Udaan

Udaan (2010 – IND)

Aquela velha história do pai opressor, que pretende fazer o certo e dar o melhor aos filhos, só que sempre do jeito errado. “Voce não vai estudar literatura, cursará engenharia na faculdade e vai trabalhar comigo na fábrica”, deu para entender o tamanho do clichê em que o filme está se metendo? O filho só quer liberdade, reconhecimento, sonha em ser escritor, enquanto isso o pai é violento, linha-dura, o proibir por proibir. E o cineasta Vikramaditya Motwane pega carona nesse tipo de familia batido e combalido pelo cinema, e ao invés de oferecer uma cara mais “pessoal”, prefere pontuar com trilha sonora melodramática, e um conjunto de takes que vão do levemente fora do padrão, até o mais do mesmo. Se a Disney escolhesse um filme na Índia para financiar, este seria o caso perfeito, cansativo sem chegar ao modorrento, repetitivo e com a grande lição da liberdade estampada em todos os planos. A eterna luta pelos sonhos, custe o que custar.

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Os Descendentes

The Descendants (2011 – EUA)

Alexander Payne não precisou de uma carreira extensa para fixar seu nome entre os destaques do cinema atual, principalmente seus últimos filmes são comédias dramáticas misturando humor (de bom ma gosto) com altas doses de melancolia dos personagens centrais (As Confissões de Schmidt e Sideways). Ambos são quase road movies, e neste novo trabalho a proposta é muito semelhante. Não temos um aposentado cruzando os EUA, nem uma despedida de solteiro pelas vinícolas californianas, mas uma ir e vir pelo Hawaí.

No filme, um advogado (George Clooney) se vê em situação delicada quando a esposa sofre acidente grave e corre grande risco de não sobreviver. De um pai ausente, para o único responsável pelas filhas, o sujeito percebe que não sabe o que fazer nessa posição de pai-mãe. Mas, o roteiro não está interessado nisso exatamente, e sim em manter essa fórmula de divertir usando a melancolia, o drama, por isso vem o personagem do garoto boboca, e outras pequenas situações (como a procura incessante pelo corretor de imóveis) para divertir e aliviar a tensão do público.

Diferentemente dos filmes anteriores, o teor dessa melancolia não encontra o ponto certo, a toda hora o filme busca cortes para paisagens magníficas hawaianas (e trilha sonora também típica da região), flerta com a comédia dramática na decisão dos primos de vender um patrimonio “histórico” familiar, um turbilhão de acontecimentos enquanto o homem quer apenas sofrer sua possível perda e aprender a lidar com suas filhas. No fligir dos ovos, Payne apresenta um filme irregular, que brinca além da conta com coisa séria e leva menos a sério o que deveria, mais um exemplar dos personagens dos filmes indies americanos, aqui sem o excessivo poder loser, ainda assim um pouco além da conta. Ainda assim, há a cena final, simples, corriqueira, silenciosa, e basicamente graciosa.

A Separação

Jodaeiye Nader Az Simon / A Separation (2011 – IRA)

Asghar Farhadi parece especializar-se em filmar o caos verborrágico de discussões intermináveis, e que, aparentemente, jamais terão uma solução por si só. Câmera na mão, intensidade nos diálogos, o entra e sai de cômodos, tentativas de afirmação de opinião (conhecemos bem os formatos de discussões, não?), desculpas e dramas. Farhadi cria o clima impecavelmente, mas não se contenta apenas com um drama familiar sobre um casal que opta pelo divórcio. Não, ele vai além, contratam uma diarista para cuidar do pai enfermo e nova discussão, confusão, o caso vai parar no tribunal.

Estamos falando do mundo contemporâneo e metropolitano no Irã, onde a religião está presente no dia-a-dia, assim como os problemas financeiros, as crises pessoais e familiares, o descontentamento geral. De uma série de discussões nasce o caos, duas famílias com seus próprios problemas rotineiros praticamente travam a 3a Guerra Mundial, numa situação onde é difícil (ou impossível) distinguir a razão para qualquer um dos lados. Farhadi está sim discutindo seu país e fazendo-o de maneira micro, buscando nos problemas gerados pela contratação de uma empregada doméstica, toda a desestabilidade de um povo regido por dogmas rígidos e questionáveis.

* indicado pelo Irã ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro

Beyond

Svinalängorn / Beyond (SUE/FIN – 2010)

São duas famílias, em tempos distintos. A atual é apresentada como feliz, o casal acorda na cama e é surpreendido pelas filhas que trazem o café-da-manhã. Essa mãe é a filha na família do passado, e essa família completamente diferente, pais alcoólatras, brigas, desemprego, violência. Leena (Noomi Rapace) tenta esquecer seu passado, não quer deixar que nada dessa “herança” possa interferir em sua vida, em sua família. Ela tenta negar contato com mãe, mas não tem outra opção, afinal ela está internada à beira da morte. A atriz Pernilla August faz sua estréia na direção, usa alguns planos fechados e fotografia granulado tentando trazem para perto dessa mulher que quase sai de controle a cada vez que enfrenta alguma lembrança do passado. Enquanto transcorre essa relação conturbada mãe-filha no presente, o filme vive dos flashbacks narrando a trajetória deprimente dos pais de Leena, o histórico de confrontos, e as dificuldades enfrentadas por ela e seu irmão. E nesse ponto, não passa de um filme convencional, outra história de ma família disfuncional, de pessoas desequilibradas e permanentemente infelizes sempre deixando cicatrizes incuráveis nos inocentes.

* indicado pela Suécia ao Oscar de Filme Estrangeiro

Que Mais Posso Querer

Cosa voglio di più  / Come Undone (2010 – ITA)

E a Itália vai se especializando em dramas familiares, um cinema que há anos anda à deriva, buscando algum tipo de identidade e só sobrevive no cenário internacional de alguns poucos nomes e raros filmes que tragam alguma leveza. Enquanto isso vão se intensificando nesse tipo de drama de familias com orçamento reduzido, sempre levadas a pratica sexual extra-conjugal ou pouco recomendável à sociedade e algum drama que náo chega ao peso do Neo-Realismo, é, de alguma forma, nele que se espelha. Silvio Soldini é um dos nomes que ficou sua assinatura com esse tipo de cinema, naturalista, humano, familiar. Só que, dessa vez, seu filme é medíocre, é banal. Começando pelo mote, uma relação extra-conjugal onde nem mesmo as cenas de sexo ou de algum sentimento são filmadas com vigor. Está tudo implicito nas situações propostas, e isso é muito pouco (o próprio Soldini já fez muito mais). E o filme fica correndo nesse drama que infelizmente se repete a cada esquina, mulher entediada, homem de família, paixão, tesão, e um conjunto de cenas que se comprova isso tudo sem nada além.

Minhas Mães e Meu Pai

The Kids Are All Right (2010 – EUA)

Então a família moderna está estruturada dessa forma, um casal lésbico assume o papel mais “moralista” de manter a estrutura familiar composta de lar, filhos, e todas as cobranças e responsabilidades dos pais. À figura paterna resta o sexo casual, a vida libertária, sem grandes responsabilidades, ainda assim o peso de desejar a vida “normal” com família e o convívio com filhos. Dentro dessa proposta bem quadradinha de uma estrutura social mais moderna e adequada aos novos tempos que cada dia mais aceitam uma vida que não seja hetero, Lisa Chodolenko deixa fluir essa história de doador de semen, do desejo de se conhecer o pai biológico, das dificuldades de um casamento (mesmo que lésbico), e todas as crises que uma terceira pessoa pode causar ao entrar no convívio de uma família. Dentro dessa visão, até certo ponto fechada, de um novo universo que se elabora, o filme corre divertido tratamento de sexo e amor (em diferentes idades), das vaidades profissionais e sociais entre casais, do desejo e da figura de cada um dentro de um lar. Difícil dizer quem dos astros consegue atuação mais contudnete, os três estão ótimos em suas personalidades bem definidas (Julianne Moore, Annette Benning e Mark Rufallo). Sim, em filmes de família, no final tudo dá certo, a vantagem é que aqui os personagens de carne e osso evitam o melodrama, são pessoas de caracter que sofrem com seus próprios erros, por mais que seus instintos os levem a tomar tais atitudes, a vida é assim na eterna briga entre razão e emoção. 

Submarino – Mostra SP (repescagem)

Submarino (2010 – DIN)

Duas crianças vestidas de camisetas em tons pastéis, um lençol branco como cabana para um bebê, o fundo todo branco, Thomas Vinterberg abre seu filme com delicadeza entre os personagens e um aspecto visual impactante. A seguir descobrimos que são eles três irmãos, vivendo com a mãe desequilibrada, alcoólatra. Depois da tragédia o filme pula anos adiante, dois dos irmãos há muito não convivem juntos, um pai solteiro, o outro bebe demais e permite-se a violência. Os dois vivem sob reflexo daquele ambiente familiar, duas vidas sob o caos, perdidos por caminhos que escolheram por falta de discernimento, falta de estrutura familiar. Vinterberg não tem dó de seus personagens, joga-os sarjeta abaixo, e faz isso com alguns diálogos pobres e cenas que tentam captar pelo silêncio algum ranço de sentimento que possa existir dentro deles. Não é um filme honesto, não é um filme surpreendente, é só mais uma história de pessoas perdidas, desesperadas, em busca de atalhos para seus objetivos, pelo menos já é bem melhor do que o cineasta tem feito ultimamente.