Posts com Tag ‘Darío Grandinetti’

Rojo (2018 – ARG) 

Benjamin Naishtat surge como um cinema bem interessante dentro da cena argentina, por mais que seus dois trabalhos anteriores empolgavam mais na proposta do que no resultado final. Bem Perto de Buenos Aires e O Movimento, flertava com a atmosfera de terror ou do western, sempre dentro de uma marca bastante autoral. Segue com esse cinema diferente aqui, dessa vez em ritmo de thriller, nos oferece duas primeiras cenas curiosas. Na primeira, a porta de um casa e um entra e sai de vizinhos, móveis carregados, algo muito estranho. Na seguinte, uma briga, inusitada, num restaurante.

Esses dois momentos quase parecem não convergir com o restante da história, em grande parte da narrativa, até finalmente serem reincorparadas. Até lá estamos seguindo a rotina de um advogado de uma pequena cidade argentina, já sabendo o que se passou e o que ele carrega de segredo. Naishtat preocupa-se muito com a atmosfera de mistério quando um investigador chega a cidade para descobrir o paradeiro do outro envolvido na briga no restaurante.

Aonde toda essa atmosfera vai nos levar que é bastante questionável, a estranheza do embate entre investigador e advogado nos leva a uma festa ou ao deserto, em reações descontrolados na praia. Mas, Naishtat não parece saber, tão bem, o que fazer com tal atmosfera. A parte final não quer ser onírica, mas te um quê, e o resultado final é um avanço em sua carreira.


Festival: San Sebastián 2018

Mostra: Competição

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relatosselvagensRelatos Salvajes (2014 – ARG) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Imensa maioria do público brasileiro quer mesmo saber do novo filme com Ricardo Darín, mas, além dele há muito mais na volta do diretor Damián Szifron. Uma comédia debochada, por oras tola (Tempo de Valentes e El Fondo Del Mar, suas comédias anteriores já pecavam pelo ingênuo), regada a sangue e violência. O tema é vingança, seis pequenas histórias que dialogam pelo tema, além carregado tom humorístico. Szifron busca situações do cotidiano, exemplo disso é a história em que Darín é o protagonista, e enlouquece pela burocracia e os desmandos do serviço de multas de trânsito de Buenos Aires.

Brigas de trânsito, provocações, ressentimentos do passado que explodem como um barril de pólvora. Szifron eleva as situações à máxima potência, extrai do público gargalhadas ao expor nossos comportamentos caricatos. É a nossa selvageria levada à última consequência, apenas com uma roupagem agradável para uma sessão de cinema (em grupo melhor ainda, as risadas contagiam), e nem nos damos conta do quanto de nós está representado naqueles personagens. A hilária festa de casamento que se torna um pesadelo, Szifrón extravasa pelo sádico, pelo humor negro, um diálogo fácil com o público, personagens vivem seus “dias de fúrias”. O diretor argentino joga fácil para a torcida.

falecomelaHable con Ella (2002 – ESP) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Deixando um pouco de lado as mulheres e mergulhando no universo masculino. O diretor Pedro Almodóvar começa contando a história de Benigno (Javier Cámara), um enfermeiro que trabalha exclusivamente para Alicia (Leonor Watling). A moça está em coma há quatro anos após sofrer um acidente automobilístico. O enfermeiro cuida de sua paciente com dedicação extra, entrega-se em massagens com cremes, conversa com ela, lê muito, facilmente percebe-se que ele é, completamente, apaixonado pela moça. Em flashbacks o filme nos conta que essa paixão é anterior ao acidente, e que ele vive um estranho sentimento de satisfação por ter encontrado uma forma de aproximar-se dela.

O filme passa a contar a história do jornalista Marco (Darío Grandinetti) e da toureira Lydia (Rosario Flores). Ela tornou-se muito famosa por seus feitos nas arenas e acabara de terminar seu relacionamento com outro toureiro quando conheceu Marco, que queria apenas uma entrevistar. O romance é interrompida quando Lydia sofre um acidente na arena e também entra em coma. Lydia é internada no mesmo hospital que Alicia. Marco e Benigno tornam-se amigos. Começa a exploração, de Pedro Almodóvar, dos sentimentos masculinos. Marco é introvertido, não sabe demonstrar sentimentos. Benigno expressa tudo o que sente, dedica-se de corpo e alma, ao seu amor.

Almodóvar continua trabalhando com roteiros amplamente arquitetados, cheios de nuances, encontros de personagens, revelações. As mulheres são as grandes inspirações destes personagens masculinos. O diretor espanhol usa seu talento para inserir elementos que antes não eram encontrados em seu cinema, como o delicioso filme (dentro do filme) mudo, ou a emocionante cena de Caetano Veloso cantando Cucurucucu Paloma (talvez o grande momento).

As cores fortes seguem presentes, mas com menor intensidade. É um Almodóvar delicado, ele resgata a feminilidade entre personagens masculinos. Há encanto da maneira como eles tratam de suas amadas, amorosos ao extremo. há momentos que beiram o brilhantismo, principalmente quando os fatos são clareados, as verdades veem à tona, e descobrimos detalhes transformam príncipes em vilões. As citações ao Brasil não param em Caetano, menciona-se Tom Jobim e há uma música lindamente cantada por Elis Regina logo no início.