryan Gosling), então, ama o jazz, e tem como lema de vida, ser dono de um clube daqueles tempos.

Dividido por estações do ano, o filme conta a história do casal, poderia ser um filme de Woody Allen (Emma Stone como protagonista só corrobora com a semelhança) no espírito, mas a trama repete, em muito, o musical clássico francês Os Guarda-Chuvas do Amor. Não que isso seja problema algum, mas lhe escapa a orginalidade.  Ficar procurando problemas no filme talvez seja uma tarefa desnecessária, aparentemente Chazelle está tomado pelo clima romântico platônico (tal qual um musical deve repirar) e realiza um trabalho impecável tecnicamente, além de garantir bons sorrisos no rosto em qualquer um da plateia.

Planos-sequencias que dão ritmo à narrativa, aliados a detalhes que flertam com o sensível, e dois atores na crista da onda do cinema mundial. Eles cantam, em alguns momentos encantam, em outros nem tanto. Stone no típico papel que tem atuado, e Gosling com cara de um bronco-bonzinho, romântico enrustido. O que Chazelle não consegue tão bom é manter suas cenas além da mecânica planejada, é tudo tão bem ajeitadinho, mas no miolo essa tentativa de provar o amor infinito do casal, o nasceram-um-para-o-outro, está nas imagens, nem sempre no coração. Excesso de engenharia para um musical romântico.

Chega como favorito ao Oscar, nessa altura da temporada, e realmente vai estar entre os melhores filmes do ano, e todos estes senões citados acima podem ser excesso de rigor, mas La La Land não transforma em amor inflamado todo este romance, de altos e baixos, como todos os romances verdadeiramente são, que Chazelle tenta nos vender. Não se acanhe, entre romance e melancolia, o despertar desse relacionamento e o desfecho seminal, já fariam o filme valer muito a pena. Ainda vou me pegar, por um bom tempo, cantarolando City of Stars, assim, meio que de repente, a rat-tat-tat on my heart.

WhiplashWhiplash (2014 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O jovem cineasta Damien Chazelle carrega no currículo dois longas-metragens, ambos envoltos ao mundo musical. Whiplash tem muito de autobiográfico, o próprio Chazelle estudou bateria na escola e teve um professor, linha-dura, que inspirou o personagem marcante Fletcher (J.K. Simmons). Grande vencedor da última edição de Sundance, o filme é uma gota de esperança no festival de cinema indie americano. Há a questão da rivalidade, da vingança, até mesmo o romance visto de forma fofa, por personagens atrapalhados. Ainda assim, há uma alma que desponta do filme, que se torna o mais importante dele.

É a musicalidade. A admiração de Chazelle por música pode ser sentida, seja nos planos fechados nos instrumentos, seja na necessidade doentia de Andrew (Miles Teller) se tornar alguém de destaque na música. O filme inspira essa musicalidade, dá conta dos pormenores da profissão, mas está mesmo interessado em mergulhar na sonoridade, em fazer o público sentir a música. Dessa forma, enquanto Andrew e Fletcher tem seu relacionamento particular, a relação conturbada entre professor x aluno, a musicalidade sobressai quase assumindo a figura de um personagem.