Posts com Tag ‘Edith Scob’

horasdeveraoL’Heure d’eté (2008 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Hélène (Edith Scob) dedicou grande parte de sua vida à preservação da memória de seu tio-avô. Com carinho e dedicação exemplar as obras do pintor foram conservadas pela sobrinha e decoram a requintada “casa de campo” da família. Ponto de encontro familiar onde os três filhos e netos encontram-se com assiduidade cada vez mais rara. Olivier Assayas filma com delicadeza e amplitude a discussão sobre o espólio, sobre o valor de cada objeto, a preocupação de Hélène com o fim que será dado a cada objeto, cada móvel. Preocupa-se também com convicções e diferenças entre os filhos, Frédéric (Charles Berling) o mais velho, não deseja que a família se desfaça dos bens, enquanto seus irmãos Adrienne (Juliette Binoche) e Jérémie (Jérémie Renier) não têm interesse algum nessa preocupação de resgate das memórias.

A trama gira de maneira sorrateira e pouco inspirada, sobre esses pontos de vista diferentes. Lembranças e revelações enquanto a família se reúne, provavelmente pela última vez, (a matriarca vive no alto de seus setenta e cinco anos). O trabalho do diretor de fotografia Eric Gautier mostra-se crucial, se Assayas narra seu filme de forma bonita e discreta, é o trabalho de Gautier, intensificando o clima bucólico e nostálgico em cada um dos ambientes, objetos, personagens e sentimentos, o verdadeiro alicerce da história. Partilhas sempre guardam momentos dolorosos, opiniões distintas, frustrações e necessidades (ainda mais com os proprietários em vida). As crianças brincam no jardim, os pais tratam de amenidades, e o filme trata do tempo e das coisas tão valiosas afetivamente a uns e meros objetos sem significado aos demais.

aquestaohumanaLa Question Humaine (2007 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Nicolas Klotz oferece um dos filmes mais esquemáticos e intrigantes dos últimos tempos. Nada é simples, muito menos pouco pensando. De uma aparente conspiração empresarial, dos que almejam assumir a presidência de uma empresa, o filme passa a um profundo estudo da questão humana, de princípios de humanidade, e correlações de multicomplexidade social, criando uma fascinante analogia, entre administração corporativa e o massacre nazista.

Um estudo precioso de personagens e suas correlações, quase um thriller, sem nunca se afastar do mundo corporativo, vivendo apenas de relações humanas e do passado como emoldulador da herança pscicológica de caca um deles. Sua estrutura, não-clara, transforma-se num deleite a cada nova sequência. Um universo de possibilidades que se abre, segredos desvendados que vão muito além do mundo empresarial. A todo momento Klotz está promovendo a discussão, a possibilidade de refletir sob as garras do capitalismo e, principalmente, aos pilares das relações pessoais nesse mundo contemporâneo.

A segunda metade do filme é de revelações, mas, essencialmente de proposições, teorias, e de uma mise-èn-scene capaz de cenas curtidas, com cortes precisos, nos permitindo o tempo ideal de tentar absorver. As imperfeições do psicólogo (Mathieu Amalric), que trabalha no RH da empresa em questão, dão ainda mais peso a essa questão humana proposta, tão ingênuo para uns, e astuto para outros, seus momentos de desequilíbrio, a relação com sua namorada e com as mulheres que flertam com ele, e o joguete na mão dos poderosos da empresa. Até a narração em off, no fim, com tela escura, o público atônito a tantas proposições e essa analogia da carnificina empresarial de uma desumanidade vil e econômica. E a trilha sonora então, genuinamente escolhida, para enriquecer cada espaço entre silêncio e som.