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Something’s Gotta Give (2003 – EUA) 

Algumas vezes deixamos passar alguns filmes que aparentemente possam oferecer mais do mesmo, vez ou outra você se depara com um desses hiatos e percebe que são realmente mais do mesmo, mas há neles um algo mais, um charme, que merece respeito. A comédia romântica de Nancy Meyers, com Jack Nicholson e Diane Keaton é um desses exemplares típicos do gênero, mas carregados do charme desse amor na terceira idade, e de personagens com personalidade forte que enriquecem o humor até ingênio, porém sempre capaz de obter os resultados esperados.

O charme é notável pela liberdade com os amores enfrentam as idades. Keanu Reeves faz o médico que serve de contraponto para o triângulo amoroso, altamente interessado intelectualmente nessa escritora que se sente atraída pelo homem que leva a vida do oposto do que ela acredita. Os personagens influenciam uns aos outros, e nesse jogo de bobagens e balelas românticas que Meyers nos faz embarcar pelos trilhos de sua história.

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Reds

Publicado: maio 7, 2012 em Cinema
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Reds (1981 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Qual o lugar desse filme na história do cinema? Praticamente não se fala nele, parece esquecido, assim como a carreira de Warren Beatty, alias é óbvio que o projeto saiu pelo prestígio de Beatty em Hollywood à época, e sua força pode ser medida se olharmos rapidamente para os seguintes pontos: filme sobre comunismo onde os soviéticos não são tratados como vilões, ainda antes da queda do Muro de Berlim.

Tudo bem que a primeira metade é unicamente focada no romance entre John Reed (Beatty) e Louise Bryant (Diane Keaton), e de uma forma até burocrática. As questões políticas que até então surgiam timidamente ganham contorno quando o jornalista Reed vai à Russia cobrir a Revolução Russa, o ano é 1917, e Reed se torna um ícone do socialismo soviético nos EUA. Algumas sequências impressionantes entre hinos e bandeiras vermelhas, contrastam com a grandiosidade da proposta do ator/diretor/produtor Beatty em tornar tudo um drama romântico-político.

Daqueles filmes grandalhões, voltados a prêmios no Oscar (e realmente arrebatou alguns como melhor direção), mas passados tantos anos se apresenta numa proposta cansada, um tipo de cinema que diz pouco sobre o tema em si, e vive nessa gangorra de uma cinebiografia focada num romance ou da importância histórica do americano que até hoje está enterrado ao lado do Kremlin, sem que ele pareça ser julgado pelo próprio filme.

Love and Death (1975 – EUA)

E há aqueles filmes que desde o primeiro instante voce percebe que não serão excepcionais. Ainda assim, um deleite durante toda sua duração. E assim é essa incursão de Woody Allen no universo da literatura russa. Woody Allen foi parar nas Guerras Napoleonicas, o covarde e intelectual é levado ao front, suas manias parecem as de um extraterrestre naquela Rússia rural de valentia e vigor físico. Prestes a ser executado pelas tropas francesas, Boris traz o flashback de sua vida, da paixão por Sonja (Diane Keaton) a seus momentos em batalhas ou duelando por uma donzela. O humor ácido e inteligente de Allen está ali, amparado pelas referencias literárias e até por O Sétimo Selo de Bergman, e nós aqui para rir das trapalhadas inimagináveis desse sujeito único que para onde seja transportado é capaz de satirizar com elegância.

opoderosochefao3The Godfather, Part III (1990 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

As primeiras cenas resgatam a casa, do filme anterior, abandonada. Folhas secas, vento, móveis empoeirados, solidão. Em poucos instantes, Francis Ford Coppola posiciona Michael Corleone (Al Pacino) em sua nova função social de ex-marido. Ele fracassou com a família, e o filme todo será sobre redenção e a tentativa de reconstruir o vaso esfacelado que se tornou sua vida. Da legalidade dos negócios à reconstituição da harmonia familiar – dentro do que seja possível, já que o divórcio de Kay (Diane Keaton) foi inevitável. A Igreja Católica chega forte como um dos pilares desse terceiro capítulo, é nela que Michael foca seus esforços, o desejo de deixar o passado negro e viver de negócios lícitos. Essa inclinação causa o interesse das demais famílias em entrar no negócio do Vaticano, e a inimizade da máfia italiana que ali estava. Quando mais alto, maior o grau de corrupção humana.

Novamente o filme é aberto com uma festa, Michael condecorado pela Igreja. Mas a primeira aparição em cena é de Connie (Talia Shire), que dessa vez se torna figura central, uma mulher forte, cruel e agora de participação determinante nos negócios dos Corleones. Ela assume a função firme feminina, que no filme anterior era de Kay, mantém a união familiar, mesmo que para isso tenha que definir pela violência. Michael é um homem amargurado e solitário, as tragédias de sua vida estão estampadas em sua tristeza, e a culpa pelo assassinato de Fredo o acompanha eternamente. Os filhos cresceram, Anthony quer ser cantor, já Mary (Sofia Coppola) mantém a doçura e proximidade com o pai, enquanto apaixona-se pelo primo, filho bastardo de Sonny, Vincent Mancini (Andy Garcia) que acaba por se tornar o sucessor de Michael enquanto uma nova guerra entre os mafiosos é iniciado (é assim, os jovens sucedem aos velhos).

opoderosochefao3_2A corrupção do Vaticano, imagino o furor causado pelo roteiro ter acusado o assassinato do Papa João Paulo I (baseado nas inúmeras teorias que cercam o caso). Coppola seguiu firme, provocando a todos e criando cenas antológicas. Continua a presença marcante das laranjas e cavalos nas cenas que precedem mortes, a trilha sonora magistral de Nino Rota (que faz o coração bater forte a cada aparição), e as festas que guardam encontros que desencadeiam as tramas posteriores. A cena da confissão de Michael, em pleno Vaticano, filmada por entre arbustos, o romantismo das mãos dadas (Mary e Vincent) em meio aos pedaços de nhoque, mas nada se compara a longa sequencia de suspense no teatro, tantas tragédias acontecem enquanto a ópera Cavalleria Rusticana encanta o público. Dentro e fora do teatro, os destinos são fechados, até o gran-finale na escadaria e o grito mudo. Falta uma atriz que interpretasse minimamente Mary, sobre a herança dos filmes anteriores, que juntos constituem a maior trilogia do cinema. A trilogia de O Poderoso Chefão é uma novela elegante e brega, magnânima e crítico, essencialmente humana por mais que seja o retrato horrível da crueldade dessa humanidade. O retrato de duas realidades, a do crime organizado e da desestruturação das famílias ao longo do tempo.

opoderosochefao2The Godfather: Part II (1974 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Lealdade é a palavra de ordem da saga dos Corleone. Ela está acima dos interesses comerciais, dos sentimentos. É a lealdade que move as decisões, dá credibilidade e camufla outros erros. Tudo pode ser perdoado, exceto a falta dela. O segundo capítulo da saga marca a consolidação de Michael (Al Pacino) como o chefe da família Corleone, colocando sua maturidade à prova entre tantos interesses individuais, dentro e fora do clã. O diretor Francis Ford Coppola materializa a lealdade como figura máxima, partindo de duas frentes: a nova configuração da família Corleone, sem o pai; e o flashback da migração de Vito (Robert De Niro) para os EUA, e seu início no mundo do crime.

Cassinos e hotéis, investimentos em Cuba (concomitantemente com a revolução de Fidel prestes a explodir), as insatisfações dos aliados que querem mais poder, novas conspirações do mundo máfia e o governo investigando os negócios da família Corleone. Michael enfrenta crises, sua liderança com pulso firme é contestada. As crises matrimoniais com Kay (Diane Keaton). Coppola não se cansa de planos fechados no rosto de Pacino, no auge o ator corresponde com o peso do amargor e a necessidade de ser firme. É um filme com menos sangue, porém muito mais sentido.

De outro lado, a ascensão de Vito Corleone, a fuga da Itália, os tempos difíceis em Nova York, os primeiros assaltos, até outra antológica cena: a morte de Fanucci (Gastone Moschin), com a arma enrolada numa toalha, a vingança que corre pelas veias. Novamente a lealdade de pé, à família, à honra, lealdade aos seus, mas principalmente aos princípios que regem as famílias italianas.

A segunda obra-prima de Coppola é de uma densidade nebulosa, a abertura, com a cadeira marcada pelo uso, após um respeitoso beijo na mão do Padrinho, são detalhes, cenas que representam pela força do silêncio, pelo peso que Coppola sabiamente carrega. O beijo de Michael em Fredo (John Cazale), o filme pede envolvimento total do público para distinguir nuances, compreender o peso da lealdade. Não se trata de meras histórias de mafiosos, o Poderoso Chefão é sobre o poder, sob as dificuldades de tomar decisões, tudo isso elevado ao limite extremo.

opoderosochefao2The Godfather (1972 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

O primeiro plano, fechado, lentamente a câmera vai se afastando, do homem pede um favor, e abrindo mais a imagem. Um escritório, a silhueta do rosto se forma, um breve gesto: Don Corleone (Marlon Brando). Uau! Sua figura domina qualquer cena, seus pequenos gestos parecem colossais, tamanha liderança e potência com que sua presença domina tudo. Respeito, charme do clássico italiano, temor. Don Corleone fala manso, é carinhoso, prima pela família e por seus códigos éticos.

Sinto como se também fosse convidado para a festa de casamento da filha de Don Corleone, as sequencias se dividem entre a fila de favores pedidos e os festejos animados à italiana, e Francis Ford Coppola vai deixando o público se familiarizar, tornar um pouquinho parte da Família, criado do best-seller escrito por Mario Puzzo.

opoderosochefao1Eles são fascinantes, mafiosos, violentos, sejam calmos ou explosivos. O cinema tem esse dom de nos fazer apaixonar por vilões, serial-killers, bandidões. A maior trilogia do cinema faz mais, te convida a participar da família, quase dividindo a função de consigliere com Tom Hagen (Robert Duvall).

Sonny (James Caan), o filho braço-direito de Don Corleone, Michael (Al Pacino), o caçula protegido que diz ser diferente e não pretende fazer parte dos negócios. Um atentado contra a vida do patriarca, o início da transformação.

Se Marlon Brando é soberano, com a fala mansa e o poder de liderança nato, é Al Pacino quem opera o milagre da virada do personagem, de maneira discreta, a transformação se fazendo no olhar, em gestos, o poder hereditário que aflora do ex-soldado. Em contrapartida há Kay Adams (Diane Keaton), a namorada cujas cenas parecem apenas para pontuar a diferença de caráter de Michael da família. Nada disso, cada mínimo detalhe da trama está interligado com acontecimentos futuros, o olhar revelador da porta, antes de ser fechada, na cena final, é apenas parte da importância que a presença feminina de Kay tem na trama. Sutil e definitiva.

As cenas memoráveis (o atentado a Corleone na quitanda, Michael matando Sollozzo (Al Lettieri), a cena do pedágio, a conversa entre Corleone e Michael onde ele avisa o que está por vir e o batismo na igreja intercalado com uma série de assassinatos) se amontoam enquanto a saga dos Corleone enche de sangue a Nova York dos anos 40. Porém, a violência é charmoso, tal qual o sotaque italiano, a macarronada na mesa e o respeito com que a família é colocada acima de tudo. E a trilha sonora de Ennio Morricone? É filme para ser visto de pé, com aplausos entusiasmados a todo momento.

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