Mapa para as Estrelas

kinopoisk.ruMaps to the Stars (2014 – CAN/EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Fico imaginando como teria sido recebido o novo filme de David Cronenberg nas mansões de Hollywood. Tanta gente da indústria citada nominalmente, ou representada, por esse veneno corrosivo do cineasta que traz as estranhices para próximo do público. Seu novo filme não perdoa nada da capital do cinema americano, da hipocrisia das relações sociais, aos devaneios emocionais e promiscuidades sexuais.

Adolescentes dependentes químicos, pessoas desequilibradas e violentas, relacionamentos quebradiços, aspirantes da indústria de cinema que trabalham servindo aos ricaços. Cronenberg é incisivo, cruel. Seu filme é irregular, de formas geométricas imperfeitas. Obtuso e perturbado.

Julianne Moore vive a atriz em crise, desesperada por entrar no filme que sua mãe atuou (décadas atrás), e apresenta todos os desequilíbrios emocionais que podemos imaginar. John Cusack é o terapeuta das estrelas, seu filho (Evan Bird) é o problemático astro adolescente, alcoolatra, dependente químico. A família tem membros ainda mais transloucados. Nesse tabuleiro que Cronenberg brinca de relacionar os demais personagens, do motorista de limousines (Robert Pattison, novamente nesses carrões num filme de Cronenberg), a misteriosa garota de luvas (Mia Wasikowska), a mãe fragilizada (Olivia Williams).

É a desglamourização de Hollywood baseada em suas próprias necessidades de construção. Festas, vaidade, esquisitices, dinheiro farto, poder. Cronenberg não lida com os temas, ele os expõe impiedosamente, demonstrando podridão onde tenta se vender glamour. Loucura onde deveria ser o mundo dos sonhos. Nos entrega um mapa cruel, nefasto

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Cannes 2014: Destaques e Favoritos

festivaldecannes_2-650x400Em poucas horas começará a cerimônia de premiação da 67a edição do Festival de Cannes. Diferentemente dos últimos anos, este ano, este blog, não postou a repercussão diária das exibições, é muito trabalhoso e não deu tempo. Isso não quer dizer que o festival não tenha sido acompanhado, bem de pertinho. Agora que a imprensa já foi apresentada aos 18 filmes em competição e as mostras paralelas já conhecem seus premiados, podemos ter algumas expectivas, além dos favoritos que são apontados em diversas listas na internet.

Não parece ter sido uma edição de filmes que nos deixam ansiosos para conferir, mas há destaques bem interessantes entre monstros do cinema, ou novidades desconhecidas. Para quem gosta de quadro de cotações, vale uma olhada nesse link aqui, com críticos de muitos países, ou da revista francesa Le Film Français.

As frustrações começaram pelo filme de abertura, Grace de Monaco (Olivier Dahan) não agradou ninguém. The Search (Michel Hazanavicius) foi o mais vaiado com seu drama sobre a Chechenia, impressão de que o diretor de O Artista é realizador de um filme só. Captives (Atom Egoyan) foi outro que ninguém entendeu o que estava fazendo na competição (e eu não entendo porque ele sempre está lá), o filme é sobre sequestro infantil e pedofilia.

saint-laurent-cannes-2014No bloco dos que dividiram as opiniões estão: Saint Laurent (Bertrand Bonello) cinebiografia do estilista francês, com foco na relação com drogas e sexualidade. Jimmy Hall (Ken Loach) foi outro que passou quase batido, sobre um irlandês reabrindo um salão de dança, no meio de uma crise financeira-política, Loach e sua eterna visão socialista. A sensação é que erraram no argentino, Jauja (Lisando Alonso) acabou não premiado na Un Certain Regards, mas foi um dos filmes mais celebrados do festival, porém, na competição estava Relatos Salvajes (Damian Szifron), que até agradou, com suas 6 tramas cheia de atores argentinos conhecidos e humor negro.

Maps to the StarsAinda dividindo opiniões, mas já com alguns elogios que podem levar os filmes a serem lembrados na premiação ficaram: Foxcatcher (Bennet Miller), história real de um milionário e dois medalhistas olímpicos, e um assassinato. Os elogios as inesperadas grandes atuações de Channing Tatum e Steve Carrel foram entusiasmados (desde já um dos postulantes ao Oscar). Maps to the Star (David Cronenberg) ninguém aposta que a sátira sobre Hollywood será premiada, mas o filme agradou muita gente. The Homesman (Tommy Lee Jones) é outro western do diretor, dessa vez com foco em três mulheres cruzando o velho-oeste. O último dia de competição trouxe Clouds of Sils Maria (Olivier Assayas) e as reverências, inesperadas, a atuação de Kristen Stewart (crítico Guy Lodge acha que se ela ganhar a internet vai travar), e o filme também agradou, mas o último filme exibido é sempre carta fora do baralho.

Still-The-WaterAgora chegamos no pelotão da frente. Logo após a exibição, o japonês Still the Water (Naomi Kawase) parecia que ia passar em branco, mas vem crescendo no boca-a-boca, a história trata de dois irmãos numa pequena ilha no Japão. Há quem ame o cinema de Kawase, ela disse que este é seu melhor trabalho, mas muita gente questiona porque tanto ibope para seus filmes. Mommy (Xavier Dolan) é outro sempre questionado, aos 25 anos e com 5 filmes, Dolan é uma aposta dos festivais, muito prestigio (eu só vi o primeiro filme dele é gostaria de ficar bem longe). Se em seu primeiro trabalho ele queria matar sua mãe, este novo filme é uma espécie de vingança. A cinebiografia Mr. Turner (Mike Leigh) sobre o pintor e mulheres complexas a sua volta vem com força para uma possível premiação a Timothy Spall.

Nesse mesmo pelotão ainda estão: o italiano Le Meraviglie (Alice Rohrwacher), a segunda mulher em competição ganhou elogios crescentes com sua história de uma familia cuidando de uma fazenda de mel. A diretora, novamente, foca na adolescencia feminina. Timbutktu (Abderrahmane Sissako) foi exibido logo no começo, nunca foi considerado favorito, mas sempre elogiado por seu drama contudente sobre todas as mazelas religiosas que vive o norte da África, corre por fora em muitos prêmios.

Cannes2014DeuxjoursunenuitFavoritos, chegamos a eles. Pelo que tenho apurado são 4. Porém, um deles com chances nulas de tão reduzidas. Deux Jours, Une Nuit (Jean-Pierre e Luc Dardenne), os irmãos belgas já ganharam a Palma duas vezes. Nunca alguém ganhou uma terceira. A regularidade deles é impressionante, desde A Promessa que eles lançam um filme a cada 3 anos, e sempre estão entre os premiados. Não deve ser diferente, Marion Cotilard é a principal favorita (mas há muitas competidoras) ao premio de atriz. O filme é um fábula moral, um final de semana e uma mulher tentando mendigar seu emprego aos colegas de trabalho.

winter-sleep-cannes-2014-3Winter Sleep (Nuri Bilge Ceylan), o turco é um daqueles que está cada vez mais próximo da Palma, ontem ganhou melhor filme pela Fipresci (ano passado quebrou-se a maldição, mas normalmente quem ganha o Fipresci não leva a Palma). Desde que saiu o lineup eu já considerava ele, e o russo, como os favoritos, e os dois realmente encabeçam a lista. São 3 horas na Capadócia, ao estilo de Ceylan, poucos diálogos, tom poético, cavernas, pequenas tramas com um ator aposentado (Haluk Bilginer, outro com chances) no centro delas.

adieuAdieu au Langage (Jean-Luc Godard), seus filmes estão sempre em Cannes, em mostras paralelas, sua presença na competição significava alguma coisa. Desde os anos 80 que seu cinema chegou a um ponto de agradar a um seleto público (bota seleto nisso), cada vez mais resmungão e de narrativa fragmentada. Dessa vez ele vez com um 3D, e a crítica saiu estarrecida. A sensação que dá é que ele acertou no tom do que vem fazendo há anos, e se aproveitando da nova tecnologia. Seria uma decisão corajosa dar a Palma a Godard, ele nunca ganhou, é um ícone do cinema de autor e uma quebra com todo o cinema tradicional. Mesmo não gostando de seus filmes mais recentes (exceção ao belo Elogio ao Amor), gostaria de ver Godard ganhando para dar essa quebrada com o formalismo protocolar.

Leviathan 1Mas, se eu tivesse que colocar meu rico dinheirinho em alguma bolsa de aposta, ele iria para o russo Leviathan (Andrey Zvyagintsev). Muita gente torce o nariz, eu, particularmente, gosto de seus filmes. Começou com O Retorno (Leão de Ouro em Veneza), depois The Banishment passou batido, e o último, Elena foi premiado na Un Certain Regard (há quem reclame que devia ter passado na competição, naquele ano). Sua exibição de gala na quinta-feira é sinal de prestígio dentro da competição. E, se não é unanimidade, a proporção de admiradores é muito superior, não foram poucos os que pediram a Palma após sua primeira exibição. Poderia ganhar ator, roteiro, direção, mas a aposta é mesmo para ser a Palma de Ouro. Veremos. O filme é ambicioso, com um título desses não era para menos. O filme parece ser um contundente drama sobre a vida russa contemporanea, a corrupção política, a presença da igreja Ortodoxa, o poder, a polícia.

Fora da Competição, além de Jauja, destaques para Welcome to New York (Abel Ferrara) contando o escandaloso caso de Dominik-Strauss. Force Majeure (Ruben Ostlund) sobre o poder de avalanche. O polêmico, e eleito melhor filme na Un Certain Regard, White God (Kornél Mundruczó) e os ucranianos The Tribe (Myroslav Slaboshpytskiy) sem falas, personagens surdos-mudos, e o documentário Maidan (Sergei Loznitsa) sobre os recentes acontecimentos políticos na Ucrânia.

Links da Semana

Neste e no próximo sábado, infelizmente, não será possível o post regular com os links da semana. Estou em viagem, e por aqui o WordPress é bloqueado. Mas não ficaremos sem atualizações. E como o Festival de Cannes está chegando, e em breve saberemos quais filmes será escaladas para a Mostra Competitiva, e demais mostras paralelas. Resolvi realizar uma pequena pesquisa e postar links sobre alguns dos mais interessantes filmes que devem estar escalados para Cannes. Portanto, divirtam-se e ficaremos na expectativa.

Clouds of Sils Maria (de Olivier Assayas) dizem já estar confirmado em Cannes. [IonCinema] [Omelete] [Wikipedia]

Fairyland (de Sofia Coppola) [Variety] [Empire] [Ipsilon] [Deadline]

Maps to the Stars (de David Cronenberg) [Website do Filme] [Collider] [IndieWire]

Two Days, One Night (de Jean-Pierre e Luc Dardenne) [Pipoca Moderna] [Wild Bunch] [The Film Stage]

The Assassin (Hou Hsiao-Hsien) [David Bordwell] [Filmbiz.Asia] [Next Projection]

Horizontal Process (Abbas Kiarostami) [IndieWire][Variety]

A Mosca

amoscaThe Fly (1986 – EUA)

A ansiedade sem limites de cientistas e inventores em confirmar que suas invenções realmente tornam possíveis situações, aparentemente, impossíveis são reticentes no cinema. David Cronenberg (naquela sua fase onde o grotesco, as deformações e rios de gosma nojenta tomam conta da tela) também deu seus pitacos no assunto. A mistura desse estilo de excentricidades visuais com um cuidado milimétrico em narrar uma história clichê, dosando sabiamente seu fascínio pelo “nojento” por toques de humanidade (aqui na relação amorosa entre criador e a jornalista), funciona perfeitamente causando uma atração pelo suspense, e pela deformidade que se estabelece na congruência homem-mosca.

Praticamente todo filmado dentro do laboratório com as máquinas que poderiam “mudar a humanidade como conhecemos hoje”, Cronenberg consegue criar não só a atmosfera exata, como o próprio dilema das transformações sociais (do sujeito introvertido, passando pela libertação pelo romance, até os limites da liberação ao partir “à caça” num bar qualquer), assim como a expectativa pelo caminho que a mutação possa tomar. Até o grand finale quando se questiona até onde vai o limite de um experimento e até que ponto o amor pode “suportar” uma relação. Cronenberg flerta com o grotesco e com o amor, os mistura num mesmo recipiente e consegue desenvolver os mesmas temas numa roupagem freak, e atraente.

Cosmopolis

Cosmopolis (2012 – EUA)

Essa adaptação de David Cronenberg, do livro de Don DeLillo, me parece um ser estranho dentro da mais recente sequencia de filmes do cineasta canadense. A trama traz uma vontade alucinante de se colocar como uma feroz crítica ao capitalismo, não faltam movimentos e ideias a esse respeito (o protagonista aposta contra o Yuan, brincam em transformar o rato na nova moeda forte internacional, enquanto isso desfila de limusine por Manhattan).

Aliás, destino esse que parece inalcançável, será um dia na vida do multi-bilionário Eric Parker (Robert Pattinson, esforçado, mas tão fraco). O excêntrico ricaço vive do mercado de ações, quer cortar o cabelo enquanto a cidade está um caos, entre esse trajeto até o cabeleireiro se reúne com tipos, transa, discute mercado de capitais, vive atentados contra sua vida.

O problema está justamente no que o filme deveria guardar de melhor, os diálogos. A dose de filosofia barata, de discursos demagogos sobre a excentricidade do poder e a necessidade do novo, pelo novo, vem retocada por símbolos de luxuria e poder tão fortes e explícitos que não conseguem ir além de uma verborragia de futilidades elitistas.

Cronenberg aparece aqui e ali com enquadramentos fora do comum, com cenas esquizofrênicas na limusine, mas nada que dê a ele sua identidade, são diálogos furados e Pattison com cara de drogado em busca de alguma aventura que o cause adrenalina.

Um Método Perigoso

A Dangerous Method (2011 – ING/ALE/CAN/SUI)

 A fascinante história da relação entre Carl Jung e Sigmund Freud, contada com elegância por David Cronenberg. Início do século XX, o pai da psicanálise (Freud – Viggo Mortensen) enxerga em Jung (Michael Fassbender) seu discípulo, há uma enorme discussão cientifica sobre os rumos científicos dessa especialidade da medicina. Freud prega que todos os disturbios estão ligados à sexualidade (ok, comentário raso, não cabe aqui detalhar suas teorias), e uma corrente de psquiatras segue suas teorias, entre eles Jung. A trama dá inicio quando Jung começa o tratamento com Sabina Spielrein (Keira Knightley) sensivelmente atormentada, altamente culta.

Enquanto assistimos aos desdobramentos da relação Jung-Sabina, as dicussões cientificas entre Freud e Jung tornam-se acaloradas, rumo ao distanciamento de ideias. Cronenberg capta isso muito bem, de forma sutil e extremamente elegante, ele conduz as diferenças e discussões, assim como toda a carga sexual nas interrelações entre médicos e pacientes. São pessoas que gostam de discutir, de argumentar, e brincam de falar de si mesmas, como se pudessem permanecer invulneráveis aos comentários.

Videodrome – A Síndrome do Vídeo

Videodrome (1983 – CAN)

Entendo os fãs de filmes como esse, elementos de filme de terror tão bem inseridos por David Cronenberg, os efeitos especiais simplesmente incríveis (como o movimento na fita de VHS ou a mutação da mão e arma), são conjunturas nojentas que levam ao delírio fãs de gênero. Sua força visual é inegável, inclusive por ser dela que a própria trama se desenvolve, mesmo não comprando a idéia do filme tais características presentes e marcantes precisam ser reconhecidas e festejadas. Porém o bizarro vai cada vez mais tomando espaço do que poderia ser erótico, a teoria da conspiração acaba pulverizando toda uma construção orquestrada pelo suspense, e pelas visões do diretor de um canal por assinatura pornográfico (James Woods) que de tanto buscar por algo diferente se depara com espécie de snuff movies e toda uma rede envolvendo tais filmes “malditos”. Cronenberg que usava a favor do suspense todos os elementos gore e asquerosos que havia lançado em cena, canaliza toda a força narrativa para uma conspiração envolvendo trama rocambolesca e personagens que desejam se expressar pelo macabro. O status de cult se equilibra muito mais pela ousadia.