Posts com Tag ‘Daniel Day-Lewis’

Phantom Thread (2017 – EUA) 

Os opostos se atraem é uma daquelas máximas que os românticos se apegam para explicar, o que nem sempre pode ser explicado no amor. Não é bem isso o que resume o relacionamento entre o estilista Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) e sua musa, Alma (Vicky Krieps), está mais para algo doentio e ao mesmo tempo que os tire da zona de conforto,que provoca e confronta, por mais que viver assim possa não ser tão sadio.

A inspiração de Paul Thomas Anderson veio do designer basco Cristóbal Balenciaga, conhecido como O Arquiteto da Costura, e o cineasta americano se coloca aqui como um arquiteto do cinema, tamanha sua preocupação com que controla cada elemento e cada emoção em cena. Um conto sobre a mascunilidade em tempos em que o feminismo ganha espaço, mas é uma visão critica esse mundo em que o masculino dominante podia abusar do chamado sexo frágil, o cineasta vende exatamente o oposto, numa casa onde um homem lidera tantas mulheres, e é dominado simultaneamente.

O filme é silencioso, tal qual Woodcock leva cada movimento de sua vida, é possível ouvir a cada vez que a xícara toca no bule durante um café da manha, e esses momentos são importantes porque há significado em mostrar a elegância o quão meticuloso ele é. Enquanto isso, a destrambelhada garçonete o atrai e o enlouquece por não aceitar a passividade como única forma de sobrevivência.

Um romance que é quase um filme de terror, um jogo psicológico de atração e obsessão. De um lado o egocêntrico, a estrela intocável, o eterno garoto ingênuo em emoções e no trato com os demais. De outro a mulher provocadora, inquieta, que não aceita calada o que tentam lhe impor, mas que se permite alimentar esse fascínio pelo frágil homem forte. Com atuações (não só Day-Lewis e Krieps, como Lesley Manville como a irmã dominadora) e trilha sonora impecáveis, e um raro domínio da luz nos ambientes fechados, Trama Fantasma é um hipnótico experimento de um tipo de relacionamento opressivo, tóxico e instigante, um vício da qual não se consegue superar.

lincolnLincoln (2012 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O problema do filme é Steven Spielberg. Há Spielberg demais no filme, e isso inflama tanto o roteiro, a trilha sonora, a distancia narrativa entre dois nucleos (Casa Branca pacata, Congresso inflamado), que essa busca pelo filme “sério” cria um frankenstein da história americana.

Primeiramente, o filme é sobre a 13ª Emenda, não sobre Abraham Lincoln (Daniel Day-Lewis). Ele é o protagonista por colocar seu prestigio, e força política, na aprovação dessa emenda, que resultava na abolição dos escravos (na verdade ia além disso). O intuito era colocar fim na Guerra Civil que assolava o país. Não há participação dos negros nesse processo (da forma como está no filme). Há um congressista (Tommy Lee Jones) que insiste nessa emenda há décadas, e Spielberg consegue estragar tudo quando entra na casa dele. Fora isso, todo o poder do governo em negociar com congressistas para obter sua aprovação.

É um filme sobre os mecanismos políticos da época, permeado com a figura de Lincoln entre suas relações familiares, e sua pausa para narrar “causos”, a quem quer que fosse. Se a dose dramática está distante do roteiro, Spielberg abusa de John Williams preenchendo qualquer espaço que encontre – chega a causar náuseas. Dessa forma temos um Lincoln apresentando à maneira de Spielberg, um momento crucial da história mundial transformado em filme de tribunal, e dezenas de cenas cansativas e nada inspiradas que alongam, desnecessariamente, toda essa ode aos meandros políticos do século XIX.

emnomedopaiIn the Name of the Father (1993 – IRL/ING)

O drama da familia Conlon é tão absurdo que discorrer sobre ele é como chover no molhado, a história de transformar Gerry Conlon (Daniel Day-Lewis) e seus familiares em bode expiatório a fim de acalmar a opinião pública e proteger a polícia diante de sua ineficiência em proteger os cidadãos dos ataques terroristas do IRA (naquela época os noticiários eram tomados pelos protestos à bomba do grupo irlandês) é mais que cinematográfica, era mais que urgente à época.

O irlandês Jim Sheridan com seu estilo bastante convencional e seu cinema de pegada política deixa que a história fale por si, transforma seu filme num drama de presidio e tribunais. Começa bem com a Belfast tomada por marginais e terroristas, as ruas como campo de guerra e a população parceira do IRA. Estão no roteiro o conflito pai-filho, a fibra da luta por justiça, a corrupção policial (aqui a corrupção moral), e o peso de uma advogada habilidosa e determinada (Emma Thompson).

Todos elementos capazes de criar empatia com o público, se não é um filme apelativo ao melodrama, está carregado de seus temas, oferecendo assim ao público um terreno conhecido. Pouco importa, a história fala realmente por si, há momentos extremamente emocionantes, principalmente em sua fase final, emoção fácil, ainda assim flamejante.

The Unbearable Lightness of Being (1988 – EUA)  estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Há toda a questão libertária presente no texto de Milan Kundera. Os personagens, cada um a seu modo, buscando sua própria liberdade interior, enquanto isso, as movimentações políticas cessam com parte dessas liberdades. Tchecoslováquia, o ano de 1968 em Praga é dos mais inquietos, discute-se política nas esquinas. O médico Tomas (Daniel Day-Lewis, fala-se de um filme erótico, há mulheres nuas e insinuações da prática sexual, mas todo o erotismo do filme está presente no olhar de Day-Lewis, aqueles olhos exalam o erotismo) quer mais é divertir-se com o sexo, sem compromisso, apenas o desejo pelo desejo.

As duas mulheres que formarão o triângulo amoroso também vivem seu jeito de buscar liberdade. Sabina (Lena Olin), talvez seja a materialização da liberdade: sexual, profissional, um espírito livre. Já Tereza (Juliette Binoche) vive uma busca incessante, primeiro libertar-se de uma vidinha banal, e da própria mãe. Depois permitir-se a liberdade profissional, sem amarras, fotografar sua própria visão, sua arte.

A vida dos personagens não passa alheia às transformações políticas, os tanques de Guerra Soviéticos invadem Praga, as ruas tomadas por desespero, o diretor Philip Kaufman cria o clima sem exagerar na violência, sem forçar a barra, de maneira galante, quase como se fosse pelas lentes de Tereza, ele registra a tomada das ruas, a fuga da população para a Suíça. O porco que bebe cerveja, o amor que ultrapassa as fronteiras da fidelidade (e faz doer), a dança com um homem qualquer. Pequenos sinais de liberdade enquanto a história desses amores segue, altiva, vibrante. Liberdades oferecem escolhas, e estas, nem sempre te retribuem com a mesma liberdade, porém você sempre tem novas escolhas à sua frente, e para esses personagens, coragem nunca lhes faltou.

Sangue Negro

Publicado: fevereiro 25, 2008 em Cinema
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There Will Be Blood (2007 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

A ambição como objetivo de vida, único intuito de viver. Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis espetacular, novamente) é um prospector. Ele trabalha arduamente em seu ofício de fazer jorrar petróleo EUA à fora. Quer fazer fortuna, para quê? Para depois fazer mais fortuna, e então ficar mais rico. Segundo suas próprias palavras, ele odeia pessoas, não mantém vínculos, não sabe o que é amar, não há mulheres em sua vida. Uma vida de ambição.

De outro lado há o jovem pastor, que num primeiro momento pode parecer justo e correto, para adiante mostrar que sua ambição é tal qual a de Plainview (só é mais amistoso com as pessoas). No frigir dos ovos os dois passam como tratores sob todos aqueles que se opõe (ou de alguma forma atrapalham suas ambições).

Não há falas nos primeiros quinze, talvez vinte minutos (apenas um grito de “não”). Paul Thomas Anderson desde este início demonstra todo o virtuosismo de sua direção, seja pela magnífica forma de nos mergulhar nos primórdios da extração do petróleo (e todo o seu processo manual, asqueroso, pegajoso), seja pela habilidade em unir todos os elementos técnicos num resultado deslumbrante (principalmente a fotografia e a trilha sonora do baterista do Radiohead que funciona perfeitamente com a aridez da paisagem, com as torres de petróleo em chamas, com a frieza do protagonista).

Se nos envolvemos com a história épica do desenvolvimento da extração do ouro negro, a grande motivação de Sangue Negro é Daniel Plainview e sua ânsia incessante, sua loucura desenfreada, sua visão capitalista ultrapassando os limites do lado profissional. É como se Plainview não tivesse uma vida profissional e pessoal que pudessem ser separadas, ele fez uma opção e como toda escolha radical o obriga a viver as conseqüências. E estas vão além do distanciamento da sociedade, para uma tênue relação entre o sangue e o petróleo.