Posts com Tag ‘Daniel Burman’

omisteriodafelicidadeEl Misterio de la Felicidad (2014 – ARG)

O cinema de Daniel Burman se estabeleceu, definitivamente, pela comédia dramática facilmente acessível. Seus filmes são familiares, e temas universais (mesmo que carreguem tanto da cultura argentina, é quase um made-in-exportação da cultura portenha). Quando surgiu, com Abraço Partido, foi altamente celebrado e premiado em Berlim. Mas, com o tempo, seu cinema se tornou preguiçoso, fácil demais. Tão inofensivo que nem é capaz de desagradar totalmente.

Dessa vez, o foco está em dois sócios, ultra-amigos, até que um deles desaparece e traz questionamentos sobre felicidade x conforto financeiro, e sobre liberdade, ou sair da zona de conforto. É bonito notar a dificuldade, e o processo, de percepção das motivações pessoais. Porém, é tudo feito de maneira tão bonitinha, aproximações amorosas e trilhas açucaradas, que comprova que Burman apenas está jogando para sua torcida e deixou seu melhor cinema há uma década.

Dois Irmãos

Publicado: janeiro 19, 2011 em Uncategorized
Tags:,

Dos Hermanos (2009 – ARG)

De repente o equilíbrio dos filmes de Daniel Burman caiu assustadoramente, depois de bons filmes (apenas bons) como Abraço PartidoAs Leis de Família e até o divertido Todas as Aeromoças Vão para o Céu, além de um processo cronológico de observação da estrutura familiar (relação pai-filho, casamento e filhos pequenos), além do tema dos Judeus argentinos, o cineasta pulou para a terceira idade em Ninho Vazio e neste Dois Irmãos. E perdeu a mão completamente, este último chega a ser constrangedor tamanho equívoco de personagens e situações.

A história do irmão pacato, apegado por demais aos familiares (mãe e irmã, sim Burman segue fiel ao tema família), enquanto a irmã, ofensiva corretora de imóveis, invejosa destruidora da paz familiar, uma manipuladora incontrolável, não oferece grandes resultados dramáticos. Querer corrigir a personalidade da irmã é tarefa ingrata demais ao filme, e esse anseio de via teatro trazer alguma aventura ao pacato senhor também surte efeito algum. Por isso o filme roda, roda, e acaba sempre com os dois na casa uruguaia, um querendo se livrar do lugar, enquanto o outro toma aquilo como seu refúgio incontestável.

Ninho Vazio

Publicado: janeiro 29, 2009 em Uncategorized
Tags:, ,


El Nido Vacío (2008 – ARG)

Daniel Burman surge com uma daquelas comédias dramáticas de personagens simpáticos e divertidos. Ledo engano acreditar que seus temas preferidos deixaram de ser debatidos, religião (judeus na Argentina) e família são o centro novamente. A mudança central é a idade (e consequentemente os dramas) do protagonista. Um escritor cinquentão sente dificuldades em se adaptar à esposa que deseja recomeçar a estudar na faculdade e demonstra vontades de uma vida agitada enquanto ele busca mais tranqüilidade. Em contrapartida, sua libido anda aguçada constantemente por mulheres mais jovens.

Também, a distancia dos filhos, que já não são mais crianças, e por isso têm suas escolhas, seu desejos, aventuram-se pelo mundo e passam cada vez menos tempo com os pais. Burman cria uma brincadeirinha e nos divertimos com as travessuras desse senhor metódico e racional que nega o novo, e no fundo queria apenas que o tempo parasse naquela época em que a família vivia ao seu redor, com as crianças brincando pelo tapete e todas as decisões ao seu alcance. Trata-se de um filme engraçadinho, Burman talvez não saiba lidar com dramas que fogem de seu cotidiano de vida, e por isso não passa dessa sensação de brincadeira.

 
Derecho de Familia (2006 – ARG)

Daniel Burman novamente numa crônica familiar, e novamente retratando uma família judaica. Dessa vez Ariel é um homem metódico e acomodado, buscou a mulher com quem almejou casar-se, buscou o emprego que lhe daria conforto, buscou a mais cômoda proximidade com o pai que lhe fosse possível (proximidade bastante distante inclusive). Até frisa numa passagem do filme pagar uma escola cara para não ter que participar de tudo aquilo que a escola deseja que os pais participem.

De forma contida, amistosa e bem-humorada, o filme traça uma visão extremamente masculina de se encarar casamento e relacionamento familiar, a forma ideal para um homem comum viver nessa bolha de laços e relações. O não se envolver bastante, o não participar dos problemas do dia-a-dia, o não se preocupar. Mas Ariel é um cara especial, (acomodado, mas especial), e quanto sente-se pressionado busca em seu estilo desengonçado as armas necessárias para enfrentar seus desafios, sejam eles aproximar-se do filho, seja demonstrar ciúmes da esposa. E assim Ariel, entre acomodações e atitudes, ama sua família, do seu jeito, e nos oferece um filme rico nesse ambiente familiar, nesse relacionamento eternamente problemático (e ainda assim delicioso), e prova que essa redoma criada por Ariel para brindar os incômodos acaba se mostrando um escudo contra as coisas que lhe farão o verdadeiro bem.

El Abrazo Partido (2004 – ARG/FRA/ITA/ESP) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Jovem pretende tirar sua cidadania polonesa, para mudar-se, e fugir da crise que assola a Argentina. Essa frase não passa de uma grande papagaiada, sinopse rala, daquelas que fogem do tema do filme com o intuito de conquistar interessados no público cinéfilo. Não que esses assuntos não estejam inseridos no contexto do filme, pois estão, mas eles são adjetivos que qualificam e enriquecem a obra e o tema.

O tom é de comédia para tentar ser mais atual, de cara pinta-se um retrato da situação dos imigrantes que se fixaram pela Argentina (na verdade no Cone Sul) no fenômeno da Segunda Guerra Mundial. Uma galeria decadente mantém as mesmas lojas e os mesmos donos há quarenta, cinqüenta anos, vendendo produtos antiquados para um público conservador. Ariel (Daniel Hendler) é filho de uma vendedora de lingerie nessa galeria, o rapaz quer a todo custo tirar sua cidadania polonesa e conhecer a Europa. Seu pai largou sua família há mais de vinte anos (sem maiores explicações) para lutar na Guerra de Yom Kuppur e nunca mais voltou.

Ariel mantém uma curiosidade aguçada sobre o pai e os motivos que o levaram a abandonar a família, mas o jovem transveste essa curiosidade em um ressentimento inflexível. Se a amargura com o pai é o tema central, outros dissabores e peculiaridades circundam Ariel, seja o arrependimento de ter se separado da namorada perfeita, seja a estranha relação que mantém com uma fogosa quarentona que mantém na galeria uma Lan House apadrinhada por um senhor de idade. A impaciência no trato com os familiares mais velhos, como mãe e avó, o desprendimento das raízes culturais e religiosas. Coisas tão típicas dos jovens que não ligam para certos valores, que acham que tudo não passa de besteira.

O diretor Daniel Burman realiza um filme gostoso de assistir, mesmo com sua câmera deveras excessivamente agressiva. Levemente divertido, repleto de verdades corriqueiras e focado num tipo de crise familiar comum. Esse desentendimento entre pai e filho, essa barreira criada pela intransigência, o choque entre o pensamento do novo e o do velho. Infortúnio são alguns dos apêndices que servem apenas para tornar folclórica a história e seus personagens, o irmão de Ariel e seu fiel escudeiro Ramon são como ancoras que não deixam o filme correr. Trazem uma brisa de humor, que mais atrapalha do que ajuda.

É falso dizer que o filme discute a crise Argentina, serve mais como documentário de como alguns imigrantes pararam no tempo e não conseguem adaptar seu comércio a nova realidade global. Ariel desfila entre esses personagens lisonjeiros, e seu personagem tinha muito mais a ser explorado. Além da fúria paterna ele possui algo explosivo e um olhar jovial que poderia muito bem apontar hiatos. Por fim acaba meio como mamão com açúcar, não desaponta, mas também não atinge longos vôos.