Posts com Tag ‘David Lynch’

Lucky (2017 – EUA) 

O sabor de envelhecer. John Carrol Lynch e seu simpático filme sobre a inevitável luta contra o envelhecimento, esse caminho sem volta para a máquina que é o corpo humano. Em seu último filme, o ator Harry Dean Stanton expõe toda as marcas do tempo em seu corpo, enquanto o filme constrói um sólido personagem através da sua rotina e de seus relacionamentos sociais. Teimosia, passatempos, e o sabor agridoce de enfrentar o medo da morte, a solidão e a forma como encarar o mundo. David Lynch faz participação especial, mas é a entrega de Harry Dean Stanton e seu estilo tão expressivos que tornam o filme nessa bela homenagem à velhice.

Road to Nowhere (2010 – EUA)

Eu não conseguia pensar em mais nada, na minha cabeça só vinha David Lynch, Cidade dos Sonhos, David Lynch, Cidade dos Sonhos. Estamos diante daquele brincadeira de filme dentro do filme, do espectador se perder nesses dois tempos e não saber o que é “realidade” e o que é “ficção”. O veterano cineasta Monte Hellman apresenta todos seus truques para criar essa narrativa que não é dramática, nem um thriller e nem policial, e ao mesmo tempo deseja ser tudo isso e muito mais. Há filmes em que esse formato deslumbra, outros a fórmula (que na verdade é a louvável falta de fórmula e um diferencial em se narrar uma história) pode soar como um conjunto de cenas vazias pontuadas por um estilo sofisticado. Portanto, já espere que toda a trama dentro da trama e a mistura do que era roteiro com vida real não vá te levar a lugar nenhum, Hellman quer mesmo buscar o desconforto repetindo takes até a que a atriz sinta “ter encontrado a perfeição” quando no fundo ela pode não ser quem parece, e seu envolvimento amoroso com o diretor do filme pode ter interesses muito maiores do que interpretar a vilã/heroína Velma.

veludoazulBlue Velvet (1986 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Uma orelha encontrada num terreno baldio por um jovem que prima pela curiosidade, uma cantora de boate sofrendo nas mãos de um sádico, uma rede de corrupção policial envolvida com tráfico. Numa daquelas cidades do interior dos EUA, onde as casas não têm muros e há flores espalhadas por todos os cantos,a persona repugnante do sádico Frank Booth (Dennis Hopper) é o líder de uma gangue de arruaceiros que aterroriza a pacata cidade. O excêntrico viciado é comovido pelas canções de Roy Orbinson, mas é o veludo azul que lhe desperta incontroláveis desejos sexuais.

A cantora Dorothy Vallens (Isabella Rossellini) é sua refém sexual, a relação baseada no masoquismo, no puramente bizarro. O curioso Jeffrey Beaumont (Kyle MacLachlan) encontrou a tal orelha e decide investigar clandestinamente após ser incentivado por Sandy Williams (Laura Dern). Acaba ligado a Frank e Dorothy, apaixona-se por ela, que também se sente atraída pelo jovem. Suspense pouco convencional nas mãos do sempre intrigante David Lynch, entre cenas extravagantes há uma curiosa bipolaridade entre o moralismo da sociedade e a bizarrice.

Tudo com um forte cheiro de noir, misturado com cores fortes e o recorte pessoal de Lynch. A superficialidade de algumas sequências é combalida pela inventividade de tomadas delirantes e fabulosas, por mais que a trama siga com poucas surpresas efetivas. Ambíguo, heterogêneo, nos limites do provocante, críticas seladas pelo simbolismo, parece encaixar-se perfeitamente na obra de Lynch, não o bastante para que possa ser unanimidade.