Posts com Tag ‘Denis Villeneuve’

A Chegada

Publicado: novembro 28, 2016 em Cinema
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achegadaArrival (EUA – 2016) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

A grandiosidade de Dennis Villeneuve agora chega ao espaço. Interessante como o cinema americano voltou a explorar ativamente esse gênero nos últimos anos após um curioso hiato. A abordagem do cineasta canadense é existencial, semelhanças facilmente perceptíveis com Arvore da Vida, de Terence Malick, até nos enquadramentos e distancia da camera de sua protagonista (Amy Adams). 

Passada essa primeira similaridade, podemos refletir do quanto Villeneuve busca inspiração em Kubrick e seu 2001 porque é pela incomunicabilidade que a narrativa desenvolve todo seu alicerce. Doze ovnis se espalham pelo planeta, imóveis. No misto de curiosidade e medo, os países se aproximam, tentam se comunicar enquanto participam do jogo diplomático com as demais nações (o que revelar e o que não revelar), ao invés de unir forças. 

A presença extraterrestre fica diminuída a capacidade linguística de desenvolver conhecimentos para estabelecer comunicação. Villeneuve usa como pano de fundo essa preocupação com o coletivo humano, mas realiza seu filme totalmente calcado nas experiências individuais de uma única pessoa (Amy Adams) e seus dramas pessoais a partir do contato com os heptapods. Dessa forma, o clima de mistério e interesse é canalizado na banalização individual quando o desfecho se encaminha.

sicarioSicário (2015 – EUA/CAN) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Revelado ao mundo com Politécnica (sobre o massacre causado por um atirador numa escola canadense, ocorrido antes de Columbine), sua carreira deslanchou desde então, ainda que todos os filmes a seguir fossem de gosto duvidoso. Finalmente, este parece ser seu melhor filme, desde Politécnica, alguns dizem que é o True Detective do cinema. Não passa de um thriller competente, daqueles que Hollywood lança dezenas, todos os anos. O inexplicável hype em seu nome, e em seus filmes, é que catapulta este filme para níveis que não merece.

Policia americana combatendo o trafico no México, a especialista em sequestros (Emily Blunt) é recrutada por um esquadrão da polícia, liderado por Matt Graver (Josh Brolin), especializado em combater os chefões mexicanos, principalmente o misterioso Alejandro (Benicio Del Toro). Vender que a policia age de maneira suja para conseguir seus objetivos (os fins justificam os meios), parece ser um recado meio careta nos dias atuais. Sicario, no México, são matadores de aluguel. Por isso, restam a eficiência do filme policial que Villeneuve demonstra aqui, aliado às cenas de alta tecnologia como dos soldados americanos na guerra do Iraque, nada espetacular.

ohomemduplicadoEnemy (2013 – CAN) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

O romance de José Saramago, sobre a questão da identidade no mundo contemporâneo, nas mãos do diretor canadense Denis Villeneuve se tornou um suspense, com toques sombrios e sobrenturais (tentando imitar David Lynch). Preste atenção em todos os detalhes, procure os mínimos detalhes até entender o quebra-cabeças que explica a relação e idêntica semelhança entre Adam e Anthony, interpretados por Jake Gyllenhaal.

Clones? Sósias? Irmãos? Como podem ser tão idênticos? O filme limita-se a estabelecer um clima de suspense para levantar tais suspeitas, até descambar para essa necessidade de criar a tensão. As mulheres em cena são meras coadjuvantes, tanto a mãe (Isabella Rosselini), quanto as esposas/namoradas (Mélanie Laurent e Sarah Gordon) funcionam como meros trampolins para as conexões da história que tentam embaralhar, antes de explicar.

O tema da identidade inexiste no roteiro, restando essa alternativa, bem mais comercial, de criar mistério sem discutir nada. Bem mais fácil buscar cenas de algum teor lacrimoso e qualquer possitibiidade de dualidade na interpretação.

osuspeitosPrisioners (2013 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Denis Villeneuve tem uma carreira extensa como diretor, mas seu nome se destacou mesmo com Politécnica (sobre um atirador numa escola canadense, antes de Columbine). Seu filme seguinte (Incêndios) ganhou adeptos do público que se envolve com a “história” e raiva nos que se incomodam com as coincidências do destino. O sucesso foi o bastante para que ele conseguisse angariar um elenco de peso (Hugh Jackman, Jake Gyllenhaal, Maria Bello, Viola Davis, Melissa Leo, Paul Dano e Terrence Howard).

Trata-se de mais uma história sobre “quem é o bandido?”. Alguns suspeitos, pais desesperados pelo desaparecimento das filhas, e um policia apanhando para conseguir desvendar o mistério. Porém, diferente de outros filmes do gênero que se destacaram, Villeneuve apenas conta uma história, do seu jeito pop com quê de autor (que de autor, passa longe). São planos banais, atuações e diálogos também básicos, e a manipulação de fatos e personagens ao bel-prazer do roteiro. Espanta que tantas pessoas ainda se surpreendam com tais artifícios.

Joshua Oppenheimer• Act of Killing: entrevista com o diretor (Joshua Oppenheimer) de um dos melhores filmes do ano, sem sombra de dúvidas [BFI]

• Batman vs. Superman: nem bem o filme do Homem de Aço chegou aos cinemas e já estão especulando nomes de peso para o anunciado filme, veja a lista [Collider]

• San Sebastian: o festival espanhol soltou essa semana alguns dos filmes, entres eles os novos de Alex de la Iglesia e Denis Villeneuve, que estarão na próxima edição [San Sebastian]

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Estréia amanha um dos indicados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Incendies (2010 – CAN)
 
Cenas de crianças tendo suas cabeças raspadas, o som de You and Whose Army?, o tom do filme está implícito, vamos falar de temas definitivos, vamos falar de uma tristeza sem fim, as crianças, a lentidão das imagens e o Radiohead não estão ali a toa. Essa coisa de ser um filme canadense, sendo que é todo filmado no Oriente Médio e as partes no Canadá não tem relevância alguma provam que o relevante é o dinheiro, é de onde vem o financiamento, a memória, a história, o sangue e suor escorridos do outro lado do mundo (e em outra língua) não tem importância alguma.

A mãe sofria de uma bipolaridade de coragem, sua história de bravura e força é antagônica aos segredos que ela revela (ou obriga os filhos a descobrir) quando de sua morte. Estamos na leitura do testamento e os gêmeos descobrem que têm um irmão e que sua mãe deseja que os dois viagem às origens para entregar uma carta a ele a ao pai dos dois. O mote para os flashbacks está inserido, desse ponto em diante viajamos numa história sofrida de crenças religiosas, sofrimento, dor e mortes. Denis Villeneuve filma a violência com a brutalidade do banal, como se fosse coisa corriqueira (e o filme prova que realmente é), o cineasta já havia feito isso em Politécnica (esse um filme tipicamente canadense). A beleza das imagens, o impacto de algumas cenas (a dos ônibus é de cortar o coração), Villeneuve mergulha nessa vida de sobressaltos e terror que vive o Oriente Médio, as disputas que afastam as pessoas. 
 
O grande se não é o próprio autor do livro a qual o roteiro foi baseado, Wajdi Moauwad leva tão a sério sua idéia genial que abusa das coincidências. Ter dó dos personagens é bobagem, contar uma história sofrida de uma mulher renegada pela família, torturada, massacrada, e fazer disso tudo pano de fundo para os horrores que tanto assolam muçulmanos e cristãos da religião era pouco, não teria tanto impacto e relevância, certo? Na cabeça dele sim. Por essas e outras, com o início do desfecho, e daí uma necessidade sobrehumana de explicar (com narração) o que já está entendido, toda a construção fotográfica e aterrorizante de Incêndios desanda para essa necessidade de um impacto ainda maior, de adentrarmos no íntimo do íntimo, no fazer dessa uma história particular, e não mais um desses meros casos de sofrimento causado por essa guerra sem fim.

Politécnica

Publicado: setembro 28, 2009 em Cinema
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politecnicaPolytechnique (2009 – CAN) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Muito antes do massacre em Columbine, mais precisamente em 6 de Dezembro de 1989, a Escola Politécnica de Montreal foi horrorizada com a ação de um jovem atirador (Maxim Gaudette). Em tom sereno, o garoto invadiu uma das classes de engenharia, e apontando sua arma ordenou que os homens saíssem da sala, enquanto as mulheres deveriam se agrupar num canto. Sumariamente disparou contra as garotas. Não contente, partiu pelos corredores da escola, atirando em todas as mulheres que encontrava. Mais de uma dezena de mortas, outra dezena de feridos. Misógino, motivado por um ódio ao feminismo e julgando que as mulheres estariam em seu espaço na sociedade.

Comparações com Elefante de Gus Van Sant são óbvias, e os filmes apontam diferenças gritantes. Dennis Villeneuve opta por um filme muito mais impactante visualmente, o massacre é dramatizado em minúcias, cada sofrimento, cada ferimento (principalmente pela introdução apresentando algumas daquelas meninas, aos olhos do espectador, elas já são pessoas com alguma história). Se nos maravilhamos com a complexidade de planos e poesia enraizada no filme de Van Sant, Villeneuve foca nos fatos e extrai deles um resultado intrigante, ora assustador, ora um significativo ensaio que verdadeiramente aterrorizaria qualquer um.