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Curtas do Amigo Eduardo Aguilar

Publicado: agosto 2, 2006 em Cinema
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Projeto Sons

Projeto desenvolvido em oficinas, com os estudantes participando efetivamente do processo criativo execução, roteiro final e direção a cargo do responsável pela oficinas, Eduardo Aguilar (que deixa suas referências efervescerem, principalmente sua paixão cinéfila, tanto nas homenagens, como em aspectos que cortejam Bergman, o Neo-Realismo, o terror; não saberia dar referências desse gênero). São quatro curtas-metragens, cada um deles desenvolve-se numa das fases do dia (o amanhecer, a noite, a hora do almoço…), sempre tendo o sexo como discussão, abordando seus mais diversos aspectos tais como: desejo, ódio, arrependimento, perda, prazer, dor, medo, culpa, angústia, necessidade, amor. Como conjunto o trabalho entrega-se numa busca por tratar o tema com amplitude, inovação, e alta dose de atualidade dentro da nova confecção sexual que se apresenta, intrigantemente libertária sem desprender-se do conservadorismo. Desses é a inovação a desabrochar como grande destaque, são pequenas histórias carregadas de elementos dramáticos, e a inovação está abertamente presente no desenrolar de cada uma, roteiros cuidados para abastecer o público com a quantidade necessária de informações para que possam ter completo entendimento, e um desenvolvimento extremamente criativo e moderno.

 

Jogos (2005)

É a grata surpresa do projeto, já começou me conquistando com o plano na janela que dá vista para a Avenida Paulista. Depois começa a desenhar-se em algo que nossos olhos falsamente enxergam, até a surpresa nos pegar de arroubo (e que surpresa genial). Sua contemporaneidade é mais que objetiva, é pungente. Trata não só o amor, como maneiras de mantê-lo aceso, e a eterna busca pela paixão flamejante. Sofre um pouco em algumas falas que soam artificiais, não pela maneira como foram contextualizadas, e sim como foram recitadas.

 

Claustro (2005)

Esse é um pouco obtuso, talvez lhe falte algo a explicar melhor a reação de seus personagens, suas aflições e sentimentos. Por outro lado há uma raiva incontida intensamente, e também um desejo que pulsa do corpo e dos olhos de Márcia de Oliveira. O travelling inicial tem função dúbia, representar o momento do dia, e dar indícios da atmosfera claustrofóbica que aquele apartamento reserva. É corajoso por não tratar um deficiente como coitadinho (muito pelo contrário), e ainda mais corajoso no desenvolvimento dos sentimentos que marcam seus personagens.

 

O Quadro (2005)

A perda, a separação, vontade de reconciliação, saudades, desejo. Está tudo resumido na história do casal recém-separado que se prepara para colocar a casa à venda. Em um deles ressurge a esperança do retorno, ao se deparar com cada cômodo na lembrança (ou fragmentos) dos momentos que viveram juntos. Esse também sofre de uma artificialidade nos diálogos, como se os atores estivessem com as falas decoradas demais, recitando palavra por palavra, mantendo a mesma entonação de voz, falta na fala a vibração que sobra nos gestos. Destaque para a cena do vinho escorrendo pelo pescoço.

 

Lourdes – Um Conto Gótico de Terror (2004)

Se atmosfera é o triunfo para um filme de terror, Aguilar sabe criá-la perfeitamente. Se os curtas anteriores primavam por roteiros muito bem delineados, nesse é a atmosfera a tomar conta da narrativa, aliás o roteiro parece vago, não elucidativo. Brinca (ou briga) com tabus, sexo versus religião principalmente, pena que Lourdes não parece ir muito longe de todo o clima que o envolve.

 

Oferendas (2006)

Muito mais interessante do que a trama, que na verdade é basicamente simples, está todo o processo criativo desenvolvido. É um filme de atmosfera, ela transpira em cada quadro. Engraçado como a câmera é lenta e ainda assim carrega todo o clima nebuloso, há algo de bergmaniano escondido nos movimentos, ainda que o macabro seja o fio condutor. Soou-me estranho as poucas falas divididas em idiomas diferentes. Ousado, Oferendas sabe ser simples e ousado, tanto em imagens (e alguns interessantes posicionamentos de câmera, há um em especial focando o recinto do ritual exatamente de cima, uma visão “aérea”) como na presença na mente que se mantém após o término. Dos cinco trabalhos citados, o que sem dúvida mais me agradou por parecer mais harmônico em seu conjunto.