Posts com Tag ‘David Gordon Green’

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Manglerhorn (2014 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

A carreira do cineasta David Gordon Green começou muito bem, até se tornar essa fotografia esquizofrênica, quando se olha para o todo. Seus primeiros filmes realizados como de um discípulo de Terrence Malick, marcaram uma coesa visão sobre o americano médio sulista (seus dois mais celebrados filmes são George Washington e Contracorrente), cinema indie americano que escapava da cartilha Sundance (exceção apenas em Prova de Amor). Depois de fincar seu nome num caminho solidificado, partiu para as comédias no estilo Judd Apatow, como Segurando as Pontas.

Sua filmografia virou de ponta cabeça, e, por algum motivo, após algumas dessas comédias tolas, Gordon Green decidiu retomar de onde havia parado. Vieram Prince Avalanche e Joe (o mais próximo de chupinhar Malick que o diretor chegou), e a clara demonstração que quanto mais tenta, mais se afasta no caminho que trilhava no início da carreira.

Seu novo filme foi escrito para Al Pacino, após um encontro casual entre os dois, onde Gordon Green questinou se o ator não aceitaria trabalhar com ele. Al Pacino é outro que envelheceu e continua tentando, não tem medo de arriscar, topa papéis pequenos que possam trazer sua carreira a uma redenção (não que fosse necessário para o todo, mas ao presente sim). E juntos contam a história desse homem amargurado, que escreve cartas (que não chegam a ela) ao amor da juventude, enquanto vive em pé de guerra com o filho, e tenta demonstrar carinho à neta.

A obviedade do roteiro, aliado ao tom melancólico modorrento, transformam Manglehorn no exemplo perfeito dessa fase de retomada de Gordon Green. Alguem que segue tentando reconstruir o que perdeu, por suas próprias escolhas, e quanto mais tentativas, mais se distância doque seria reconfortante. Gordon Green cada vez mais sombra de um cinesta promissor de outrora.

JoeJoe (2013 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

David Gordon Green largou mão das comédias e voltou ao tom dos filmes do início de sua carreira. Sempre filmando o interior dos EUA, cidades ligadas ao mundo rural, o povo mais interiorano de famílias violentas e problemáticas. Green não pode reclamar das comparações com Terrence Malick, afinal, além de muitos pontos de congruência, ele escolhendo um ator que acabara de trabalhar com Malick (Tye Sheridan, em A Árvore da Vida) é pedir pelas comparações.

Vejo sempre como positivo um autor que tem uma marca autoral forte, e Green é dessa turma. A aridez que se mistura com a vegetação, os tipos, as roupas, essas cidades que são a raiz do povo americano, mas que estão tão distantes das grandes capitais, como New York. Green invade o íntimo dessas pessoas. Joe (Nicolas Cage) é um ex-presidiário que vive como capataz, sua missão é cuidar dos empregados que vão “envenenar” árvores para serem derrubadas, e ali plantar-se pinheiros (mais lucrativo).

No meio daquele mundo rural que ele conhece pai (Gary Poulter, um sem teto que morreu 2 meses após as filmagens) e filho (Sheridan). Um bêbado vagabundo, e o outro um garoto entusiasmado. A metáfora entre árvores e pessoas não funciona, a imprevisibilidade e explosividade de Joe também não são lá tão marcantes. Mas, é nessa irregularidade que o filme melhor se equilibra, onde se percebe seu charme. Afinal, as pessoas são tão frágeis e volúveis, e Green filma a marginalidade como rotina familiar.

Prostituição, cães, famílias fragmentadas, como se o ambiente fosse influenciado “pelo ar”. Coragem, ombridade, justiça, colocadas de lado por interesses mesquinhos e pessoais, a vaidade como lei suprema, e tantos Joe’s por ai, fazendo tanto mal a si próprios até encontrar alguém que eles finalmente acreditem que valha a pena investir valores que não sejam financeiros.

princeavalanchePrince Avalanche (2013 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Tem sido celebrado como o retorno de David Gordon Green, ao estilo que lhe fez despontar no início da carreira, após algumas comédias para estúdios de Hollywood (Judd Apatow e sua turma). O retorno a lugares bucólicos, inóspitos, da relação do ser humano com a natureza. Por mais que, Gordon Green, insira o humor aqui, muito além do que deveria, quase um alívio ao peso da decepção da vida deses dois homens.

Estamos no Texas, um ano após o grande incêndio (de 1987) que devastou uma enorme parte da floresta. Alvin (Paul Rudd) e Lance (Emile Hirsch) realizam um trabalho solitário, pintar as faixas amarela que delimitam a estrada. Quando os dois falam de mulheres (Alvin namora a irmã de Lance) é que se abrem, de alguma forma, a forma como Gordon Green encontrou para desenvolver seus personagens, buscar o conflito e reconciliação entre esses dois homens.

A palavra de ordem é renascimento, não que eles vivam dramas fundamentais, são apenas corriqueiros, mas são por essas fragilidades que o cineasta tenta estabelecer alguma relação com os outros personagens que aparecem no filme. Libertação, existencialista, a profundidade é bem menor do que se espera, o próprio renascimento do diretor não é tão emblemático assim.

contracorrenteUndertow (2004 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Com apenas três filmes, David Gordon Green desenvolveu uma obra consistente sobre o sul dos EUA, fugindo das metrópoles para estabelecer suas histórias nos rincões, nas regiões rurais, naquelas localidades onde as novidades tardam a chegar. Lugares onde o ritmo de vida é bem menos afetados pela velocidade das grandes cidades. O discípulo de Terrence Malick mostra esse Estados Unidos que cheira a barro, que sente o suor longe de Manhattan, que guarda o mais conservador da tradição dessa nação.

O filme é sobre temas universais, relações familiares, ou, mais precisamente, disputa entre irmãos e relação pai x filho. Segredos do passado, rusgas mal resolvidas, tudo vem à tona quando o viuvo (Dermot Mulroney) pede que seu irmão (Josh Lucas), recém saido da prisão, o ajude a cuidar dos filhos (Jamie Bell e Devon Alan). É um negocio arriscado, feridas do passado ainda não foram curadas, e surgir a faísca é apenas questão de tempo. Gordon Green foge do thriller (por mais que haja uma caçada em tom de road movie) para um gênero próprio e inclassificável, numa familia de culpados e homens com disturbios morais, resta a duas crianças desbravar o desconhecido numa luta pela sobrevivência.

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All the Real Girls (2003 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Novamente David Gordon Green volta seus olhos, e personagens, para vida em zonas mais rurais dos EUA. As cenas entre campos são novamente influencias claras do seu admirado Terrence Malick (aliás, as semelhanças não param por ai, praticamente um sub Dias de Paraíso), porém Gordon Green acrescenta aqui características mais específicas do cinema indie americano (nesse ponto, a cena do boliche, especificamente o abraço, é típica).

É sobre essa coisa de um romance que transforma a vida de dois jovens. A garota mais jovem (Zooey Deschanel) e o conquistador da cidade (Paul Schneider), ambos finalmente se entregam verdadeiramente à paixão. Gordon Green parte da irmandade com os amigos para a proximidade com a namorada, recheado de diálogos desajeitados e sentimentos puros e explosivos.

Logo a seguir, a história (escrita por Green e Schneider) segue para a inversão de papéis, o destruidor de corações que fica de coração partido. E sofre, e passa vexame. Nesse ponto, Gordon Green cai pelo sentimentalismo, a dor latente, foge daquela coisa onírica e sensitiva, para algo que se aproxima da dor física. Lá se vai a essência, a coisa desajeitada do amor quando as palavras não parecem dizer coisa com coisa, sobram as intrigas com aqueles à sua volta.

George Washington

Publicado: setembro 10, 2013 em Cinema
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George Washington (2000 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

David Gordon Green é, declaradamente, fã de Terrence Malick. Essa adoração pode ser notada claramente em seus primeiros filmes, este, que marca a estreia do diretor, é aberto com uma narração em off, típica de Malick, enquanto a imagem acompanha diversos personagens por uma área rural e pobre da Carolina do Norte.

Num formato pretensamente simples, Gordon Green trata de tragédia e heroísmo, mexe com a cabeça daqueles garotos. Um cinema de sensações, e de observações. Garotos com seus 12 anos conversando sobre a vida, naquela fase em que estão deixando os brinquedos por outros interesses. Guardando segredos, e tratando desse mito de ser herói americano, o boom que fatos diferentes podem reagir de maneiras tão distintas na cabeça de meninos.

Gordon Green prefere amansar a questão racial, resgata a figura do primeiro presidente americano, são conexões particulares, quase poéticas: o garoto sonhador, a menina que troca de namorado, o pacto entre amigos, o calor, a representatividade da capa para identificar um ato heroico. Um rito de passagem, extremamente sensitivo, que quase se perde pelo calor que quase extrapola a tela, nas falas mansas, na pobreza inequívoca.